Pokémon vem a reboque

15.08.2016

- Não saia de casa de qualquer jeito, mesmo que seja para caminhar só até a padaria. A gente nunca sabe com quem vai encontrar na rua. Pode ser alguém que mude sua vida.

Minha saudosa avó materna, dona Maria, certa vez saiu com essa – ou um texto bem parecido. A inclinação da fala é claramente sobre achar um par. Relacionamento, quando cresce a gente aprende, começa mesmo em qualquer lugar e sem aviso. “Quando menos se espera”, é como se acalanta os corações mais sedentos.

Na minha época, homens não podiam sair para caçar sem um bom perfume. Se a gente pudesse colocar outro bom elemento de moda esse poderia ser um relógio. No campo imagético, as mulheres usam roupa justa nessa ocasião. A brasileira é sexy e a sedução também pede batom vermelho e salto fino Christian Louboutin. 

Alguma coisa está fora de ordem, deve pensar nesse momento Caetano Veloso. Já posso imaginá-lo preocupadíssimo numa rede de balanço lá pelas bandas de Salvador ou Trancoso, apegado a todos os santos da Bahia. Não é pra menos: as pessoas estão correndo para rua de qualquer jeito, por qualquer pokestop, para caçar Pokémons.

Não é de hoje que os monstrinhos estão na moda, fique sabendo. Karl Lagerfeld, um dos maiores estilistas do mundo em atividade, colocou a linguagem da sustentabilidade na luxuosíssima Fendi. E olhe que não se trata de um produto fácil de usar, tampouco reaproveitar. Mas foi para não perder as raras peles de raposa que Karl criou os “bag bugs”: monstrinhos cheios de humor em formato de chaveiro. 

 

Esnobe, divertido, sarcástico. Os buggies fazem todos os tipos e começaram a ser usados por famosos que queriam levar uma cor para produções monocromáticas. Sim, os monstrinhos surgiram na época da febre de cor única no look. A aposta deu tão certo que logo surgiu uma linha completa de bolsas masculinas e femininas.

Agora mesmo acaba de ser lançada uma nova linha de clutch para homens com as caras mais simpáticas da recente história da moda. Em muito isso se dá pela abertura do acessório em formato parecido que serve para carregar iPad ou tablete e algo mais. Com eles, desmancha-se a uniformidade. As bolsas são produzidas com couro de bezerro e, sim (!), eu quero todas.

Pokémon é moda também, mas acredite: vem a reboque de grandes tendências mundiais. Continuaria sendo apenas um jogo não fosse a revolução da indústria do entretenimento nas últimas décadas e a ampliação da moda. Tudo, basicamente tudo, tem a linguagem de gamificação.

Gabe Zichemann, quando escreveu o livro “The Gamification Revolution”, extravasou o know how da sua empresa, a Dopamine, que desenvolve campanhas focadas em jogos, para funcionários e consumidores. A ideia é aplicar mecanismos que estimulem o raciocínio e tornem a experiência divertida e instigante. Para motivar, claro, oferece-se recompensa. E aí está a jogada de mestre. Hoje não vale mais só o vale-presente que antigamente se oferecia nas lojas porque o consumidor quer reconhecimento, status e acesso a outras fases ou ofertas.

O Pokémon Go pegou agora justamente por causa da estratégia de gamificação, mas não há nenhuma novidade nos monstros de bolso. Aliás, quem está na casa dos 30 anos, como eu, provavelmente passou a adolescência jogando Pokémon no Game Boy, da Nintendo. O desenho japonês foi criado em 1995 por Stoshi Tijiri. Ou seja, já tem 21 anos. Não surgiu ontem, como muita gente anda pensando.

O desenho, registre-se, é tão politicamente incorreto como rinha de galo ou de cães, como a gente viu no filme Amores Brutos, protagonizado lindamente por Gael García Bernal. Humanos capturam as criaturas ficcionais chamadas de Pokémon e as treinam para lutar entre si como esporte.

Nessa última semana eu vi “surgir” dezenas de produtos diferentes com a temática do jogo. Até um par de tênis com led que forma desenhos e se liga ao celular via bluetooth.

Nesse texto não há nada contra o Pokémon Go, mas aproveito para dar um lembrete: antes de pensar em colocar seu novo vício como elemento de moda, pense que há iniciativas muito mais criativas, como a da Fendi, que flertam como o movimento Pop Art. E, claro, são muito mais cool.

 

* Texto originalmente publicado no Novo 

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