Uma rosa, um botão

05.03.2016

“Não sou capaz de opinar” é o tipo de frase que não cola, vide Glória Pires. Em alguns aspectos a cerimônia do Oscar é como quase tudo na vida, dentro ou fora da casa do Big Brohter: a gente precisa se comprometer. Por isso é que avaliar os filmes do ano e os looks ostentação do tapete vermelho é fundamental. Senta aí que lá vem história.

Jared Leto entrou de Gucci. Era Gucci, mas era estranho à primeira vista. Olhei e não gostei logo de cara. Eu já conhecia o estilo e inclusive já usei algumas vezes o bolo tie – um acessório que substitui a tradicional gravata. Mas algo tão espanhol quanto uma rosa vermelha foi a primeira vez que vi.

Editava uma publicação digital para tablets e smartphones quando ressurgiu a moda dos maxi acessórios para as mulheres. Como a gente aposta no conceito agênero e sabe que os editoriais de moda são o momento de pensar o absurdo, montamos o seguinte roteiro: numa edição que tinha “divino” como tema, os modelos masculinos vestiam camisas lisas e colares muitos. Grandes, metálicos. Os cabelos era partidos, milimetricamente ajustados, como se eles fossem coroinhas de igreja.

Emplacar aquilo foi uma polêmica. Um dos diretores da revista não gostou e eu tive de juntar diversos argumentos e quase lobotomizar o rapaz que, depois de muita insistência, acabou aceitando ser vencido. Depois daquela investida nos anos 2012, adotei aquele estilo pra minha vida, usei acessórios diferentões no lugar da gravata.

Gravata uma peça interessantíssima do vestuário masculino e nela cabe um vasto repertório de nós, laços, amarrações. Sim, tudo isso pode acontecer! Cores e estampas também ajudam dar o tom certo e quebrar a formalidade. Eu, depois de usar por mais de uma década praticamente todos os dias para me mostrar uma pessoa razoavelmente séria e trabalhar em televisão, é que cansei. Foi por essa e outras que me agarrei a essa possibilidade de trocar o item que finaliza a produção como uma tábua de salvação.

Dizem que a rosa vermelha foi criada para seduzir. A Gucci pensa assim, certamente. E Jared, um ator e cantor do tipo mais polêmico do mundo fashion nos últimos tempos, também deve. O acabamento do traje era vermelho, como a flor e os sapatos bordados. Olhei pela segunda, comparei com ousadias mais controladas, e passei a me associar a turma que dizia que para o Jared não havia mais defesa.

Eddie Redmayne, que concorria ao Oscar de melhor ator pelo papel do protagonista do filme “A garota dinamarquesa” e que eu elegi informalmente lá no meu blog como o homem mais bem vestido de 2015, apareceu com um smoking Alexander McQueen muito bem cortado e subindo um degrau de sofisticação por causa do paletó de veludo. Estava perfeito mais uma vez.

Alguns tons de azul também apareceram. Michael Strahan, ex-jogador de futebol americano apareceu no papel de repórter e vestindo um dos mais bonitos.

A flor vermelha não me saia da cabeça. O limiar entre o glorioso e o caricato é cada vez mais tênue. Soma-se o fato de essa fronteira ser turva e minada e arrisco dizer que ninguém consegue precisar se, ao vestir algo diferente, vai ou não dar certo porque é justamente isso: algumas pessoas vão adorar, avaliar aquele como o melhor look, e outras tratá-lo como o mais grosseiro erro. Ora impecável, ora um equívoco. Depende muito de quem vê.

Posso estar pedindo pra ser apedrejado, mas Roberto Carlos, pra mim, é rei num sentido bem amplo. Rei de clássicos, do romance, da assinatura musical religiosa, popular e do cafona também. Há poucos gestos que imprimem reverência e cafonice ao mesmo tempo como atirar rosas para a plateia.  Mas basta o cara dar uma batida na poeira dos velhos sucessos para uma multidão se sentir convocada. 

Teletransporte-se no tempo e no espaço, caro leitor. Estamos no Machadinho no ano de 2010, em janeiro. Não há ali nenhuma estrutura glamorosa, mas Roberto Carlos, o rei, consegue transformar qualquer situação. Ter fãs é condição sine qua non para reverter uma situação brega e, de quebra, aprisionar o sentimento das senhorinhas casadas e encalhadas. Enfim.

A mãe de uma amiga, a jornalista Cláudia Mendes, não teve qualquer pudor em ficar no gargarejo para alcançar um botão. Conseguiu pegar uma das rosas e saiu gratificada. Algo para contar para filhos e netos, uma espécie de troféu. Lembro que nesse mesmo show uma massagista invadiu o palco e se atracou no pescoço do Roberto. Saiu dizendo “acho que o espírito da Maria Rita baixou em mim”, pasmem.

Só a rosa vermelha tem poder e dicotomia em iguais proporções. E talvez por isso o cantor e ator Jared Leto tenha provocado tanto rebuliço ao aparecer no tapete vermelho do Oscar com uma gravata de flor no lugar de um laço windsor duplo.

A grande referência desse estilo é o country americano. Sertanejos aqui pelo Brasil já usaram em algum momento passado. E aquele tipo de acabamento foi reinventado e ressurgiu. Outros virão, mais floridos e feitos em materiais diferentes. 

Quando olhei pela terceira vez, passei a gostar. Da quarta mais ainda. É preciso analisar o contexto de todas as provocações. Jared é autêntico, flerta com o old school e a Gucci está em nova fase, agora com direção criativa de Alessandro Michele. É uma junção importante contra a mesmice. É nisso que me apego quando leio e escrevo sobre moda: uma maneira de sair da rotina. Todos precisamos disso, apesar de alguns passarem a vida inteira negando e outros achando que gala se resume a vestir um preto clássico.

 

* Texto originalmente publicado no Novo

 

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