Bowie em: a arte de ser incomum

15.01.2016

Um primeiro parágrafo só com adjetivos, sonhei. Escrever sobre David Bowie me inclina a distorcer a realidade e as regras jornalísticas. Mas, conscientemente, não farei em respeito. Diluir, aceitar as diferenças marcadas por tempo e espaço me parece mais coerente com seu legado e maior ensinamento: é natural ser diferente.

Algo parecido com isso disse Madonna em um show da turnê “Rebel Heart”, em Huston, nos Estados Unidos. “Ele mudou a minha vida”, completou a cantora, antes de fazer um cover da música “Rebel Rebel”, de Bowie.

Não falo de arte ou do poder da criação. Isso se constrói ao longo de uma vida inteira, o que não aconteceu. Bowie não teve uma vida, viveu várias. Só está no alto nível de genialidade porque foi muitos ao longo do tempo. Rei dos alter egos, era sobretudo estrategista. Com duplicatas espalhadas por aí, esteve além da ciência e seus estudos obscuros sobre clones, criou, ao estilo freudiano, seres igualmente provocativos, o que lhe rende o primeira e mais repetida qualidade: camaleônico.

Início de março de 2013, poucos dias depois do meu aniversário. Chego à redação para editar a revista LivingFor, abro a caixa de e-mail e me deparo com a mensagem de uma loja eletrônica. Como um presente, apareceu a confirmação de que estava à venda “The Next Day”, o álbum que David Bowie acabara de lançar depois de um hiato editorial de dez anos. Havia ali a esperança de uma turnê ou ao menos algumas apresentações ao vivo. Meu passaporte passou a dormir na mesa de cabeceira, mas elas nunca aconteceram e nós nos apaziguamos com clipes como "The Stars (Are Out Tonight)", elogiado inclusive pela crítica.

As manchetes de jornal diziam que ele retomava a carreira, provava estar em forma ou enalteciam a chegada ao topo das paradas britânicas, já que o álbum se tornou o mais vendido do Reino Unido, coisa que Bowie não conseguia desde 1993, com Black Tie White Noise. Para mim, meio lunático no trato com cifras musicais, aquele disco era simplesmente turvo. Ouvi dezenas de vezes e ele só passou a ter sentido dois dias atrás.

Poderiam ter sido aquelas as últimas palavras registradas em estúdio e a história desse gênio já descansaria em paz. Mas Bowie não poderia parar de nos provocar e, a despeito de qualquer julgamento por ter lançado um álbum com 17 faixas na edição de luxo, muitas delas longas além da medida, três dias antes de morrer, ainda lançou “Blackstar”. Dia 8 de janeiro de 2016, quando completou seus 69 anos, Bowie fez sua despedida com faixas ainda mais extensas, sendo a título a maior delas, com 10 minutos.

É impossível não se emocionar ao ver o clipe de Lazarus e sentir a poesia soturna em “Look up here, I'm in heaven / I've got scars that can't be seen”. No céu, com cicatrizes que não podem ser vistas, Bowie se mostra mortal. Mas morre, como muitas estrelas, sem deixar de brilhar. Só que o físico, nesse caso, não se sobrepõe ao lógico.

Foi do espaço que surgiu Ziggy Stardust, quiçá a persona mais conhecida de David Bowie. Um astro de rock, mensageiro de alienígenas, caído na Terra. Foi através dele que criou-se uma referência de estilo chamada até hoje na moda de rock glam. O raio no rosto e o macacão preto de forma arquitetônica, criado por Kansai Yamamoto, se tornaram símbolos da cultura Pop, sem perder o apelo cool. O raio já foi usado sobre o rosto de Kate Moss na capa da Vogue britânica e até por Lady Gaga, mas, pra mim, o macacão é o verdadeiro ícone dessa época. Não há nada como aquele preto com listras de glitter. Outras roupas são mais fáceis de passar por uma releitura, essa não.

A base andrógina nesse 1972 divulgava uma sexualidade livre e ambígua, assunto extremamente pulsante ainda hoje. Mas ouso dizer que nossas discussões são mais simplistas, quase todas se resumem a homens que usam saias e transparências e mulheres que aderem ao blazer com corte mais amplo e masculino. Por mais que ainda pareça desconectado para alguns, isso seria extremamente básico para descrever Bowie.

Ziggy Stardust, aqui no Brasil, se tornou popular a partir da versão da banda Nenhum de Nós da música Astronauta de mármore.  Esse ser extraterrestre esteve justamente entre o astronauta Major Tom, do hit  “Space Odity”, de 1969, e o alter ego Thin White Duke, de 1976. O duque do álbum Station to Station, tinha um visual dândi, sombrio, cabarezístico e sempre usava camisa extremamente branca. Foi o último alter ego de grande sucesso, o que tinha um jeito desagradável até na avaliação do seu criador. Era um duque vazio, austero, que cantava canções de amor com um açodamento doentio.

A semana começou mais triste. Enfrentar um câncer não deve ser tarefa fácil. Não é sequer para quem está ao lado, disso posso falar. E Bowie passou por isso ao longo de 18 meses, ainda encontrando tempo e formas de se multiplicar. Apesar de aparecer frágil e flutuando sobre uma cama de hospital no derradeiro clipe, ele nitidamente se contorce para tentar escapar do momento da despedida. Está com os olhos vendados, tapando outra de suas características marcantes, ter um olho de cada cor.

Apesar do impacto das imagens, é o colorido que vai continuar marcando a passagem de Bowie por entre nós. A mistura de estampas, o poder de influenciar grandes estilistas como Jean Paul Gaultier, Hedi Slimane, Alexandrer McQueen e Jonathan Saunders. No mundo da moda o desaparecimento dessa figura única já rendeu várias homenagens, sendo a primeira delas da Burberry, que na abertura da semana de moda de Londres colocou uma modelo na passarela com o nome do cantor na palma das mãos.

Realizador do evento, Steve McQueen, resumiu muito bem a influência criativa de David Bowie e seus alter egos na moda. “Bowie era ele próprio. Isso tem muito a ver com o ambiente londrino, a ideia de experimentar coisas. Um artista tem de fazer experiências. Não pode ficar sentado, confortável e seguro. Às vezes é preciso matar as coisas que amamos e ele fez isso em muitos momentos”.

A lista de sucessos musical é longa e qualquer ordem passível de discussão, mas a influência para o design inquestionável. Transgressor, persuasivo, vibrante e incomum.

 

* Texto originalmente publicado no Novo

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