Estilistas e seus investimentos de longo prazo

18.03.2016

Há dois tipos de investimento: um deles tem risco maior, embora possa render mais; outro é seguro e tem taxa percentual de apenas um dígito ou nem isso. E também existem dois perfis de investidor: o arrojado, que usa e abusa da sorte, sem se importar com os olhares alheios de julgamento e/ou cobiça; e o paciente. Esse que vai inserindo calmamente, em suaves parcelas o conceito de moda chama-se estilista. Ele sabe onde quer chegar e se importa com o tempo, claro, mas sabe que o mercado e os clientes precisam de um período diferente pra se adaptarem ao novo.

A ala criativa também faz parte da indústria têxtil e tem um forte componente econômico, não se engane. Fingindo estar alheia a ideia de mercado, ela trabalha para fomentar o seu desejo de mudar de patamar de investimento, tonar-se mais agressivo na maneira de expressar e agir. Caro leitor, esse paralelo de moda com economia você já sabe que eu entoo quase como uma cantiga de grilo, mas dia desses ele me veio com mais força ao pensar nos ícones da temporada: os tons terrosos, a cor caramelo que agora resolveram chamar de camelo e o estilo cowboy norte-americano, com suas calças ajustadas e coletes de franja.

Fevereiro de 2014, semanas de moda de Paris e Londres. Mais de dois anos atrás algumas das principais grifes apostaram que a terra iria tremer. Não era uma previsão do cenário econômico e político do Brasil, embora o enredo soe familiar. Muito vermelho sangue ia rolar, mas a cartela de cores foi até o marrom, passando pelo marsala, a cor do ano de 2015, apontada pela Pantone. No meio de toda essa referência de saloon e deserto apareceram muitos ponchos e franjas – até nas bolsas. Tudo gigante.

Louis Vuitton, Maison Martin Margiela, Issey Miyake e Y-3 apostaram, mas sobretudo a Burberry roubou a cena e começou a orientar muitas outras redes, inclusive as fast fashion. A marca conhecida por seu icônico padrão xadrez também destacou o verde esmeralda. O desfile foi uma joia.

Clássico no Velho Oeste – talvez até mais que revólver Colt 45, a arma preferida de bandidos e xerifes – as franjas eram vistas em roupas e acessórios na época da expansão dos Estados Unidos. Passadas algumas décadas voltaram por obra e criação da indústria da moda, ganharam uma embalagem boho, para atender a demanda de múltiplas culturas dos boêmios do Soho, bairro dos descolados de Nova Iorque.

Essa mistura que ressurgiu pelas ruas de Manhattan foi entendida pelo resto do mundo como um novo movimento hippie, só que mais organizado e centrado na prosperidade de carreiras e negócios, se é que se pode dizer assim. Não tinha o luxo dos desfiles, isso não pegou (!), embora, para fins de massificação, tenha servido muito aquela investida nas passarelas.

Machismo e preconceito rondam, é fato. As celebridades, que se importam menos ou já estão mais acostumadas com o falatório, começaram a usar. Lembro do dia e que vi o modelo italiano Mariano di Vaio usando uma jaqueta preta com longas franjas na manga. Internacionalmente conhecido, ele é um cara ousado e que dita moda, já falei inclusive sobre isso aqui. E foi justamente o reforço que faltava.

A Zara, gigante da democratização da moda, lançou pouco depois um modelo parecido, que só circulou pelas lojas europeias. As franjas era mais tímidas, mas a mensagem era a mesma: Isso é legal e você não precisa entortar o nariz! Ou não se lembra que a galera do rock embarcou na onda de sucesso do sertanejo e usou e abusou dessa pegada nos idos de 1970? 

 

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Mais uma prestação veio no “London Collections: Men” do ano passado e novamente a Burberry passou a fatura. O investimento é feito pouco a pouco e no final sempre dá bons resultados. Comandada por Christopher Bailey a coleção desfilada em 2015 – e que está nas lojas agora – foi pura elegância e apostou no camelo e nas franjas, inclusive reinventando o cachecol típico da marca. Nesse mesmo desfile da Burberry, quem estava vestindo um poncho cheio de franjas no meio de celebridades como Kate Moss, Sienna Miller, Cara Delevingne e Poppy Delevingne era o ator brasileiro Chay Suede. Estereótipos começaram a se quebrar nas Américas aqui de baixo também. Poucas lojas, no entanto, tem peças assim à venda.

Mercado em retração ou falta de visão à parte, a moda segue o princípio de investimento no desejo: onde estou, como sou e como quero que me vejam. Por essas bandas é fácil as mulheres encontrarem roupas, sobretudo coletes, com franjas de todos os tamanhos. Os marmanjos é que, por enquanto, ainda estão de fora. Já percorri várias lojas e nada, mas na próxima sexta, no instante em que você estiver lendo essa coluna, eu estarei em Manhattan procurando por uma para chamar de minha. E prometo trazer outras referências de lá para compartilhar.

Quem quiser entrar no clima de faroeste e dos desertos que inspiram as coleções de muitas marcas nacionais, pode começar experimentando o tal do camelo. As calças nesse tom prometem virar peças carimbadas (conheço poucas pessoas que ainda não compraram). E parece que ninguém está se importando se o tom é quase o mesmo da pele. Na era do “manda nudes”, se vestir e parecer que está pronto para o combate pode ser uma grande vantagem competitiva. Só não saia atirando para todo lado.

E outra: a franja é um recurso criativo que ajuda a mostrar ou esconder o corpo, dependendo do que se pretenda. Sua silhueta vai ganhar com ele um movimento manso e ritmado.

 

* Texto originalmente pubicado no Novo

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