Geova retorna ao circuito de artes

08.04.2016

A moda cansa. Começar um texto com essa afirmação não é nada fácil, mas negar o óbvio seria ainda pior. O cidadão comum se entedia com o seu próprio guarda-roupas. Os jornalistas, estudiosos e críticos se aborrecem de reescrever as mesmas ideias e aos outros também. Nós, sem quem está na outra ponta, o estilista, não funcionamos. É preciso existir alguém novo e com gás de criação. Sem isso, até os estilistas estão fadados ao esgotamento.

Na minha juventude eu ouvi dizer e até repeti como um eco que viajar era inspirador. A gente vê lugares originais, pessoas diferentes, senta na calçada, olha um movimento novo e tudo isso fascina, as ideias fluem: criamos nossas próprias vivendo ou a partir das histórias de outros. Só há esses dois caminhos, apesar de muita gente ainda torcer o nariz para a apropriação.

Geova Rodrigues, estilista potiguar radicado em Nova Iorque, cansou de fazer moda. Ou pelo menos só isso. Quer outros movimentos artísticos, câmbios e voltar a pintar. Quando ele me falou isso recentemente, no dia em que visitei seu ateliê no East Village, me bateu um certo choque. Mas depois de ouvir os argumentos, entendi. “Não existe ninguém novo, nenhuma personalidade criativa como John Galliano. Acho que o último foi Alexandre McQueen. Depois dele até surgiram pessoas interessantes, mas sem ideias revolucionárias ou absurdamente provocativas”, disse.

Moda e arte estão searas distintas para alguns. São complementares para outros tantos como eu. Sempre vi conexão e poderia citar centenas de exemplos para solidificar esse juízo, mas me restrinjo a um para abreviar a conversa: as estampas baseadas em pinturas do holandês Piet Mondrian (1872-1944) nos tubinhos de Yves Saint Laurent (1936-2008). Enfim, vamos convivendo com esses dois mundos em paralelo.

Não sei como nos conectamos nesse mundo cibernético, mas foi bem antes da ligação global das redes sociais. Geova sempre me pareceu uma figura esquizofrênica. Fizemos alguns trabalhos em parceria, cada um no seu quadrado. Ele produzia e pensava moda, eu publicava em revistas e afins. É dessas figuras aparentemente fáceis de decifrar em uma troca de e-mails. De perto, nunca!

Referências de cabarés, guetos, movimento rock, lixo e luxo, muito luxo. Coloco tudo isso em um par de linhas e é como se estivesse ouvindo ele falar de filmes, música e cenas dos cafés, restaurantes e bibocas de Manhattan, onde o opulento é decadente. Geova é uma alma velha, alguém que “já nasceu internacional”, como bem disse Luana Piovani.

Filho de Barcelona, interior do Rio Grande do Norte, Geova Rodrigues conseguiu render mais uma vez os Estados Unidos ao ter sua dupla nacionalidade aprovada. É cidadão americano com direitos e muitos deveres a realizar. Um deles é voltar a investir na carreira artística, como pintor, sem parar suas máquinas de costura e mãos ágeis e que trabalham com liberdade. Cada peça que ele produz é exclusiva, feita à mão: um estilo que se encaixa em pouquíssimas pessoas pelo próprio estilo alternativo da customização e pelo preço da exclusividade. Uma camiseta sai pela bagatela de 250 dólares. Levando em consideração nossa moeda desvalorizada, não é nada menos que R$ 1 mil.

“Quando estou fazendo uma coleção, sou muito livre e invento muito. As peças são mais invenção do que criação. E que acho que é por isso que adoro os inventores. Não acredito no novo, mas no ‘fresh’. Tenho a impressão de que tudo já foi feito quando pesquiso o ‘novo’. Acho que é isso que faz minhas roupas sempre estarem à frente do seu tempo.”

Essa declaração que acabei de citar poderia ser de hoje, mas ele me disse isso numa entrevista quatro anos atrás. Na época, Geová tinha feito um editorial chamado “Vanguard”, no qual aparecia o jovem Gaspar Muniz, DJ e filho dos consagrados artistas plásticos Vik Muniz e Maria Mattos. As fotos todas em preto e branco revelavam um trabalho totalmente abstrato. Ele estava produzindo uma série de ‘headbands’ – nome usado para descrever faixas ou tiras de tecido que envolvem a cabeça -, inspirada em animais. “Essa ideia foi dada por uma stylist e achei fantástica”, disse.

Outro alguém falou que uma das bonecas que ele tem na parede parecia com a Madonna. Ele discorda. Os bonecos de pano tem um perfume nostálgico, talvez lá de Barcelona. “Não brincava de boneca quando era criança e isso ficou marcado na minha vida. Talvez eu seja um estilista por trauma. Hoje eu brinco de fazer roupas para bonecas e acho incrível. A diferença é que, depois de tanto tempo, eu aprendi a mostrar essa brincadeira para o mundo.”

Combinamos de cair na noite e ele perguntou se eu estava solteiro. Falei que estava pensando em casar. “Tenho um presente pra você”, disse antes de abrir uma gaveta e tirar um par de abotoaduras e um prendedor da gravata. “Não é lindo? É vintage e tem um estilo art nouveau que é incrível! Quero que você use quando casar”. Sumiu outra vez e voltou com um prosecco. “Acho que agora gosto mais de prosecco que de champagne”, disse como se metaforizasse todo o processo de mutações pelo qual vem passando. Refleti: sempre precisamos mudar, tendo referência ou não. Nos inspiremos em outros ou não. A transformação é algo real.

Fomos jantar num restaurante indiano animadíssimo onde não se vende bebida. Cada um leva a sua e o salão é sempre cheio de jovens. Bebemos, esquentamos para a balada, mas a noite também cambiara e o frio lá fora era cortante. Com apenas uma jaqueta, tremi. Ele me disse: “Querido, tome o meu casaco. Ele é careta, mas é um Louis Vuitton e eu já vi seus sapatos e bolsa e sei que você gosta. Eu acho careta e vou mexer nele amanhã mesmo. Talvez coloque umas lantejoulas porque a vida é mesmo um circo. E eu acho isso um luxo!”

* Texto originalmente publicado no Novo

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