Cores do amor

19.06.2018

Entre corações científicos e romantizados, há muitas nuances e versões multicolores. Nem tudo é preto e cinza, certo e errado. Para o amor, vale mais a subversão que a imobilidade. É o que faz pulsar a criação de grandes artistas e estilistas desde sempre   

 

Um casal atravessa o salão, coloca-se na linha de frente e começa a se acariciar. De uma poética sexual comovente, a cena mostra que imperativo de amar é proteger o outro. Ao fundo, a projeção de um coração científico. No espaço, soava o exagero melodramático de Pimpinela cantando “Olvidame y pega la vuelta”, diretamente dos anos 1980. Foi quando o clima mudou e os dois se despiram, sem pudores. A moda não desapareceu com a ausência de roupas. Foi, ao contrário, quando começou a ser apresentada.

Na primeira fila, eu observava aquilo com o mais honesto interesse. “Quero virar sua pele, quero fazer uma capa, quero tirar sua roupa” era o que cantava Mallu Magalhães no exato instante da troca. As peças eram amplas, estruturadas e, claro, com uma forte pegada de androginia. Mostravam, naquele primeiro ato do desfile intitulado “Amor”, do mineiro Ronaldo Fraga no São Paulo Fashion Week, que dois corpos podem ser um só. “Em tempo de guerra, falar de amor é um ato de subversão e resistência”, defende o estilista.

Arruinar com ideias pré-concebidas sobre o amor continuou a ser objetivo. Surgiram a poesia do couro recortado a laser, os poemas eróticos de Hilda Hilst gravados em tecido; tricôs feito casulos, com largas tramas confeccionadas pelas artesãs da Vila da Seda, no Paraná, de onde a Hermès retira 30% dos seus fios de seda. Impactante até para a obra de Jorge Amado, com uma Dona Flor e seus dois maridos, o desfile terminou repleto de camas e cinco modelos abraçados em cada uma delas. Fruto do poliamor.  

Quando a passarela é vetor do verbo amar, torna-se impossível dissociar o poder da representação. E o criador mais importante de imagens de todos os tempos é, sem dúvida, Alexander McQueen. Seja pondo a modelo em um anel de fogo no outono/inverno de 1998 ou com robôs disparando pistolas de tinta a pintar ao vivo um vestido branco, o estilista transformou o desfile em performance, elevando-o ao patamar de arte.

O amor para ele era a mais exultante das emoções humanas e foi a moda que lhe deu força de expressão para agonias e êxtases, muitas vezes até de forma autobiográfica. Os desenhos de McQueen (1969-2010), “um verdadeiro romântico, no sentido ‘byroniano’ da palavra” eram “uma expressão dos mais profundos, em muitas ocasiões obscuras, aspectos de sua imaginação”, declarou Andrew Bolton, responsável pela mostra Savage Beauty, sucesso de público no Museu Motropolitan, em Nova York, um ano depois de sua morte.

O curador evoca a linha de pensamento do escritor inglês Lord Byron caracterizada pelo grotesco. Egocentrismo, pessimismo e, por vezes, até satanismo estão entre suas formas de expressão artística. O título da exposição, aliás (Beleza Selvagem, em inglês), fora inspirado na frase tatuada no braço direito do estilista: “o amor olha com a mente e não com os olhos”. Ela faz parte da obra “Sonho de uma noite de verão”, de Shakespeare.

 

Pintando o Amor

 

Avassalador, intenso, traumático, insubstituível. Quando o amor apresenta diversas faces, torna-se impossível de esquecer. O ser amado não sai da cabeça,  despeito de o desenlace de corpos ser um trauma primeiro. O amor é sentimento derradeiro. Só se desfaz ao largo de muitos anos. Ou quiçá custe uma vida inteira.

Tratando a dor da separação de Diego Rivera, Frida Kahlo pintou o Autorretrato de Tehuana – obra também conhecida como “Diego em Meu Pensamento”, em que a artista aparece vestida com um traje típico mexicano e o rosto do ex-marido na testa, demonstrando a dificuldade de afastá-lo do pensamento. A tela começou a ser feita no ano do divórcio do casal e só foi concluída três anos mais tarde, em 1943.

Ora vibrante, ora melancólico, o estilo de Frida pulsa na pintura. Ela não é apenas sua arte, mas sua completa expressão. Desde o vestir até o despir-se, em tudo permeia o amor. Assim como a arte, sua relação com a moda não é uma via de mão simples. Difícil de categorizar, mas fácil de interpretar: é visceral.

Corria o ano de 2016 quando a Vogue abriu a exposição “As aparências enganam: os vestidos de Frida Kahlo”, com curadoria de Circe Henestrosa Conoan em pleno jardim da Casa Azul. Seus vestidos, incluindo tehuanas, além de coletes que lhe serviram de suporte para o corpo traumatizado pelos trágicos acidentes ocorridos desde a adolescência e da bota que ela mesma desenhou depois que a perna direita foi amputada, foram destaque. As 300 peças ficaram guardadas por mais de 50 anos em um dos banheiros da casa e tiveram de passar por restauro para que fossem apresentadas da forma que inspirou ícones como Jean Paul Gaultier, Christian Lacroix, McQueen e Dolce & Gabbana.  

No enunciado da exposição que tive o prazer de visitar, estava avisado: a mostra não falava apenas do amor como força motriz e das convicções políticas de Frida para usar sua indumentária étnica. Ela propõe tradição e incapacidade como novos componentes que nutriram a decisão da pintora de abusar da excentricidade, mostrando estilo próprio. Frida foi figurinista de si mesma.

No caminho oposto da associação, a moda está vívida em outro autorretrato histórico, datado de 1609. Rubens Brandt pintou uma obra barroca na qual aparece com a esposa Isabela, no ano em que os dois se casaram. Ao lado do casal, uma planta conhecida como madressilva simboliza o amor conjugal e a união.

Pablo Picasso (1881-1973) também teve musas. Muitas, por sinal. Uma delas, Marie-Thérèse Walter (1909-1977), foi retratada em diversas obras que estão atualmente em cartaz na Tate Modern, em Londres. O levante das 80 peças foi feito pela historiadora Diana Widmaier-Picasso, neta do casal, e resultou na exposição Picasso 1932: Love, Fame and Tragedy, que celebra os 365 dias em que o artista pintou algumas das suas mais importantes obras, entre elas O Sonho, um retrato da amante. Naquela época, apesar de gozar férias com Marie-Thérèse na Riviera, o artista era casado com Olga Koklova, que sofria de um distúrbio nervoso, sem contar com o ciúme patológico provocado pelas traições do marido.

Nessa história de amor conturbada houve espaço para passeios na praia que geraram pinceladas leves e abstratas, para a tensão entre as duas mulheres, abrindo espaço para pinceladas mais fortes e rostos com expressão de dor. A confecção de bustos de gesso com as formas da amante e alguns retratos nus que foram expostos na sua primeira retrospectiva na Galeria Georges Petit, em Paris, consolidando sua posição como o maior artista vivo do mundo. Isso sem falar num episódio marcante, que quase tirou a vida de Marie-Thérèse. “O amor por sua musa se intensificou quando ela remava no Rio Marne e quase se afogou, contraindo uma doença transmitida pela água que a deixaria muito magra e temporariamente sem cabelo. A jovem que ele achava ser sua salvadora agora precisava ser salva. Ele a pintava obsessivamente como banhista e ninfa: nadando, se afogando e sendo puxada para fora da água” escreveu Diana numa papelaria da exibição.   

Outra obra clássica a figurar entre as melhores pinturas sobre o amor da história da arte é O Beijo, de Gustav Klimt. Proibida por ser considerada um símbolo erótico durante muito anos, a obra de 1908, segundo alguns críticos, questiona a identidade de gênero das figuras retratadas. Pauta mais atual não há.

Inconteste, porém, é a posição de uma delas, de joelhos. Envolta por um manto dourado, a cena coloca o amor – e o sexo, indissociavelmente – entre duas pessoas como algo sagrado. E que assim perdure, apesar de maldizerem criadores e criaturas.

 

* Texto originalmente publicado na Carlola 

 

 

 

 

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