Quando o terninho rosa rouba a cena

19.02.2016

 

Tramas paralelas e conexões aleatórias conduzindo narrativas num esquema de 360 graus: isso é coisa de cinema e poderia estar no Oscar, mas hoje vamos falar do Grammy. Foi na premiação dessa semana que, além da relação com a música, as cantoras Ellie Goulding, Florence Welch e o cantor Sam Hunt criaram um intenso vínculo, quase sem querer. Os três pisaram no tapete vermelho e posaram para os fotógrafos em momentos diferentes, mas as imagens logo viraram montagem. Afinal, não é todos os dias que três artistas vestem rosa pálido da cabeça as pés num evento desse calibre.

As mulheres sozinhas, apesar de indefectíveis, não conseguiriam tal proeza. Elas têm culturalmente, de alguns séculos, uma ligação com a cor de rosa, apesar de a história registrar que o azul já foi considerado a cor mais feminina, atribuída ao manto de Maria. Como mercadologicamente a identificação por gênero ajuda a vender, algumas coisas são reforçadas ou, se não pegam, mudam de tempos em tempos. Já falamos disso por aqui. Hoje em dia um homem que veste rosa quartzo atrai olhares. Sendo esse homem uma celebridade da música e tenha vestido não uma peça, mas um costume inteiro da cor, isso faz disparar flashs e vira notícia.

Do futebol americano para os palcos. A trajetória de Sam Hunt, mesmo em duas carreiras distintas, mostra clara preferência pelo universo masculino e fixação pelo conceito de ídolo. Hunt poderia ser mais um machão cantando country não fosse um artista descaradamente moderno. E eu não estou falando aqui de bandeiras. Ele é contemporâneo à medida que consegue enxergar claramente a transformação que o pop provoca na música tradicional. Basta dizer que no seu disco Montevallo, que estreou com 70 mil cópias vendidas em uma semana na Billboard 200, depois do début com um EP de quatro faixas, apresentou músicas de uma sonoridade difusa, com banjos e violões manipulados. Arranjos eletrônicos foram utilizados para deixar o álbum com uma pegada mais comercial e se somam a mais influências do hip hop, Usher e Alice Cooper. A moda também precisa de pessoas assim.

Artistas são selecionados a dedo para provocar. Quando vestiu Sam Hunt com calça e blazer rosa quartzo a Dolce & Gabbana queria polemizar: Será que chegou mesmo o momento do agênero tão defendido por estilistas ao redor do mundo? Homens e mulheres poderão escolher as cores que mais lhes convier, independentemente do julgo alheio ou estação? As formas também estão liberadas? Homem de calça se tornará tão comum quanto é hoje mulher de saia?

Meus dedos querem digitar “aleluia!”, mas racionalmente preciso dizer não para todas as perguntas. Ainda temos muitas arestas de preconceito por aparar e igualdades sociais a defender antes do verdadeiro embate de ideias que formou a batalha do masculino versus feminino. O período é de entressafra, mas insinuações dos líderes mundiais em ditar tendências de mercado são sempre comemoradas do lado de cá. Obrigado, Pantone!

A empresa sempre escolhe a “cor do ano” e influencia designers, arquitetos e a indústria da moda. Saímos de um ano Marsala e 2015 foi realmente assim: um ano sanguinário e repleto de crises, buscando refúgio. Encontrou, por fim, em 2016. Esse ano, pela primeira vez desde 2000, a Pantone escolheu não uma, mas duas cores para representar nosso de janeiro a dezembro. Elas, juntas, são uma busca por equilíbrio, falam sobre leveza e igualdade. Para quem ainda não sabe, as cores do ano são o rosa quartzo (Rose Quartz, Pantone 13-1520) e o azul sereno (Serenety, Pantone 15-3919).

Essas duas belezinhas foram anunciadas, como de costume, no último dia do ano imediatamente anterior. Chegam quando tudo já está sendo afinado para desfilar nas principais passarelas do mundo, em Milão, Paris e Nova Iorque. Poucos estilistas e marcas ousam improvisar um ajuste, se for o caso. Eles fazem isso ao longo dos meses seguintes. Agora, aberta a temporada de premiações, parece o momento ideal de inserir o que faltou ser mostrado nos shows das semanas de moda. Lá atrás, arrisco dizer que a grife que chegou mais próximo foi a Versace, arrancando suspiros ao incluir na paleta um lilás bem clarinho, desses tons pastel que nos trazem aconchego. 

Ao vestir rosa no tapete vermelho, Sam Lowry Hunt foi usado por uma marca que quer nos fazer pensar e ele também ganhou se colocando como flecha, claro. Faz jus ao posto de moderninho – isso também é prêmio – aclamar por aí que o rosa é a cor da vez, assim como o Netflix já apostou no “Orange is the new black”, embora todos nós saibamos que nenhuma cor rouba espaço da outra e todas deveriam dividir o mesmo ambiente.

Em tempo: o desfile de pretos no red carpet, recortes e fendas profundas, terninhos com brilho e micro estampa, homens e mulheres super produzidos: tudo isso é muito bonito. Do mesmo jeito que foi, pra mim, o preto e branco de Big Sean e Justin Bieber vestindo um clássico atualizado de Saint Laurent e levantando o primeiro prêmio da carreira. Assim como merecem aplausos Ed Sheeran e Bruno Mars pelos prêmios oficiais. E a sem graça Taylor Swift por ganhar mais um título sabe-se lá como e Lady Gaga por fazer a performance mais comentada da noite, uma homenagem a David Bowie. Tudo isso só pode existir com muito trabalho, o investimento de alguns milhões e intenções por trás.

Outras intenções serão vistas em mais prêmios – Olha aí o Oscar outra vez! É só ficar atento ao que está por vir. Até porque referências expostas naquelas roupas ora clássicas ora exuberantes ao extremo serão usadas no nosso cotidiano, assim como o rosa será um dia, eu espero.

 

* Texto originalmente publicado no Novo

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