Estilo londrino usável até na cidade do sol

15.04.2016

Um velho calção de banho e um dia pra vadiar. Quem não gosta de passar uma tarde assim? Em Itapuã ou em qualquer ponta do nosso extenso litoral é o mesmo: o ambiente propício ao relaxamento é o nosso estilo. Mas, despojamento não é sinônimo de pouca roupa e nesse aspecto os ingleses dão aula a nós tupiniquins.

Galante e elegantemente vestido: assim se forma um gentleman, dizem por aí. Só que talvez tenham esquecido de explicar que por trás de gravatas borboletas, bolsos quase nunca vazios e coletes de seis botões habita um modelo que tem muito mais de descomplicado que irretocável. Poucos londrinos carregam a pecha de impecáveis. O processo de construção visual é tão desencanado quanto divertido.

A moda de Londres é jovem sem precisar do combo jeans e camiseta. É essencialmente humor em cores, formas e padrões. Do xadrez, das listras, dos poás e até do empréstimo da icônica “pied de poule”, nascida na França, mas cidadã do mundo desde que foi adotada por Coco Chanel na década de 1930. Os britânicos misturam tudo naturalmente e fazem dessa mescla seu humor.

Filmes de época nos deixam presos demais, sempre achei. E o Netflix está cheio deles. É claro que também acho imperdível e uma verdadeira lição assistir Downton Abbey, série criada por Julian Fellowes e que se passa no Reino Unido. Mas, a despeito da fidelidade dos cenários e figurinos, aquela moda classicamente sisuda não existe mais, desmoronou no pós-guerra.

Frio é um troço que faz a gente se cobrir e todo mundo sabe que a sobreposição ajuda qualquer pseudo-entendido de tendências a se vestir com dignidade. No entanto, o cenário da moda evoluiu em forma e conteúdo, sem esquecer suas raízes. Exemplo inconteste é que Paul Smith, designer britânico que criou uma marca com seu próprio nome e foco especial na alfaiataria, foi nomeado cavaleiro da rainha Elizabeth II por ter prestado, reconhecidamente, diversos serviços à moda britânica. Esses benefícios são muitos, mas incluem principalmente criar “clássicos com um toque”, como ele mesmo costuma dizer.

É claro que conta também o cara possuir mais de 300 lojas em todo o mundo e ter movimentado mais de £ 200 milhões no ano passado, mas vamos deixar a análise comercial de lado porque os números falam por si. E olha que o mister Paul Smith empreendeu seu negócio nos anos 1970, justamente quando houve a explosão do movimento punk que sacudiu um bocado o cenário da moda.

Além de sua adequação ao clássico, Paul Smith joga com a silhueta tradicional, trazendo à mente detalhes nostálgicos da década em que a marca foi criada e da imediatamente anterior. Nessa coleção de primavera, nas vitrines da Europa e dos Estados Unidos, a marca dá volume à sua linha, oferecendo calças com silhueta descontraída e, no outro extremo do espectro aparecem a magreza e a amplitude de ícones da música como Mick Jagger e David Bowie. Eu, honestamente, fico com qualquer um dos dois.   

A vibe recente das meias coloridas com sapatos estilo oxford e brogue também pode ser considerada sua colaboração. Paul Smith tem graça e leveza no DNA, assim como outras marcas que a sucederam, como a Ted Baker, fundada por Ray Kelvin em 1988. Ela é uma das minhas preferidas atualmente. Não posso ver uma bolsa com a lateral sanfonada e colorida ou uma gravata diferente que corro pro caixa. É compra certa em todas as viagens (!) e na mais delas recente descobri a mala de mão. O tamanho é ideal e o acabamento primoroso, tudo isso servido de bandeja, literalmente.      

As duas são grifadas e fazem parte de um mercado de luxo ainda pouco ousado. Quase todo mundo quer ter peças de marcas premium – o tal desejo de consumo -, mas é realmente uma minoria que procura produtos diferenciados. No geral, as pessoas têm uma inclinação para os clássicos; é mais fácil investir uma boa monta num design que seja eterno.

Mala de mão é um item atemporal e cada vez mais utilizado nas ruas, contrapõe com o modelo minimalista da clutch e da reinvenção da capanga. Nele cabe tudo o que a gente precisa pro dia de trabalho, pra levar à academia e esticar até mais tarde. Todos os apetrechos tecnológicos e mudas de roupas vão lá, numa boa. No street style de Londres as bolas estão cada vez mais trocadas e os ingleses se permitiram contaminar com a diversidade de etnias que há nas ruas.

Difícil é copiar um look completo com o calor que faz por essas bandas, embora blogueiros como Kadu Dantas façam isso com facilidade pelas ruas de São Paulo ou em viagens internacionais (as malas dele devem ser pesadas pacas!). No entanto, muitas referências são perfeitamente aplicáveis ao nosso clima. Dia desses, na festa de lançamento do Programa #SemFrescura, me vesti com um colete bege clarinho e pus um lenço de seda “azul serenity” – uma das duas cores escolhidas pela Pantone para o ano de 2016 - no bolso. Diego Negrellos, amigo jornalista e também apresentador da TV Ponta Negra, disse na hora da entrevista que naquela produção tinha frescura demais. “Eu tiro essa roupa bem fácil, basta ter um bom motivo”, respondi em tom de brincadeira.

É bem isso que acredito ser realmente necessário: colocar pelo menos uma pitada de humor. Se não for no cotidiano, que ao menos dê para tirar do bolso de quando em vez. Ponto para os ingleses!

 

* Texto originalmente publicado no Novo

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