Saia daqui!

21.07.2016

Leila e Rafaela, Jefferson e Sandrinho, Marcela e Marina, Niko e Félix. Todos esses casais sofreram nas telas e os atores na vida real. Alguns, como André Gonçalves, chegaram a ser agredidos na rua por fazerem um personagem gay na novela. Juntos, todos foram absolutamente importantes e abriram portas para que o inesperado surgisse justamente num folhetim de época. A cena de sexo entre André e Tolentino na novela Liberdade, Liberdade foi uma das mais bonitas da história.

Menos marcação e mais entrega. Essa foi a orientação principal da equipe de direção. Exige porque se trata “de um amor que foi negado por muito tempo, que é perigoso e pode ser condenado a qualquer momento”, como bem explicou o ator Caio Blat. Naquela época, entre 1789 e 1808, a Conjuração Mineira queria proclamar uma república independente. Havia ensaios de rebelião, mas nenhuma que revolucionasse o comportamento sexual. Gays morriam enforcados.

Autor da trama, Mario Teixeira descreveu: “Não é tratada como uma cena de amor entre dois homens. Ela foi gravada como uma cena de amor, não importa o sexo”. E eu aproveito para advertir: orientação sexual não dita roupa, moda ou afins. Portanto, essa coluna é expressamente contraindicada para quem acha que saia é coisa de mulher.

É claro que preciso fazer aqui um adendo. Não poder viver publicamente o que se é fez com que criássemos socialmente uma cultura relegada, mas que é super importante. Foi nos guetos que diversos grupos puderam ser inteiros, sem pressões sociais. Não falo de homossexuais, mas de punks e outros tantos.

Choques que quebrem a cultura do formato único, é disso que precisamos. Do mesmo jeito que a saia foi criada para mulheres as calças foram para os homens. Mas a origem não quer dizer nada. Felizmente temos um ciclo universal para todas as coisas: princípio, meio e fim.

Estamos na metade. É um tempo de mudança. Quem se arrisca ou expõe sai na frente e pode mostrar toda a sua versatilidade ou ser alvo, invariavelmente corre-se o risco. Prefiro me arriscar.

Kilt é uma palavra que na antiga língua escocesa significa prender a roupa ao corpo. A saia kilt, feita originalmente em lã escovada no padrão tartan xadrez, amparava do frio. Absorvia a água como um manto. O sentido sempre foi de proteção, mas que a estética. 

Afortunadamente vivemos a era da provocação. A androginia que surgiu entre as décadas de 1970 e 1980 no meio do movimento rock é nossa aliada; resgatamos-a. O objetivo maior agora é mesmo derrubar barreiras do convencionalmente aceitável. Aliás, aceita-se muito mais facilmente fora daqui. Na Europa saia para homem é popular, cool, já foi incorporada ao lifestyle masculino. Existe uma infinidade de modelagens, tecidos e estampas, não apenas o tradicional modelo escocês.    

Na inauguração da mais recente empresa que abri, estava vestindo uma kilt. Eu estava certo de que poderia haver rejeição – nesse aspecto me enganei. Abri as pernas para descer do carro e tentei agir com naturalidade, mesmo assustado com aquela incrível sensação de liberdade que só uma saia promove. Os homens – muitos heterossexuais, registre-se – comentaram o quão moderno era.

A saia é assinada pelo querido amigo e estilista Marcelu Ferraz, o qual represento aqui em Natal. Apesar de vender suas peças, não trouxe nenhuma para comercializar na loja. Simplesmente julguei, como muitos podem estar fazendo agora por terem ignorado a advertência que fiz logo no início do texto. Pois saibam que a despeito de toda essa ladainha eu já vendi saias kilt para homens aqui de Natal. Sociedade, tremei!

O primeiro a me encomendar uma foi André Azevedo, advogado. Profissão tradicional não precisa esconder sensibilidade. E no mercado há outros nomes interessantes investindo nesse nicho de mercado. Fabiano Siqueira, que vende pela internet, distribui kilts para todo o Brasil. Coloca nelas até uma pegada tropical, só pra provocar.

Autora do livro Moda e Sociabilidade, Maria Claudia Bonadio, registrou: “até a Idade Média, homens e mulheres usavam uma espécie de túnica. Depois, houve uma distinção sexual clara – as mulheres continuaram a usar uma túnica mais ajustada ao corpo. Já os homens passaram a usar trajes bifurcados, como calças ou bermudas”. Como nem sempre foi de um só jeito, nem sempre será.

Alexander McQueen usava. Marc Jacobs sempre é visto com as suas. As saias foram adotadas pelos estilistas e, aos poucos, serão também pelas pessoas. É uma questão de moda, não de sexo. Mesmo porque, se você for curiar embaixo de saias por aí só pra fazer o teste, vai ver que todos os homens têm os mesmos dotes. Como, quando e para o que usam é uma discussão que está mais embaixo.

Eu uso saia e acho difícil encontrar um cabra com o pau maior que o meu, numa boa.

 

* Texto originalmente publicado no Novo

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