Homem de saia está no calendário (definitivamente)

15.05.2016

Só quem é do meio pra entender o calendário da moda. Ele já era maluco e está ficando sem controle. Fatores externos somam-se a isso: são os câmbios climáticos, a economia em crise do nosso país, a força cada vez maior da moda sem gênero e outros tantos. As marcas e estilistas se equilibram na cada vez mais tênue linha entre a criação e a necessidade de ser comercial, monetizar. Pra nossa sorte, em meio a esse turbilhão, aparecem coleções como a de Murilo Lomas e as parcerias de Amir Slama, recém-desfiladas no São Paulo Fashion Week.

Nossa maior semana de moda, como eu já disse aqui, também mudou. Não se divide mais inverno e verão. Tudo precisa ser de desejo imediato, vendável, fazer girar. Até quem tem a pegada mais conceitual, como João Pimenta, se soma a outros  talentos. No caso dele o apoio veio do stylist Daniel Ueda, que é mais prático e soube captar a exuberância maximalista do uniforme militar agênero.

João ainda brindou ao Nordeste e botou seu machismo no chão ao fazer das nossas varandas de rede de balanço uma espécie de vestido – ou uma longline, como queira – e cobrir parcialmente com um blazer de fitas de VHS. Tudo tem cintura destacada, é marcado ou vazado. É masculino com as curvas do corpo da mulher nos corseletes, saias e babados. Precisa estar seguro para vestir Pimenta enquanto outras gratas surpresas da semana de moda são o melhor estilo efforless.

De palavras estranhas a moda está cheia e esse adjetivo é mais uma. Entenda como algo fácil de vestir, no melhor estilo sem esforço dos franceses. Assim Murilo Lomas estreou na passarela do SPFW, fazendo um dos melhores desfiles da temporada. Eu não o conheço, mas descolei um convite com um amigo enquanto estava no backstage, fazendo matéria para o programa #SemFrescura, tocando as peças conversando com os modelos de um casting caprichado. Perdi a hora, por suposto, distraído entre as araras.

Arquiteto por formação, Murilo bebe na fonte do design. Esse é indiscutivelmente o ponto de partida. Os recortes geométricos, como era esperado, estavam lá, mas também se viu uma moda com caimento. Macacões e camisa e calça ou saia com a mesma estampa; alfaiataria com toque sportwear, looks monocromáticos com destaque para o azul royal e camisa com manga longa e capuz. Sem falar dos terninhos bem cortados vestidos por Marlon Teixeira e Evandro Soldati.

Chuva de mensagens ele recebeu no instagram, todas com o mesmo texto: “Quero a coleção inteira agora!” Cata lá que uma delas vai ser a minha. Essa resposta rápida é o tal do desejo imediato. As pessoas veem na passarela e já querem usar, não importa se a roupa foi pensada para a estação seguinte e o tecido é muito leve para o frio que começou em algumas regiões ou pesado demais pra o verão que vai surgir. A história do calendário, volto a ela, por mais maluca que pareça, é real. E parte da culpa é nossa. Dividamos essa com a Dilma.

A mudança é global. Essa semana mais grifes anunciaram que também vão enxugar suas apresentações. A primeira notícia desse tipo foi feita pela Gucci, no final de abril. Agora em maio a Bottega Veneta divulgou a unificação dos desfiles masculinos e femininos já a partir de setembro, em Milão. A decisão foi comunicada como temporária, por ocasião dos 50 anos da marca fundada em 1966 e a necessidade de fazer uma grande festa, mas corre a boca pequena que até o mercado de luxo está de olho no sistema “see now, buy now”, o mesmo da Riachuelo e afins (falamos disso na semana passada). Afinal, o mundo quer ver e comprar agora. 

Tomas Maier, diretor criativo da Bottega há 15 anos, faz uma moda cada vez mais sem sexo e o próximo passo seria diminuir o delay entre o desfile e o início das vendas. Uma nova dinâmica todo o circuito nacional e internacional está buscando, apesar de um CEO da grife, Carlos Alberto Beratta, ainda destacar que o compromisso maior é com a habilidade dos artesãos e lançar o quesito de “atemporalidade das peças” como argumento para conter a urgência.

Por aqui, mesmo quem faz moda para um público menor, que paga mais caro, pensa no comercial. Ainda no SPFW, Amir Slama fez parceria com Rodrigo Snagion, personal das estrelas e empresário da Le Cinq Gym, e ainda puxou o modelo e homem propaganda da Mahamudra, Erasmo Viana, para assinar em parceria uma coleção fitness. As linhas, é óbvio, não seriam lugar comum. Todas as peças têm seu conceito bem marcado nos recortes geométricos e nas transparências, mas são extremamente comerciais.

Como já diziam os Titãs, caro leitor, “a gente quer comida, diversão e arte”. E comida só se compra com dinheiro no bolso. A moda de passarela é linda e eu adoro, mas a real me enche muito mais os olhos. 

 

* Texto originalmente publicado no Novo*

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