Jailson Marcos: design potiguar no pé das celebridades

12.03.2016

Interesses sexuais fazem parte da moda. Da moda do agênero, do corte dos ternos, das fendas nas pernas das mulheres e nos decotes que valorizam o colo. Há várias formas de excitar, mas talvez a mais sutil e provocadora ao mesmo tempo seja o salto alto. É assim que a história de hoje começa.

Ronaldo Fraga é um dos grandes mestres da moda no Brasil e percorre o país inteiro descobrindo muito talentos. Uma plataforma de madeira me chamou a atenção num dos desfiles dele no São Paulo Fashion Week. O salto era esférico, de uma geometria de desequilibrar. O nome do designer que concebeu aqueles calçados é Jailson Marcos.

Muita coisa a gente muda na vida, é a questão do tal livre arbítrio. Mas quando uma pessoa nasce predestinada a expor sua vocação, disso não dá pra escapar. Nem a distância dos rincões do Nordeste brasileiro do centro que movimenta o país é capaz de conter a vasão de um talento. Nenhuma microrregião – nome ordinário de censo de geografia – é totalmente isolada.

Santana do Matos, onde hoje vivem cerca de 14 mil habitantes, está cravada no meio do Rio Grande do Norte, na região de Serra de Santana. Jailson é de lá e, embora tenha migrado pra Natal ainda jovem e já viva em Recife há mais de três décadas, guarda até hoje o sertão como a principal referência do seu trabalho. Aliás, falar de trabalho com esse designer de DNA potiguar é embarcar numa grande brincadeira.

Antes de desenhar sandálias que fazem a cabeça e estão nos pés de muitos artistas de personalidade forte e estilo bem marcado, Jailson trabalho na área administrativa, foi chefe de gabinete de deputado e quebrou muito a cara, como de resto acontece com muitos de nós. Quando mudou para Pernambuco, nas tardes gastas em mercados, foi se apropriando das raízes culturais.

Um argentino cruzou o seu caminho, alugou um quitinete ao lado do dele. “O mesmo som que eu fazia produzindo minhas peças, ouvia do outro lado da parede. Num belo dia nós nos cruzamos e ele me convidou pra entrar”, lembra. O vizinho fazia um tipo de mocassim totalmente costurado à mão. Jailson aprendeu a técnica e comprou o material para começar também sua produção.

Com a grana de uma demissão, trouxe da capital paulista algumas peças de couro. Fez cintos também. Depois, com as crises que vão e vem de tempos e tempos nesse país de Deus nos acuda, até fez pares de sapatos com a técnica de papel machê. “Eu passava dias usando em casa pra ver se eram duráveis. E eram!” segundo ele, uma drag queen do Recife ficou com um par e usou durante muitos anos.

Esboços, desenhos, estudos. Todas essas três coisas são muito particulares, já que ele nunca fez um curso de design. Mas, no meio de um evento, o produtor de Carlinhos Brown comprou uma sandália batizada de oriental. É o que podemos chamar de seu modelo mais icônico. Jailson caiu no gosto e recebeu mais encomendas do cantor, que por aquela época estava por embarcar para sua primeira turnê na Europa.

Cinco gladiadoras foram feitas para essa ocasião especial e até hoje são usadas. Já foram pra lá de aproveitadas e reformadas alguns pares de vezes. Enfim, até artista tem seus xodós. “Calçar é um ato de muito respeito, porque você tem que ter um sapato confortável para seus pés. É necessária uma leveza. Andar com conforto, acredito que promova isso tudo”, declarou Brown em uma das entrevistas em que perguntaram sobre os chinelos que não podem passar despercebidos.

Luiza e Zizi Possi, Gaby Amarantos, Elba Ramalho, Ana Paula Padrão. Muitas outras personalidades vieram na sequência, reforçando a lista de admiradores de Jailson. Não sei exatamente quando eu e ele começamos a nos falar, mas já faz alguns anos. Num desses momentos também me fiz de modelo, calcei algumas peças e fui fotografado por Giovanna Hackradt. Tinha comprado um par de chinelos em João Pessoa e outro numa loja em Búzios, no Rio de Janeiro. Ganhei o terceiro e segui aumentando a coleção.

O desenho de Jailson é viciante, causa estranheza, parece não ser confortável e é incrível de calçar. Do tipo macio e nada discreto. Autêntico principalmente. Todo o resto é arquitetura em seu grau mais puro. O sertão está nas formas, está nas cores, nos tons terrosos, no laranja e no amarelo. As sandálias são multicoloridas e únicas. Não entram em uma produção de escala industrial, são todas feitas manualmente. Sete pessoas trabalham com ele no ateliê, de onde saem por dia no máximo vinte pares.

A produção é limitada, o trabalho manual e o desenho super artístico. Mas, apesar de todos esses elementos virem acompanhados do sobrenome sucesso, só recentemente Jailson abriu loja própria em Recife e conseguiu uma loja para revender suas peças em Natal (aguardem cartas). Como Ronaldo, eu aposto no talento de Jailson e desejo que essa etapa seja mais um degrau a subir com as sandálias da humildade.

 

* Texto originalmente publicado no Novo

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