Pochete na virada do jogo

30.03.2017

Os dias de glória chegam para todos. Basta insistir que uma hora acontece. Essa é conclusão mais elementar para o retorno da pochete ao cenário fashion. Nesse 2017, outono e inverno se renderam a ela que, apesar de tachada de brega, tem seu valor.

Gloria Kalil, reconhecida por sua elegância e excelente leitura das informações de moda, autorizou no Facebook. Dia desses postou uma foto e introduziu a legenda: "Por que a gente demonizou tanto a pobre da pochete? Ela é tão bacaninha!”

O fato é que houve por aí umas boas duas décadas de ostracismo, pra dizer o mínimo. A pochete, desde que estourou aqui no Brasil com acessório esportivo nos anos 1990, sempre foi tachada de cafona. O que pouco se questionou foi que os materiais nem de longe se assemelhavam ao proposto pela centenária Maison Pourchet, originária da França.

Na versão atual é justamente essa a principal diferença: o material foi incrementado. O lugar puramente esportivo abriu espaço para matérias-primas mais nobres como o couro, sintéticos tecnológicos e acabamentos que fazem esse acessório se encaixar facilmente no outfit urbano.

Dizer que surgiu agora com uma pegada utilitária não é o melhor argumento de inclusão. Pífio até. Utilitárias as bolsas sempre são, já que o sentido de carregar objetos dentro de uma e usá-los ao longo do dia. Ninguém sai carregando peso pra ganhar músculos, entenda, caro leitor.

Dentro desse estilo urbano, amarrar na cintura é o mesmo que trazer a leitura do passado. Não que esteja proibido, mas essa opção é bem mais interessante quando a bolsa se aproxima do conceito de um cinto de utilidades. Pais e mães que tem filhos pequenos vão saber claramente a diferença, a partir do olhar repetido sobre os filmes de super-heróis. Os mais crescidinhos podem pensar na indumentária de faroeste. Ou seja, não precisa estar na frente. Colocada na lateral do corpo fica muito mais interessante.

Tudo o que precisa estar à mão, fácil de pegar, encontra lugar cativo na pochete. Por isso mesmo ela deve passear de forma mais livre pelo corpo. Uma boa opção é usar como bolsa de alça, podendo descansar sobre o peito ou ficar nas costas, como apareceu muito nos desfiles internacionais mais importantes.

A Emporio Armani foi uma das grifes que se rendeu à peça polêmica. A pochete virou chique na versão da label, arrematando o visual de mochileiros chiques por lugares inóspitos da Ásia. Marni trouxe uma versão mais descolada, mas propondo contrastes com alfaiataria e detalhes em corda. Louis Vuitton faz uma coleção assinada por artistas, incluindo grafismos surrealistas de animais africanos. Hermès e Versace também estão no rol das marcas de luxo a apostar.

Um bom termômetro para medir a reação do público brasileiro diante dessa tendência que apareceu na gringa e depois se repetiu no São Paulo Fashion Week foi o festival de música Lollapalooza, em São Paulo. O evento se inspirou muito no Coachella, festival da Califórnia. Esse espaço termina sendo um ótimo caldeirão de ideias. Para quem não lembra, foi lá que estourou na temporada passada o estilo boho chique, famoso na década de 1970.

Também foi nesse espaço que se propalou, um ano antes, a ideia de minimizar as diferenças de gênero. Não deu outra: a Vogue, logo após, escolheu a definição “gender neutral” como a expressão do ano. E, como diz a Lilian Pacce, “O gender neutral propôs um novo olhar para a androginia e seguiu forte como discussão de comportamento.”

Risco de errar sempre vai existir. Tentar encaixar uma tendência de moda no estilo pessoal pode ser divertido, mas nem sempre é simples. Só no dia a dia é que a gente saca o que pode ganhar espaço no closet ou ficar no fundo da gaveta para sempre. Tropeçar é bem provável para muitos de nós. Mas, entre o nostálgico e o democrático, ainda leva um tempo - tanto quanto o desfecho da Operação Lava Jato – até a gente descobrir se essa tolerância de mesclar o acessório é mais um sopro de rebeldia ou voltou pra ficar.

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal

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