Viva o incomum: búzios em pleno inverno

24.01.2017

Salve Iemanjá! O ano de 2017 começou com muito axé, muitos balangadãs. Meio mundo vestindo branco – só pra variar – e com colares de conchas ao redor do pescoço. O que era moda entre as mulheres ganhou os homens logo no início de janeiro pelas praias de todo o país. O que ninguém esperava era que a mensagem de liberdade litorânea e da nossa miscigenação cultural fosse tão longe, entrando, por exemplo, pelo inverno 2018 da Prada.

Em Milão, uma das cidades mais importantes para a moda, independentemente de gênero, o desfile da grife italiana é o mais aguardado. Não apenas por ser o “ouro” da casa e ter o prestígio artesanal de mais de um século, mas pela busca pela normalidade, ainda que isso soe estranho. Miuccia Prada, no backstage do desfile, falou exatamente isso. “Existe muito a seguir, muito a fazer. No meio disso a gente perde, de alguma forma, o que te é normal, natural. Estamos em busca dessa humanidade”, disparou.

Na era em que todos ganham voz pela internet e muitos anônimos alcançam status de influenciadores digitais, existe entre nós a necessidade de sermos especiais. Poucos escapam a isso.

A equipe de estilo foi em busca do comum e escolheu estampas abstratas. É um abstracionismo mediano, bem cara de sala de espera de hospital. O colorido aparece sobretudo em peças de tricô e contrasta com a nobreza de tecidos – esses sim! – muito especiais: couro e veludo cutelê entre eles.

No mais, a cartela de cores tem bem os anos 1970. Os calçados são mais pesados e com aplicações de tachas e as bolsas ganham vida em tom vermelho ou pele de animal. Tudo nobre e hippie, pra contrastar. E é justamente falando sobre contrastes que voltamos ao nosso litoral, aos búzios. Seria o destino a nos ligar com a moda internacional? Para o bem ou para o mal, o importante é ver que foram quebradas barreiras internacionais de tempo e espaço. Assim como aconteceu com a questão de gênero, relativizar o uso de materiais será, num futuro bem próximo, a bola da vez.

Poucos anos atrás era impensável que mulheres pudessem usar brilho durante o dia. Esse artifício era de festa, da noite. Mas o recurso não só ganhou a luz do sol como o apoio dos homens. Primeiro vieram as camisetas com lantejoulas e em seguida as peças metalizadas. Já não dá pra prever onde vamos parar- e se vamos, afinal.

As calças recém-apresentadas têm pernas um pouco mais largas. É pra combinar com a pegada setentista, não que vá pegar de fato. O que aparece forte dessa década é o corte acinturado para contrastar com a parte de baixo. Todos os casacos e até trajes devem aparecer assim nas lojas. Os de um botão com ainda mais espaço no comércio e, claro, nas ruas.

Aliás, em se tratando de semanas de moda, todas as principais têm características muito diferentes. Enquanto Milão consegue estabelecer um diálogo mais equilibrado entre passarela e moda de rua, a de Nova Iorque é mais comercial e a de Paris um evento à parte, com festas em todos os pontos da cidade, logo depois das apresentações na sala de desfiles.

Outro ponto forte do próximo inverno, anote, caro leitor: por ser muito baseado em décadas passadas, os modelos virão com perfume retrô e jeitão de brechó. Em algumas marcas essa característica aparece mais forte, como na Gucci de Alessandro Michele. Já a da Prada não conta com tantos bordados.

O mais interessante de se ver nas direções criativas é o estranhamento que essas visões diferentes causam. Deixar as coisas como estão seria muito conservadorismo, convenhamos. Se até os americanos elegeram Donald Trump o novo presidente dos Estados Unidos, no meio dessa onda megalomaníaca, não haveria nada mais comum que questionar o medo da mudança.

Em outras palavras: o normal virou comum, is the new black.

 

* Texto originalmete publicado no Novo

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