Sockless: por um verão sem meias

11.01.2016

Caros hermanos, a vida não está fácil pra quase ninguém, muito menos para quem usa meias em pleno verão. Nem todos nós temos cacife para adotar chinelos desde o meio de dezembro até o carnaval passar, aproveitando as férias no maior vidão. Mas muito nos ajudaria adotar um estilo de vida meio argentino de ser: quase hippie no vestir e agir, o que inclui chinelos ou  sapatos que deixem o tornozelo mais livre.

Digo isso porque sei que cada um se vira como pode, o que no caso dos nossos vizinhos e arquirrivais futebolísticos significa liberar geral. Em dezembro o governo Mauricio Macri liberou a compra de até dois milhões de dólares sem restrições. Até dezembro passado cada argentino só podia adquirir dois mil por mês. Em pleno verão, essa medida econômica provocou uma debandada para as praias brasileiras. De Nordeste a Sul do país eles estão provocando uma verdadeira invasão, o que tomara que possa ajudar a desmentir essa previsão do Banco Mundial de retração de 2,5% na economia do Brasil em 2016.

Nossos vizinhos têm um jeito muito particular de ser, sabem entrar em qualquer lugar com um bom chinelo de couro e de cabeça levantada. Enquanto isso, aqui ainda tem quem acredite que a aparência vale mais que o dinheiro no bolso. Canso de ver gente montada como se fosse desfilar no tapete vermelho do baile da gala da amfAR, no Copacabana Palace, numa simples ida ao Midway. É nessas horas que evoco, saudosista, o reconhecimento do potiguar radicado em Pernambuco Jailson Marcos e do cearense Espedito Seleiro, duas figuras talentosíssimas que fazem chinelos de couro com muita personalidade.

Seleiro, aliás, é filho do artesão que criou uma sandália retangular para o cangaceiro Lampião. O rastro dos calçados deixado no solo do sertão ajudava a despistar da polícia: ninguém sabia se ele estava com seu bando indo ou voltando. Hoje, aos 75 anos, Espedito faz um trabalho colorido, recortando o couro manualmente e com maestria. Jailson, por outro lado, aposta nos calçados geométricos e ganha globais como o cantor Carlinhos Brown. Vai me dizer que você ainda não reparou nos chinelos que o baiano usa no The Voice?

Pra quem não tem colhão ou disponibilidade para dois meses seguidos de férias e chinelos, vale pelo menos apostar em uma tendência que vem sendo chamada de “sockless” ou “mankle” – junção das palavras man e ankle, que significam homem e tornozelo, respectivamente. Nada mais é que usar calçados sem meia, com calcanhares aparecendo e barra da calça dobrada. Também vale a calça ser levemente mais curta como aquela que antigamente seu pai chamava de pega-bode e pegava de verdade os rapazes na fase do estirão, lá pelos 12 anos.

A partir do ano passado, todas as publicações respeitáveis, desde as revista até os blogs, aboliram as meias dos seus editorial masculinos. Naquela época as calças chino de cores diferenciadas tinham acabado de pegar. Até os homens mais conservadores começaram a vestir para ir ao trabalho e, na saída, dobravam suas bainhas para cair no happy hour.

Críticos acreditam que jovem executivo se aproxima cada vez mais de um estilo vendido mundo afora como trendy, termo usado para designar quem gosta de andar na moda. No universo corporativo esse comportamento mais moderninho está diretamente ligado aos que buscam inovação e mais desempenho. São ousados na forma de gerenciar as atividades e se vestir vem a reboque.

Do alto dos meus cambitos, confesso, fui resistente. Sempre me perguntava: Como é que uma parte do corpo tão pele e osso pode ser importante para a indústria da moda? Mas, enfim, é desde que o estilista Thom Browne decidiu encurtar as calças de ternos.

O americano fez isso em 2006 e foi preciso investir na ideia ao largo de dez anos para ver que ela podia pegar mundialmente. Foi uma mudança muito ousada para a peça, já que o formato do traje sofreu poucas alterações desde o início dos anos 1900. Basicamente o que mudava na parte de cima era o número de botões e, nas calças, se elas teriam pregas ou não.

Antes de encurtar as suas, tenha em mente que o tornozelo chamará mais atenção. Por isso, vale a mesma regra usada na hora de escolher uma sandália de couro: invista em um calçado de boa qualidade, confortável e bonito.

O mocassim é o típico modelo de entrada, muito adotado aqui pelos rincões do Nordeste. Um sapato que nasceu para ser usado no melhor estilo sockless. É claro que você já pode matar aquele amigo que usa mocassim com meia. Se for branca, dê dois tiros à queima roupa no peito. Ele merece um desfecho trágico por assassinar antes o bom gosto.

O dockside também é fácil de usar e, principalmente nesse verão, aparece em versões de um bicolor tão contrastante que seria inviável pensar em meias subindo pela canela. Particularmente eu acho que os com solado branco são ideais para usar com bermudas chino, mas eles também acompanham bem as calças.   

Ambos tem uma pegada mais litorânea, mas como a moda precisa propor inovações, modelos que antes ninguém imaginava ver desacompanhados das meias – finas, inclusive – agora dispensam qualquer formalidade. É o caso do monk (aquele de couro rígido com aba larga no lugar do cadarço e fivela dupla na lateral) e dos brogues e oxfords. Todos esses tipos são aceitos e recomendados.

Outra informação importante: na moda dos sockless não é acessório o cuidado com os pés. Esse é item obrigatório! Assim como acontece com quem pode ou se dá ao luxo de usar um chinelo, dispensar pares de meias deve incluir visitar quinzenais a um podólogo. Não se trata de ter unhas impecáveis, mas fazer a higiene correta do corpo, que me desculpem os argentinos hippies. A moda vem e vai e entrar nessa, definitivamente, não deve ser o seu calcanhar de Aquiles.

 

* Texto publicado originalmente no Novo

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