Ingresso para desfiles

23.06.2016

Uma nova moda está desfilando nas passarelas de maneira nada informal. Algumas marcas já ensaiaram fazê-lo, mas foi a Moschino que escancarou a ideia de vender seu show, cobrando ingressos dos interessados em assistir ao desfile da coleção primavera/verão 2017 no West Coast, em Los Angeles. Um verdadeiro soco no estômago de grifes mais conservadoras, que ainda vendem peças com forte viés de exclusividade, ignorando os avisos de que até o modelo de luxo precisa ser reinventado, está com os dias contados em tempos de crise econômica e acessibilidade do design.

Claro que uma aposta assim tão alta teria de acontecer nos Estados Unidos, terra do capitalismo. A grife deu de ombros para Milão, onde normalmente apresenta suas coleções, e Londres, cidade na qual também já investiu. A ideia foi do diretor criativo, Jeremy Scott, que vive na Califórnia. 

A embalagem foi totalmente colorful, no melhor estilo Cruiser – como tem sido chamados os desfiles de verão. E lá pela passarela se apresentaram nomes de peso, que justificavam os preços dos bilhetes, como Jourdan Dunn, Miranda Kerr e Alessandra Ambrosio. Modelos que estão no topo e certamente defendem muito bem as peças, mas ainda deixaram dúvida a respeito da viabilidade de investir em tendências como a calça boca de sino. Depois de temporadas de surra do modelo skinny, a gente olha e se pergunta: Mais uma vez?

Outras são mais fáceis e quiçá até atemporais. Estão nessa leva o crochê (vamos valorizar essa trabalho manual incrível!) e o tie-dye. Isso tudo com uma embalagem clubber bem noventista dos sucessos dos anos 1960. Falei aqui, semana passada, das jaquetas bomber. Elas tomaram conta das duas linhas: masculino e feminino.

O exagero típico da grife ficou muito evidente, mesmo sendo certo que qualquer dessas produções entraria fácil como figurino de turnê de artistas tipo a Katy Perry. Mas, nos bastidores, foi a cobrança da entrada que deu o tom das discussões. É algo que muitos criadores e marcas se perguntam há tempos e, de certo, ainda não existe consenso sobre se o desfile deve ser tratado como um show, literal e financeiramente falando.

No ano 2000, quando ingressei no curso de jornalismo, abri espaço nas prateleiras para fazer minha biblioteca particular. Um dos primeiros nomes a surgir, embora eu tivesse mais inclinado a seguir carreira em televisão a despeito de assessoria, foi um livro da Cremilda Medina chamado “Notícia: um produto à venda”. É claro que depois de ver o alvoroço em torno da nova proposta de desfiles não deu para ignorar a comparação.

Não se trata de fazer jabá, como muitos apressadamente podem ler, por causa do nosso mercado de comunicação viciado em permutas. Medina propõe que tratemos a notícia como um produto a ser abordado dentro das redações, com tratamento adequado e fórmulas de mercado, para que a venda de publicações nas bancas seja viabilizada. Hoje esse comércio é ainda mais evidente, já que as novas mídias e plataformas digitais contribuíram para pulverizar os investimentos. Precisamos de métricas, mas também de ação e resultado.

O mercado inteiro passa por isso e a pressa em vender – com a devida valorização do produto, claro – virou ponto crucial de debates. Por isso eu digo e repito: pagaria sem culpa por um bilhete para ver o desfile da Chanel em Cuba e tenho certeza que muitos queriam estar no show da Louis Vuitton, no Rio de Janeiro, no meio daqueles 500 convidados de todos os continentes.

Os ingressos são só uma forma de equilibrar os custos mais elevados dessas super produções. O mercado ainda precisa se transformar mais e até mesmo quem produz tem de se ligar em oportunidades como o “see now, buy now”, de desejo imediato. Quer dizer: se você gostou, já pode levar! Foi assim que o Rio Moda Rio, evento dessa semana, se destacou, abrindo espaço para novos conceitos e o showroom após os desfiles. Moda é negócio, como qualquer outro trabalho.

 

* Texto originalmente publicado no Novo

Please reload

Destaque

O que comprar em promoção?

08.07.2019

1/6
Please reload

O CRICOFELIX.COM é o site criado pelo jornalista Cristiano Felix sobre tudo o que interessa ao dândi moderno: tecnologia, moda, comportamento, gastronomia etc. As imagens contidas podem ser creditadas ou reproduzidas de fontes externas. Caso você tenha os direitos sobre qualquer imagem publicada aqui e não quiser que ela seja veiculada, entre em contato para que ela seja prontamente removida.  

Categorias:

Comente aqui:

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now