Guia de estilo é coisa do passado

26.02.2016

Camisa branca com calça cáqui vai sempre muito bem. Com azul marinho também faz um bom jogo. Fique atento aos sapatos! Marrons combinam com isso, pretos são usados naquelas ocasiões. Meia branca é um caos fora da academia, vocês já sabem. Esse tipo de texto ainda rola muito, infelizmente. É informação típica dos guias de estilo que se popularizaram na década de 1990, um formato didático que aprisionou muitos homens. Temos hoje uma legião de reféns dessas publicações, sem repertório, com uma capacidade de improvisação bem próxima do zero.

Anual, formato quadradinho, um cheiro de tinta que ficava preso no plástico. O guia VIP de estilo, que saia anualmente com a marca da revista homônima, sempre foi meu preferido. A película era um alerta silencioso do tipo “só um terá o direito de folhear”. Ele tinha algumas informações interessantes e, como todos, as indicações de combinação fotografadas. Algumas vezes em modelos, noutras num pano neutro, com tudo dobradinho, no melhor estilo de imagem popular nos perfis de moda do instagram. Comprei uns quatro ou cinco até descobrir que não vendia mais que a falsa ilusão de que moda era aquilo, algo limitado a 80 páginas.

Faz duas semanas que apareci aqui falando sobre a ideia de “armário cápsula”, desde como surgiu nos anos 1970 até a proposta mais difundida nos últimos tempos: 37 itens para cada seis meses. Recebi muitos e-mails e pedidos para falar um pouco mais sobre esse assunto e um deles me chamou atenção. Perguntava se essa ideia de cápsula falava resumidamente sobre como escolher itens essenciais. Voltei no tempo, fixei no guia.

Camisa, calça, cinto, sapato e relógio somam cinco peças. Bermuda, camiseta, chapéu, pulseira e tênis são mais cinco. Com contas assim dá pra fazer menos de oito produções com as 37 peças. Levando em consideração que em alguns dias a gente tem de trocar de roupa para se adequar aos compromissos, não daria nem pra fechar a semana vestindo esse armário reduzido. É claro que num contexto de armário cápsula conta muito o número de composições que se pode fazer com a mesmo peça e talvez, olhando por esse ponto, seja mais fácil que os itens tenham como característica a neutralidade. Mas já faz tempo que a moda superou a materialidade do vestir como aspecto regular da sociedade. E é por isso mesmo que, independentemente do tamanho do seu armário, é fundamental falarmos de conceitos como individualidade, subjetividade e estilo de vida.

 

O modelo do guia, da moda elementar, é caduco. Concordo que todas as pessoas precisam de uma introdução, mas a moda vai além de combinações básicas. Ela é intuitiva e particular, apesar de também ser repetição. Enfim, bem vindos a dualidade!

“Ela satisfaz, por um lado, a necessidade de apoio social na medida em que é imitação; ela conduz o indivíduo às trilhas que todos seguem. Ela satisfaz, por outro lado, a necessidade da diferença, a tendência à diferenciação, à mudança, à distinção, e, na verdade, tanto no sentido da mudança de seu conteúdo, o qual confere um caráter peculiar à moda de hoje em contraposição à de ontem e à de amanhã, quando no sentido de que modas são sempre modas de classe”, escreveu George Simmel.

Ao abreviar e encapsular um armário, é possível que alguns partam para o modelo de identificação coletiva. Em vários momentos, na sociedade, buscamos maneiras de formar e reforçar alianças. Somos seres de bando, precisamos de aprovação e cada grupo tem sua forma particular de vestir. Grupos mais tradicionais têm na formalidade pouca margem para variação, ao passo que outros apostam na distinção pessoal. E, sim, ambos podem ter armários cápsula. A diferença é que uns podem achar mais confortável ter itens básicos e outros demonstram mais personalidade numa seleção garimpada e plural. Não há vencedores e vencidos. O diferente pode ser tão confortável quanto o neutro. E o minimalismo não é garantia de invisibilidade.

Ela já foi ponto de partida para estratificação social e hierarquização de classes. Hoje, continua tendo relevância no meio social, mas o status não é tão condicionante quanto a identidade. E nós aqui falamos de idade, etnia, renda, ambiente, gênero e agênero. Até nisso mudamos: se a oposição biológica ente homem e mulher é evidente, a diferença entre masculino e feminino para a moda é discutível.

Desfiles pipocam nas principais capitais de moda do mundo a cada início de ano. Já estamos cheios de referências para os próximos 12 meses: quais os cortes de cabelo mais legais, as cores, os materiais das roupas. Por causa desse apanhado de informação renovável a cada ano, as manifestações estéticas ganham o caráter temporário. O que poucos param pra refletir é como essa capacidade de mudar vira um dispositivo capaz de entender e apontar para mudanças sociais, de comportamento.

Antagonicamente, a técnica do armário cápsula pode encontrar uma das fórmulas mais batidas dos caducos guias. É assim: quando se tem poucos itens no guarda roupa, o mais indicado é partir para a catalogação de possíveis produções. Muita gente fotografa a mesma camisa com jeans, calça chino, bermuda e diferentes calçados. Esse exercício ajuda a economizar tempo na hora de escolher como se vestir.

Por falar de moda e estar acompanhando mais de perto os movimentos dessa indústria nos últimos tempos, eu me considero uma pessoa básica. Vejo muita extravagância que não me desperta vontade, tampouco teria coragem de ousar. Mas outro dia fiquei intrigado ao ouvir que andava moderninho demais, que os homens, no geral, não entendem e nem conseguem se projetar no visual que eu uso no cotidiano. Meus tênis não são marrons todo o tempo. Eu uso pisantes brancos com dourado até durante o dia. E outros metalizados também. Um chinelo prateado é a aquisição recente que mais levo pra passear.

Enfim, no meu armário cápsula – se eu tivesse condições psicológicas de fazer – entraria um mocassim colorido ao invés de um caramelo, um chinelo colorido ou metalizado no lugar de um preto, uma camisa de poás e outra de microestampa. Essas peças poderiam cansar mais fácil, é verdade, mas eu não me sentiria bem só com listras.

O armário cápsula é válido pela técnica e por alertar para o consumo exagerado, embora todos nós saibamos o quão importante é a indústria da moda na roda da economia. Mas cada um pode montar o seu da maneira que mais lhe convier, escrevendo seu próprio guia de estilo. Os pré-fabricados já eram.  

 

* Texto originalmente publicado no Novo

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