Roupa feita para pessoas

07.04.2016

Uma cena inspiradora para mim é: centenas de pessoas correndo para o alto de uma montanha de onde se tem visão privilegiada do sol prateando o mar ao nascer. Elas estão nuas, são livres. E  precisam se vestir a caráter para esse acontecimento corriqueiro e de incansável beleza. Mas vestir-se da maneira correta é usar o que lhe dá vontade, longe da distinção de roupa por gênero. Sem alas segregando masculino e feminino, o armário passa a ser um grande varal. Do tamanho do mundo.  

Antes de você pensar que tio Crico está com crise de artista e inventou uma obsessão por sempre falar do agênero, explico. Não sou eu quem diz, caro leitor. Nem é mais uma questão das elites da moda. É certo que as grandes grifes saem na frente no quesito ousadia e a última investida nesse sentido foi a coleção recém-lançada pela Louis Vuitton. A marca convocou Jaden Smith, o filho do ator Will Smith, para protagonizar uma campanha em que ele aparece de saias ao lado de garotas. A ideia principal é desmistificar que ainda hoje possam existir padrões de vestimenta e a intenção comercial é aproximar o jovem da marca e do universo político da inclusão. No entanto, muito além das semanas de moda e campanhas publicitárias, a linguagem do agênero vem sendo usada.

Poderia ser só um sonho meu, mas foi quase uma epifania ver esse devaneio materializado no formato de um comercial de TV. Quem fez foi uma fastfashion, a holandesa C&A. O vídeo foi rodado em duas locações da região Sul do Brasil e tem duração de 1’34’’. Foi ao ar pela primeira vez no intervalo do capítulo de estreia de “Velho Chico”, na Rede Globo e visto no YouTube mais de 1,5 milhão de vezes só na primeira semana. A peça tem assinatura da agência AlmapBBDO, a segunda mais premiada do mundo, segundo dados de 2016 da Gunn Report.

A proposta é combinar: “Os iguais, os diferentes, os distantes, as experiências, as atitudes. Nada de palidez, nada de solidão, nada de mau-humor. Queremos incluir você num mundo colorido e ousado através da moda.”

Só esse descritivo que está ao lado do vídeo no canal da marca já me faria entrar num portal rumo ao desconhecido. Soma-se a isso a paisagem delirante e os olhares de aceitação e o vídeo é primoroso e utópico, como toda perfeição. No mundo real não existe tamanha aprovação e seria chato mesmo que todos nós pensássemos e agíssemos da mesma maneira. Colocando isso numa espécie de limbo, a televisão, chega a ser reconfortante. Os atores/modelos se vestem, criando misturas improváveis, se entreolham, voltam a encarar o abismo e o mar e começam a se despir novamente. Lá embaixo estão fincadas várias varas de bambu, tremulando ao vento com mais roupas e a mensagem: “Misture, ouse, divirta-se”.

Campanhas assim não são novidade, como já comentei. Tampouco se trata apenas de encorajar. Em um mundo no qual as pessoas tentam acabar com todos os tipo de barreiras e padrões é importantíssimo uma rede do tamanho da C&A reconhecer que as mina podem usar camisetas ditas para homem e os homens podem ter o desejo de vestir calças skinny, com maior percentual de elastano no tecido – o que também significa conforto e pernas mais marcadas. Alias, no e-commerce da marca já é fácil encontrar calça skinny com a descrição "masculino" nas buscas.

Preconceito não escolhe sexo. Homens e mulheres sofrem da mesma maneira, embora muitos achem que a medida é diferente porque gays se arriscam muito mais aos tapas na rua quando vestem saias ou estampas florais. Mulheres também sentem isso na pele e a gente fala pouco sobre. Por isso que também é muito bacana ver a ideia corporativa da multinacional Avon, que escalou a transexual Mel Gonçalves, da Banda Uó, para uma campanha de maquiagem sem medo de perder clientes mais conservadores. “Temos uma opinião como empresa, a de que é preciso empoderar mulheres e ter respeito com a diversidade", disse David Legher, presidente da marca.

Saia e vestido não combinam com minha estética e personalidade, mas acho massa quando vejo um homem com qualquer peça do tipo, sem que isso afete sua hombridade. Tiro o chapéu para o colhão do ator Bruno Gagliasso, que usou um vestido vermelho decotado no aniversário de Paulinho Vilhena em Fernando de Noronha e ainda escreveu no instagram: “Sempre gostei de roubar roupa da @gio_ewbank”. Giovanna Ewbank, para quem não sabe, é a esposa de Bruno.

É como escreveu um internauta logo abaixo da postagem do vídeo da C&A: “Roupas para seres humanos”. Precisamos superar os julgos, meus amigos.

 * Texto originalmente publicado no Novo

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