Armadilha do Casual Friday

01.09.2016

Sorria, hoje é sexta-feira! E, como toda, é dia de “Casual Friday”. Estranho falar assim com estrangeirismo um hábito que é tão nosso, mas existe uma razão de ser. Foi lá nos Estados Unidos que surgiu a primeira pesquisa relacionando performance de trabalho ao traje usado durante o expediente. A produção, fora constatado, caía a partir da quinta-feira e os empresários mais espertos passaram a liberar os funcionários.

Sexta é o dia do visual relax, de incorporar ainda mais seu estilo pessoal ao cotidiano. É a liberação dos códigos de vestuário pelo que você faz profissionalmente. Hoje, caro leitor, é o dia de você mostrar quem é. Por isso, caso esteja lendo estas tortas linhas logo cedo, aceite meu conselho: Vista-se como mais lhe agrada, mas sem esquecer o tipo de ambiente em que estará depois do café da manhã. O engano mais comum dos homens é achar que vale tudo só porque depois do expediente tem happy hour. Não erre você também nas escolhas.

Injeta-se ânimo ao tirar coleiras e sufocantes gravatas. Esse símbolo de esgotamento pode ser deixado de lado, ainda que o ambiente seja mais formal. Descoordenar o paletó também é interessante. Blazer, camisa e uma calça de alfaiataria formam um belo trio. Mas mantenha os pés no chão! Nada de exagerar na troca do sapato. Flexibilize aquele rígido de couro com cadarço por um mocassim. Optando por esse tipo de calçado, a chino também cai muito bem.

Jeans é (quase) sempre uma boa pedida. Tire o advérbio dos parênteses se o seu espaço de trabalho for muito rígido. O jeans dá uma calibrada na idade, nos joga pra um patamar mais confortável no calendário das rugas. Porém, sugere ares despojados como deveria ser toda juventude. E aí, já que vai esquecer os jeans, perca junto a ideia de que esse tipo de calça foi inventada por Levis Strauss, como meio mundo diz equivocadamente.

Ele, na real, entrou para a história porque era o cara que estava no lugar certo e na hora precisa. Idos de 1853, corrida do ouro na Califórnia. Levis vendia lona para cobrir as carroças dos mineiros que trabalhavam naquelas terras. Espertamente e como bom vendedor, reparou que seu produto era resistente e começou a fazer calças com ele. Para o trabalho pesado não havia nada melhor. E repare que, mesmo no meio do frejo de uma mineração, convém entrar e sair sem mostrar a bunda (ou vestido inteiro – a menos que você ganhe a vida como striper).

O Demin daquela época é, na verdade, uma mudança gráfica do natural Nimes, que recebeu esse nome por haver surgido na região da França. Voltamos seis décadas na linha cronológica. Estamos em 1792 no porto de Génova. O tecido francês já era visto nas calças dos marinheiros italianos. A razão era a mesma, o serviço pesado precisava de um produto têxtil de robustez. O “tecido de Nimes” era um algodão sarjado, muito mais flexível que a lona oferecida por Levis. E foi por isso mesmo que ele atravessou o oceano para buscar essa maravilha na Europa e criar uma calça com o código 501, que terminou por ser o modelo icônico da sua marca.

Poucos meses atrás recebi da Colcci um convite para conhecer uma nova coleção. Era final de inverno e acabara de sair do forno uma calça com elastano que de tão confortável poderia ser usada até para praticar esportes, sem muito exagero. Pra demonstrar tal façanha, a equipe de marketing convidou um casal de dançarinos que capricharam nos passos de lambada e tango. Jeans é conforto, mas ele é pra nós jornalistas, publicitários, designers e mais uma galera da área de humanas. E sim, nós também corremos o risco de falhar no Casual Friday. Não seja em televisão ou em editoriais mais sisudas como política, os comunicadores se consideram livres além da conta. Numa agência de publicidade eu já vi colegas quererem trabalhar de bermuda e chinelos na sexta. O ambiente de trabalho não é a sua casa, por mais que se sinta à vontade, convêm destacar.

Vez por outra eu me visto básico, de jeans e camisa de malha piquet. Por causa dos nossos 300 dias de sol por ano em Natal, a vontade é mesmo de colocar uma regata. Contenho-me e outro dia fui abordado por um cliente da minha loja, a Toque de Mídias, questionando a roupa de uma festinha cool na tarde de sábado. Eu defendia que aquele era um território livre.

 

-  Cheio de opinião, mesmo que ande se vestindo com camisa polo.

-  Eu me ponho exatamente como pede a ocasião, resumi.

 

Esse meu amigo tem incorporado no vestuário a liberdade que uma carreira estável dá. E aí, caro leitor, mora um perigo dos maiores. Sabe aquela roupa de balada que é anunciada assim por um vendedor bandeiroso que não sabe o que faz dentro de uma loja? Então, ela normalmente é portadora de um fashionismo que deve ficar restrito a nossa vida particular. Brilhos, transparências e todo esse aparato visual não são para atravessar a porta da sua vida profissional.

Eu uso tudo isso, gosto muito de moda e acho que ela transita cada vez melhor por todos os ambientes, mas algumas regras jamais deixarão de existir porque não se pode jogar a carga pesada do bom senso nos incautos. Por fim, deixo a sugestão de dois itens que prometem deixar a produção dita careta mais atual: coletes e suspensórios. Eles dialogam bem com camisas e camisetas e não te deixam passar calor. Invista sem medo e aproveite a hora feliz desse final de semana.  

 

* Texto originalmente publicado na coluna semanal "O Jornal de Cristiano Félix", toda sexta-feira no Novo

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