Arte e moda, lado a lado

24.06.2016

Chove lá fora e aqui faz tanto frio, sábias palavras. É música, mas bem que poderia ser moda. Corre inverno por aqui em pleno verão milanês, onde a semana de moda acaba de desfilar muitas das apostas que devem ganhar as ruas em 2017, das coleções de primavera/verão.

Em uma das principais semanas de moda do mundo, na Itália, a tônica dos desfiles foi referenciar o fazer artístico, conclamar o grande público a apreciar, com outros olhos, os grandes artistas e até os 500 anos de história da arte. Esse último foi o tema, por exemplo, da maison Valentino.

Num antigo café, no então promissor espaço do Alamanda Mall, em Petrópolis, me reuni com três amigos no início do ano de 2007. Até aquela data não havia na história do Rio Grande do Norte nenhuma publicação exclusivamente de moda, embora Juraci Lira já trabalhasse havia quatro décadas e nomes como Douglas Pranto, da Jacinto, e Ricard8 San Martini despontassem no cenário local, com referências fora das barreiras estaduais, como o Dragão Fashion, em Fortaleza, e a Casa de Criadores, em São Paulo.

Entre um expresso e outro, resolvemos unir forças e nasceu a ideia de uma publicação chamada Pose – Anuário da Moda Potiguar. Fizemos na raça, enfrentando um mercado viciado em permutas e as poucas marcas que tinham alguma verba, gastando o que deveriam aplicar em marketig e publicidade, com notinhas em coluna social. Ninguém sabia (ou tinha) onde investir de verdade.

Colocamos a publicação na rua por dois anos seguidos e abrimos espaço para algumas das revistas que estão aí até hoje. O esforço valeu pelo reconhecimento da UFRN, que fez com a Pose um belo estudo de caso e algumas poucas iniciativas mais. Mas o nosso principal orgulho foi conseguir unir a classe artística e os estilistas em prol do desenvolvimento de uma linguagem única.

Moda e cultura estão intimamente ligados. Não foi só a coleção “Unfinished: Thoughts Left Visible” (Inacabados: Pensamentos deixados visíveis), da Valentino, sobre obras inacabadas. A Fendi mostrou nas passarelas de Milão referências como Pablo Picasso, tema da exposição em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, numa coleção cheia de listrados que lembram pinceladas e flores que parecem pintadas à mão. Esse era o jeito descansado e com amplas parkas e shorts de Picasso se vestir na Côte d’Azur, no sul da França.

Moda e arte: Valentino explora na jaqueta bomber a aplicação de obras inacabadas ao longo de 500 anos de história da arte e Fendi lembra o estilo balneário e florido usado por Picasso na Côte d'Azur

 

Os volumes também apareceram no primeiro desfile exclusivamente masculino da história da Balenciaga, com uma verve bem brechó – Quer maneira mais popular de valorizar as mais diversas criações artísticas?

Brechó tem um perfume vanguardista, assim sinto. É uma forma antiga de valorizar o vintage, o olhar diferenciado, unindo todos esses pontos com o momento extremamente importante de pensar e consumir de forma sustentável. Há quem pense que isso é poeira e naftalina. Quase dez anos atrás, caro leitor, fazer as pessoas mudarem a leitura era ainda mais difícil.

Passou todo esse tempo e hoje, com muito orgulho, retomei a parceria com uma jornalista que me ajudou a descobrir esse universo tão rico da arte em forma de vestir. Com Sheyla Azevedo acabei de criar a Toque de Mídias, uma empresa especializada em projetos de comunicação de moda e cultura, que tem ainda um espaço de galeria aberta para os artistas potiguares exporem sua produção. Nossos olhos faíscam de alegria de, mais uma vez, mostrar ao mercado que podemos criar fórmulas diferentes de valorização da arte e do estilismo, além de monetizar essas obras. Não fosse rentável, moda e cultura não estariam juntas nas passarelas do mundo inteiro.

Muita gente já nos procurou na Toque de Mídias, alguns com real interesse de trabalho, outros por curiosidade. Nós os recebemos com o mesmo calor.

Luciana Mamede, estilista curraisnovense, certa vez me disse que lhe orientaram a mudar o disco, não investir mais em coleções que evidenciavam a obra da sua tia, a poetisa paraibana Zila Mamede, natalense de coração. Na época eu achei aquela direção, dada por um estilista de renome, um tanto equivocada. Hoje vejo que foi completamente esdrúxula.

Valorizar nossa arte é o ponto de partida para criar e reinventar. É por isso que vibro com o novo rol de estilistas aguerridos, que fazem isso acontecer em um mercado pequeno como o de Natal e com os outros brilhantes e que vem sendo disputados por grandes grifes. Que todos nós aprendamos com eles e com Maria Betânia, que vai estrear em julho - digo em primeira mão com muito orgulho - um programa no canal Arte 1, do Grupo Bandeirantes, para resgatar a arte. Ela começa com a declamação de poemas, ao lado de Caetano Veloso, e o debate sobre a literatura e o etilo extremamente feminino de Clarisse Lispector. Bravo!

 

* Texto originalmente publicado no Novo

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