Pensar moda e ir além

19.08.2016

Na moda existe ciência, nem tudo é fugaz e eminentemente comercial como apregoam os pseudointelectuais que rotulam essa indústria e sua engrenagem. É certo que com o fenômeno da globalização muita coisa mudou, mas essa órbita fashionista é vivida em sua plenitude pela contemporaneidade, que tem como principal característica romper com valores e tradições em busca de transformação, movimento.

Em cada espaço as necessidades de ruptura são diferentes e é por isso que a moda também precisa ser distinta em todas as regiões. Não fosse assim, estaríamos em Natal nos vestindo como paulistas, nova-iorquinos ou quiçá como jovens de Tóquio, caracterizados como animes. Foi-se o tempo em que estar enquadrado num circuito restrito era para pessoas interessantes. Ao fundir os conceitos de globalização e moda é que se obtêm o novo luxo: a valorização da cultura local.

No Natal Pensando Moda, promovido pelo Sebrae com consultoria do estilista Ronaldo Fraga, essa lição é tanto a inicial quanto a derradeira. Nos últimos nove anos o mantra tem sido repetido até que chegamos ao ponto de ver, na passarela, 13 marcas com DNA potiguar lançando suas coleções. O evento aconteceu para algumas centenas de convidados essa semana no Chaplin, em Areia Preta.

Do rol de empresas, algumas novas e outras experimentadas. Já no primeiro ano o destaque pela rápida absorção do conceito ficou com a Morena Canela, de acessórios femininos. Com a temática “O sol do meu sertão”, a equipe de estilo fez um passeio pelo fuxico, as folhas de algaroba, o solo rachado, e transformou isso tudo em um metal tão radiante quanto solar.

Veteranas como Palone trouxeram referências religiosas e colocaram a fé como motor do desabrochar de rosas e a transformação de flores em frutas, fazendo surgir bananas e abacaxis típicos dos nossos trópicos. Na moda praia que não tem maré ruim por essas bandas, outros tantos se destacaram. A Areia Dourada, da estilista Graça Menezes, se firmou no Seridó para desenvolver estampas exclusivas que são verdadeiras pinturas.

Masculino e feminino de mãos dadas pela marca Areia Dourada, uma iniciativa para inspirar mais empresas

 

Depois de uma década de trabalho, ainda há muito a fazer. Ronaldo Fraga deu 10 para o empenho dos empresários assistidos, mas uma nota 6 para o desenvolvimento das peças. E nisso não há nenhuma crítica de forma ou conteúdo, mas ainda é preciso romper com a moda global para garantir diversidade. A próxima lição certamente será a da economia criativa. As marcas devem passar a fomentar a economia criativa, buscar produtos e fornecedores do seu raio geográfico mais próximo ao invés de comprar quase tudo em São Paulo. O design já é nosso e isso precisa ser comemorado. 

Alcançar esse patamar não é fácil visto que a moda só reflete o comportamento social e nossa sociedade ainda é capenga de repertório. E eu não falo só de roupa, até porque esses itens não encerram as discussões sobre moda ou sustentam uma plataforma inteira. Como bem escreveu Frédéric Godart no livro Sociologia da Moda, a moda não chega às ruas apenas pelo desejo do seu criador de torna-la um fenômeno objeto de desejo. Antes de se tornar moda, é ideia. Depois vira conceito e por fim encontra seu propósito de transformação. Isso pode estar na maneira de vestir, claro, mas também na de falar e comer, por exemplo. 

Para o estilista o domínio sobre o comportamento global é importante porque ajuda a identificar um público consumidor, seu lifestyle e assim canalizar a produção para o consumo de quem já esteja familiarizado com tal olhar. Sem prejuízo algum para a verdade, as roupas serão ultrapassadas pela coleção que as suceda.

O lance da efemeridade dinamizada pelo nosso tempo ajuda e atrapalha, mas precisamos conviver com mais esse fenômeno. Misturar talvez com outros aspectos assimiláveis de indumentária de outras culturas. Pensar moda é um exercício como outro qualquer e se divide em duas etapas: inspiração e transpiração.

Empresários ainda vão pastar muito até encontrar produtores locais que curtam o couro da tilápia para transformar em calçados e acessórios, que tinjam o algodão de maneira ecologicamente consciente e tenham um preço compatível com o dos grandes centros, sob o risco de inviabilizar a venda. Mas eu acho que dá pra começar fazendo isso com uma pequena parte da produção. Quem marcar esse território leva vantagem agora e num futuro breve.

Do mesmo jeito, espero que na próxima edição desse projeto que muito orgulha toda a cadeia produtiva, haja marcas que trabalhem a moda masculina porque no último desfile não teve ninguém que aproveitasse esse filão.

Texto originalmente publicado no Novo*

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