Contrariando as previsões, deu branco

23.01.2016

A julgar pelas queixas que tenho ouvido, São Pedro deve estar cortando um dobrado para dar conta da tormenta de reclamações que se espalha pelo litoral do país. Não me venham dizer que é só uma marolinha! Pelas redes sociais uma amiga contou que o final de semana não chegava havia mais de dez dias. E eu, sinceramente, acho que fiquei preso sentimentalmente ao primeiro dia do ano, de frente pro mar de Salvador. Depois disso não lembro de um dia de sol sequer para dourar a pele. Mais adequado seria já estarem à venda os modelos para o inverno 2017 desfilados nas últimas semanas em Londres, Milão e Paris.

Nas nossas praias, a moda dos acessórios é a única unanimidade. Colo e pulsos estão vitaminados, como os jovens chamam essa tendência de carregar muitos colares e pulseiras de uma vez só. Com todo o restante da produção é preciso relativizar. O mormaço faz o verão ter cara de um inverno duvidoso. É isso ou algo muito parecido, numa boa. O que por um lado pode até ser muito bom, já que mesmo nessa estação abafada (desculpe, mas não dá pra usar quente, eu bem queria) há chance de apostar na sobreposição de peças. Lá por Pirangi vi, dia desses, um rapaz vestindo regata floral por baixo de um colete jeans destroyed e bermuda de moletom. Três referências distintas e tudo perfeitamente harmônico. Os mais calorentos continuam com seus trajes de verão, deliciosamente sumários, embora fora de eixo para uma temporada atípica. Mas essa não é a pior gafe, infelizmente.

Preto se usa em situações formais, de gala, para parecer mais magro, em luto ou protesto, é assim. E foi para protestar que dois pares de meses atrás uma colega jornalista foi à uma white party com seu pretinho básico. Em um grupo de whatsapp ela defendia que festa de branco se faz no verão, quando a roupa contrasta com um tom de pele mais saudável. Faz sentido. Ou fazia até a última festa do tipo lá no litoral de Parnamirim. Eu pensei seriamente em ir porque encontraria muitos amigos e a noite, de certo, seria divertida. Só desisti por uma questão de estilo. Desde sempre entendi que a gente não deve sair de casa vestido de branco quando está chovendo. Branco com água fica transparente, meus amigos, todos nós sabemos. E ninguém deve mostrar ou é obrigado a dar um confere nos mamilos alheios por aí. É muito deselegante, convenhamos.

O branco não deixou de ser verão, mas é cada vez mais invernoso, pode anotar. O branco é uma cor futurista por excelência desde as primeiras investidas do estilista francês André Courrèges. Apareceu em quase todas as passarelas nessa temporada masculina e algumas propostas são bem interessante, sobre tudo as que combinam a cor com os metalizados. Enfim, se o dourado não está na pele, ele aparece nos acessórios. Sapatos ficam lindos assim! E o prata é ainda mais atual, teve destaque nos desfiles da Prada, Emporio Armani, Calvin Klein Collection e Versace. Registre-se que o natalense Wagner Kallieno já tinha defendido o futurismo dos metalizados na última edição do São Paulo Fashion Week e as peças vão começar a ser comercializadas.

 

A Prada foi ousada no conceito e sutil na concepção final e terminou confundindo muita gente. O chapéu do styling pode significar marinheiro, mas a coleção, nem de longe, era pra ser encarada como navy, como boa parte dos blogueiros ditos influencers alardearam pela internet. Se existe uma coisa que Miuccia Prada queria provocar era a reflexão sobre um ano de crises econômicas, políticas e  ar pesado e pessimista deixado por tantos assassinatos, chacinas e imigrações. Aonde vamos chegar com isso era a pergunta. E o cenário não deixava dúvida: uma arena pública, com tribunas e luzes de julgamento, num jogo de evidenciar e esconder os modelos e roupas, deixava o clima ainda mais dark. O branco apareceu nas peças de dentro ou por fora, com estampa de frutas vermelhas. Abertas, suculentas. Ou já meio podres. Essa mesma camisa branca, ampla e com estampa localizada, foi usada numa modelo feminina como chemise.

Na Emporio Armani o prata e o branco se encontram na ala esportiva, vestindo os amantes do esqui, mas o branco aparece em várias outras peças, todas estruturalmente sofisticadas. Costa-se um blazer, levanta-se a gola mais umas aplicações recortadas em couro no punho e nos ombros e voilà, temos um homem extremamente arrojado e pronto para a meia estação, ainda sem a necessidade de cachecóis. Na Calvin Klein Collection a mistura foi ainda mais bonita de ver. Os jeans absolutamente alvos ganharam pátinas com tinta dourada e prateada. E as jaquetas idem, formando um conjunto – essa ideia casadinha que a gente monta até com estampas florais hoje em dia. 

Gemma Ward e Mariacarla Boscono ainda deram uma fervida com o elástico das cuecas Calvin Klein que foram colocados dessa vez em calças e agitam ainda mais quando a camiseta está pra dentro. Por cima vem os casacos mega metalizados, seja no forro que se expande até o capuz ou no sobretudo que aparece abotoado por baixo de outro sobretudo aberto. Como é que ninguém pensou nisso antes?

Essa mesma onda de futurismo que promete invadir o inverno foi a aposta da Versace que, com todo o exagero do seu DNA, pela primeira vez me ganhou de verdade. E não foi só por colocar na passarela absolutamente todas as cores da Pantone, mas por fazer a mais clara reverência ao gênio das artes e da moda, David Bowie, e também render homenagem a Courrèges, o pai do futurismo dos anos 1960 na moda, que também desapareceu nesse janeiro.

“Ground control to Major Tom”, um trecho de “Space Oddity“, da persona incorporada por Bowie pós Ziggy Stardust, apareceu no final da apresentação.  Pouco antes, no backstage dos desfile, Donatella declarou: “A mensagem que eu quis passar é pra olharmos o espaço não como uma fuga, mas como um lugar limpo e fresco, e fazer todos prestarem atenção na importância em viver bem em um planeta limpo, eco-friendly”. Então, está dito.

 

* Texto originalmente publicado no Novo

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