Somos todos Thauane

22.02.2017

Quando Mohandas Karamchand Gandhi vestia seu xale indiano tradicional. Aquela escolha tinha um viés político e influenciou uma nação inteira. Aquela escolha da “Grande Alma”- como lê-se Mahatma em sânscrito – tornou-se símbolo da luta do país para se livrar do domínio britânico na primeira metade do século XX. Cada vez que alguém usava uma dhoti embrulhado em torno das pernas e cintura, esse gesto dizia que estava alinhado com o movimento de rejeição aos produtos britânicos.

A dhoti está para os homens como o sari – ou saree – para as mulheres. No final dos anos 1990 a moda descobriu esses elementos tão ricos em cultura e significado. A mim sempre encantaram, desde a primeira vez que vi. Aliás, qualquer objeto que carregue carga cultural ou religiosa tem uma energia diferente. Porém, não há registros na história de qualquer mácula causada aos indiano o fato de outras pessoas, independentemente de credo ou raça, usarem os trajes.

Moda é algo que possui uma das maiores inteligências: valoriza e enaltece o diferente, apresentando para o mundo uma forma plural de aceitação do outro a partir de como ele se apresenta e quer ser visto. Feita essa introdução, preciso dizer que é, além de ridículo, mesquinho demais uma negra brasileira, miscigenada, reclamar o direito cultural e exclusivo do uso de turbantes.

Para quem pegou a polêmica no meio, eis um breve resumo: uma jovem com câncer, talvez com vergonha da suas recente careca por causa do tratamento quimioterápico, foi apontada dentro de um ônibus, no dia 4 de fevereiro passado, por duas negras que a acusaram de apropriação cultural porque ela usava um lenço na cabeça. Essa jovem se chama Thauane Cordeiro e usou as redes sociais para reivindicar o uso de um acessório de moda. #VaiTerTodosDeTurbanteSim foi a hashtag usada por ela para compartilhar a bronca. E viralizou.

Turbante não tem a abreviação afro, tampouco se resume a cultura negra. Além do Norte e Leste da África, é muito usado na Índia, Bangladesh, Paquistão, Afeganistão, Oriente Médio, Sul da Ásia e algumas regiões da Jamaica. Não tem sequer origem conhecida. Sabe-se que é usado no Oriente desde muito antes do surgimento do Islamismo.

As mulheres miscigenadas no Brasil são maioria, dentre todas as raças que temos. As mulheres, por sua vez, são maioria na sociedade. Mesmo assim, continuam sendo chamadas de minoria porque tiveram historicamente seus direitos podados. Assim como aconteceu com punks e gays. Hoje, não somos poucos, mas continuamos lutando por direitos. Isso é legítimo, mas bom senso todos precisamos ter. Ou pelo menos há que se conhecer a história da moda. Não é uma jovem com câncer que precisa pagar o pato da rusga do empoderamento feminino.

Nos anos 1930 o estilista francês Paul Poiret, inspirado pelo exotismo da indumentária oriental, fez a cabeça de diversas artistas e mulheres sofisticadas da Europa. Gente do naipe de Simone de Beavouir e Greta Garbo. Aqui no Brasil, se quiserem crucificar alguém, façam isso com a saudosa Carmen Miranda. Ela não só difundiu as amarrações de lenços como desconstruiu a estrutura, agregando uma pegada tropical de flores e frutas.

Eu já usei, inclusive no carnaval passado, num baile de máscara promovido pelo jornalista George Azevedo e que serviu para compor um editorial de moda. Ainda usei maquiagem e não fui apedrejado.  Por falar em pintar-nos, outra figura super interessante que defende o direito de mulheres se sentirem bonitas inclusive durante o tratamento de câncer chama-se Flávia Flores. Ela é curitibana, teve câncer de mama, usou turbantes, trocou lenços com outras mulheres que precisavam de ajuda e as ensinou, através da página “Quimioterapia e beleza” a se maquiarem, mesmo estando com a pele esverdeada. Ajudou nos processos de aceitação e cura. Isso sim tem valor. 

Já estudei o candomblé e sei da importância do Orí, chacra do centro da cabeça pelo qual entra tudo de bom e de ruim que atinge alguém, como se acreditam os religiosos. O turbante, para os candomblecistas, está ali para proteger essa região. O turbante é usado em festas e cerimônias religiosas e precisa ser valorizado, claro.

Uma das forma de valorização, acredito, é homenageando. Claro que alguns vão interpretar como banalização. Sempre, sempre há quem só veja o lado negativo. Ou sempre há intolerantes em todos os lugares, inclusive infiltrados dentro da dita minoria. É preconceito e ponto. Oxalá esse exemplo gere um debate saudável e fique de forma esclarecedora.

 

Para as negras que não entendem de moda, sugiro, antes de debatermos, a leitura do livro “História ilustrada do vestuário”, de Melissa Leventon, que mostra através de pesquisa e imagens o uso do adereço entre homens e mulheres de diversas etnias, em diferentes épocas e o mais curioso, tendo o turbante vários significados: casta, origem, religião e até posição social. Tremei! 

 

* Texto originalmente publicado no Novo

 

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