Armário cápsula: o desafio

13.02.2016

 

Terninho todos os dias. Eu me sentia ora importante ora extremamente desconfortável, mas fazia parte do trabalho. As reportagens de política exigiam o traje, mesmo debaixo do sol de Natal. É que eu precisava entrar nas secretarias de governo e no plenário das casas legislativas para entrevistar vereadores e deputados e, nesses lugares, homens precisam estar engravatados. É censitário, embora muito questionável, enfim.

Num dezembro qualquer, já perto de iniciar o recesso parlamentar – duas férias por ano, isso sim é vida! – fui parado na porta da emissora. Entregaram-me um avental laranja, aquele era meu uniforme de trabalho do dia. Achei que fosse piada, como você também deve estar pensando agora, caro leitor. Mas a direção da tevê decidira promover o movimento batizado de “Faxina geral”. Tudo o que não nos servisse mais deveria ir pro lixo. Era uma maneira de moralizar as gavetas e armários do departamento de jornalismo. Por mais que pareçamos tecnológicos e informatizados, nós aglomeramos papéis.

Editores e produtores eram ainda mais acumuladores e passaram o dia faxinando. Como naquela época a minha função era de repórter, trabalhei dobrado, na redação e na rua, cobrindo minhas pautas habituais. Fiz a lição em casa no dia seguinte. Pilhas de papéis foram formadas. Uma de documentos importantes, outra com lembretes, alguns já postos em prática, rascunhos, contatos. Passei pra agendas, livros que poderiam ser doados, roupas. A faxina foi aumentando, virou algo sistemático: uma vez por ano abro espaço para o novo. No closet, comecei a exercitar a dieta das roupas.

A publicitária nova-iorquina Heidi Hackemer instigou uma amiga, a londrina Tamsin Davies, e as duas jutas começaram um movimento chamado “Six items os less”. Alegando que perdiam muito tempo para escolher a roupa adequada para sair de casa, as duas selecionaram apenas seis peças para passar um mês. E repetiram isso em ciclos de 30 dias, registrando tudo devidamente em um blog. Isso aconteceu no ano de 2010 e eu li pela primeira vez na revista Vida Simples, da Abril. As garotas juravam que a iniciativa era válida e que elas exercitavam a criatividade em outros momentos, como se criatividade fosse algo que pudesse ser estocado. Nunca acreditei em extremos.

Detox está em tudo hoje em dia. Vivemos a época do. Por isso mesmo é que o termo não demorou a invadir essa área entre o nosso quarto e o banheiro. Outro dia ouvi a proposta de um armário detox, pasmem! O mais comum, para quem está sendo inserido agora nessa seara, é encontrar a denominação “guarda-roupa cápsula”.

Poderia ter surgido em Paris porque os franceses são craques em usar peças básicas e clássicas. De quando em vez tenho a impressão de que as mulheres por lá já nascem usando tailleur enquanto os homens só saem de preto, cinza e uns poucos tons pastel no inverno. Nada de estampas da moda. Mas foi uma londrina, proprietária de uma boutique, que cunhou o termo nos anos 1970. Só bem depois de Susie Faux criar uma seleção de itens essenciais – e vender isso em livro – foi que a marca Donna Karan, em 1985, lançou uma coleção cápsula com sete peças para usar no trabalho. Fez um enorme sucesso na época.  

Na minha adolescência a gente ia todos os finais de semana pra boate ou um show qualquer no Vila Folia e precisava ostentar uma roupa nova. Precisava mesmo. Claro que os ano foram me ensinando a não ter mais o frenesi da adolescência, mas confesso que ainda sou um tanto consumista. Compro mais roupa que a média das pessoas, mas venho tentando diminuir o ritmo com o passar dos anos. E estou aqui pra sugerir que você faça o mesmo.

A maioria de nós é como a publicitária Joana Moura, que só parou de comprar quando a conta estava no vermelho. Para mudar a cor do extrato bancário para um azul bem vibrante, como ela mesma diz, se lançou o desafio de não comprar absolutamente nada durante um ano. E assim ela foi exercitando a criatividade numa página pessoal na internet. O título era “Um ano sem Zara”, uma metonímia. E deu tão certo que ela passou a capitalizar ali também.

É coisa da moda e do show biz, mas todos nós vemos filmes e lemos revistas que não cessam de mostrar o armários das celebridades, normalmente do tamanho da nossa sala de estar. Terminamos condicionados a desejar aquilo, mesmo que a maioria de nós não precise para nada, nunca vá pisar em um palco. E, em uma escala menor, termina acontecendo conosco: temos no armário mais do que precisamos, algo que vestimos apenas uma vez.   

Foi num contracorrente que o movimento armário cápsula ressurgiu com uma nova roupagem. Tem gente até oferecendo consultoria pra que você monte, com o que já tem, uma seleção de 37 peças para usar durante três meses. É pouco, eu sei, mas é por isso que existem outras correntes que não limitam a quantidade de peças. Dizem apenas que você deve enxugar, desapegar do que não usa mais, e se sentir confortável. Afinal, moda é isso, né?

O primeiro passo é aceitar o desafio. Depois vem a parte trabalhosa. Não se faz no intervalo do jantar pra novela. É preciso um dia inteiro para esvaziar o armário, vasculhar todas as araras e gavetas. Cada peça deve ser analisada com atenção. O que lhe cai bem, fica. O que pode ter um defeitinho de uso ou desbotado talvez fique também, dependendo do que você sinta ao vestir. O que não usa há tempos vai pro cesto de doação. Uma quarta pilha pode ser formada com itens de outra estação. Roupas íntimas e de festa também não entram na contagem. Ninguém é louco de dizer que você vai deixar de viver ou deve se desfazer de todos os casacos e botas em pleno verão pra depois comprar tudo outra vez. Mentalize as palavras rotatividade e recomeço, como se numa seita tipo Herbalife estivesse.

A próxima etapa é pensar em combinações possíveis, e, para os mais organizados, fotografar as produções, criando um belo banco de dados. O planejamento de compras vem depois. Fixar um orçamento para as próximas estações pode evitar o consumo por impulso. Reúna uma lista com as principais atividades do seu dia, incluindo trabalho, eventos especiais e roteiros de viagem. Comece a perceber as cores que lhe caem bem e suas marcas preferidas.

Dizem que pra homem é mais fácil. Não faço ideia de quem ventilou hipótese mais estapafúrdia. Tentei e não consegui ficar com menos de 40 peças, mas tirei uma lição: não adianta encher o armário ou usar uma camisa moderninha se tudo o que você mais queria era estar com a sua boa e velha companheira. Hoje eu só visto o que me cai perfeitamente bem. Se um concurso de termos esquisitos, meu armário é slim. Já entendi que a moda que usamos não diz exatamente quem somos, mas faz um resumo bacaninha pros outros entenderem o que a gente quer dizer. Sem trocadinhos nem conotações erradas.

 

* Texto originalmente publicado no Novo

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