Um verão rock, bebê!

29.01.2016

A partir das semanas internacionais de moda, sobretudo de Paris e Milão, já podemos tirar algumas conclusões: a cor fetiche é o lilás, aposta de grifes como Armani e Versace; o futurismo, que já tinha sido apontado pelos birôs de tendência, ganhou força após a morte de ícones como David Bowie e do estilista francês André Courrèges; e novamente, como era de se esperar, clássicos como militarismo e rock são revisitados nessa época. Esses dois estilos deixaram de ser vistos por temporada. Estamos em pleno verão e eles a todo vapor. Mas ainda são de clubinho, com idade mínima pra entrar.

No Salesiano, na Ribeira velha de guerra, era assim: os adolescentes estudavam pela manhã, os cricas no período vespertino e os pré-vestibulandos no noturno. Invejávamos os que estavam perto dos 18 não pela maioridade, mas pelo direito de usar jeans. Eles eram os únicos com essa regalia dentro de um colégio religioso. Todo o restante vivia de calça cinza, fosse inverno ou verão.

Do alto do nosso conhecimento de mundo, a recém-centenária Escola Doméstica de Natal era cotidianamente posta no centro das discussões de corredor. Nós nos achávamos segregados e fazíamos as mais mirabolantes conjecturas sobre como deveria ser a vida dentro de uma unidade repleta de moçoilas de vestidos alvos. Nem calça elas tinham o direito de vestir, estavam presas ao modelo suíço importado por Henrique Castriciano no ano de 1911. A ideia de uma rebelião, nos moldes de um presídio, nunca foi descartada naquele período fantasioso (ou de pseudo realidade). 

Alcançar a época em que o jeans era liberado nos ansiava. Precisava ser logo. Íamos degustando a rebeldia de outras formas, mas nada que pudesse ser comparado. Mesmo porque um passeio no shopping nunca há de ser um movimento tão vanguardista. E era basicamente o local que nos restava como grande novidade numa capital também em fase de crescimento.

Posso contar nos dedos as vezes em que sujei propositalmente a farda do colégio durante o café da manhã para ter o direito de usar uma calça jeans na escola. Desfilava pelos corredores como se carregasse um troféu, mesmo sabendo – e todos os demais sabiam também – que tudo estava devidamente explicado na minha agenda por um dos meus pais, com um claro pedido de desculpas ao padre diretor.

Confesso aqui, citando outra passagem, meu desejo por muito represado. Fico extremamente feliz de poder viver a fase do jeans como possibilidade para cobrir o corpo inteiro ou não só as pernas. O look all jeans é sinônimo de atitude e um dos protagonistas do verão 2016. No calendário da moda esse ano estará claramente marcado. Foi quando tornou-se mundial essa tendência de usar camiseta, camisa, bermuda ou calça, e mais tênis: tudo jeans e com padronagens, lavagens diferenciada, ragos ou micro estampas.

Os estrangeiros mostraram um pouco antes a força dessa moda nas ruas e algumas marcas brasileiras souberam interpretar e aumentar esse repertório que ainda inclui shapes dos mais diversos. A Cavalera colocou elementos indígenas e a Colcci, que fez minha coleção preferida, apostou na nossa biodiversidade criando a coleção Floral Punk. Já falei sobre ela lá no blog em outra ocasião – inclusive o mundo inteiro comentou, já que ela marcou a despedida de Gisele Bundchen das passarelas -, mas vale reforçar aqui que é uma das mais interessantes investidas da marca em todos os tempos.

A estética além do puído, completamente detonada, conhecida mundialmente como destroyed, marca outra quebra de padrão, sobretudo em terras tupiniquins. Mundo afora o visual com toque esportivo já foi liberado até em ocasiões um tanto mais formais. Por essas bandas ainda é muito mal vista por uma penca de gurus da moda e sua aceitação só cresce no período de dias mais quentes.

Já que o clima está uma maluquice mesmo, aceitemos que o lance das estações datou para a moda. As coleções são mais comerciais, democráticas, mais desejáveis e repletas de jeans. Outra coisa mudou, não somos mais aqueles rebeldes sem causa, claro. Nem a rebeldia as ruas, por vezes camuflada de protesto, são mais aceitas nos dias de hoje. É preciso um mínimo de organização e civilidade para defender qualquer bandeira.

Na moda isso é vestir um jeans detonado, mas não sair com a cara de ontem, com olhos cansados e movimentos lânguidos. O rockstar, seja no inverno ou verão, é mais saudável ou desaparece, como reza a lenda, aos 27 anos, a exemplo de Kurt Cobain, Jim Morrison e Amy Whinehouse. 

Aposte no seu, com corte mais ajustado ao corpo, e traga suas calças jeans, coturnos e peças com influência militar se tiver mais de 20 anos. Caros bolinhas, estamos aceitando inscrições para ingresso no clube.

 

* Texto publicado originalmente no Novo

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