Fantasias e abre alas

05.02.2016

 

As quatro garotas estavam dispostas a aproveitar, agindo num formato de gangue. Fizeram uma primeira reunião de planejamento, estabeleceram metas, partiram para a execução. Uma das ideias era transformar os taxi amarelos, ícones de Nova Iorque – e também de volume e rotatividade, claro – em uma interessante fantasia de carnaval. Os vestidos foram confeccionados nessa cor e um cinto quadriculado de preto e branco marcava o risco de derrapar em curvas. Para arrematar a produção, fizeram da tiara uma placa de trânsito. Em alguns momentos a mensagem era de livre e noutros de ocupado. Foi uma das fantasias mais interessantes que já vi e, devo dizer aqui, funcionou muito bem. E olha que nem estávamos no arroxo da lei seca.

Patrícia, uma amiga de longas datas, em dado momento, pegou um passageiro fixo. Não contava tempo nem distância pra ficar com ele além do carnaval. Numa dessas viagens os dois descobriram que precisariam de uma cadeirinha, o filho Gabriel já estava a caminho. Isso aconteceu no ano de 2006, muito antes de imaginarmos que as combinações dos carnavais seguintes seriam feitas via aplicativo. Naquela época a festa começava com pelo menos um mês de antecedência, em janeiro ou até mesmo em dezembro, bem no modelo nos ensaios das bandas de axé em Salvador. Era preciso encontrar a turma toda para elaborar o plano e construir as melhores produções, o que invariavelmente gerava uma verdadeira competição.  

Não se trata de moda diretamente. Pelo menos não da moda que se vê nas ruas. É coisa artística, de palco, por assim dizer. Atores sabem disso muito bem: a caracterização é metade do caminho na hora de vestir um personagem. Nas premiações de cinema essa caracterização está na escolha de melhor figurino. Mas é tudo linguagem de moda, caro leitor. A diferença está na profundidade da pesquisa de moda que se faz.

Fantasiar-se em pleno carnaval também pode ser puro escapismo, mas, mesmo ele, precisa de uma conotação inteligente pra dar certo. Afinal, nos vestimos para impressionar, divertir, comunicar e, eventualmente, seduzir e curtir adoidado. Sou suspeito pra falar, mas acho que meus amigos cumprem esse objetivo melhor que ninguém. É por isso mesmo que estou pensando em atualizar a fantasia desse grupo. Numa homenagem singela, me vestir de preto, pintar um olho de roxo e usar uma modesta plaquinha de Uber. Pra não causar tanto alarde e preservar o olho ainda intacto, se é que você me entende.

A criatividade durante o carnaval é item obrigatório, assim como a leveza. Eu, sinceramente gostaria que deixassem as fantasias de políticos de lado nessa época, colocando-as legitimamente e apenas nos protestos. Mas, enfim, já sei que por essas bandas tudo vira carnaval e não vou perder o meu por isso. Além de partir de uma ideia interessante, a fantasia precisa ser adequada aos espaços. E é aí que entra a moda, seja no conceito de simplicidade ou sofisticação. Entra como fonte, uma busca por referências, por história e diálogos.

Na Idade Média os portugueses comemoravam o carnaval com uma série de brincadeiras. Entrudo é o nome desse costume que foi trazido pra cá no século XVI. “O livro de ouro do carnaval brasileiro”, de Felipe Ferreira, é uma das mais importantes fontes de pesquisa dessa época e registra que no Rio de Janeiro, nessa época, havia basicamente duas categorias de Entrudo: o familiar e o popular, que sofreu forte esquema policial depois que a corte portuguesa desembarcou por essas bandas. Já existia precedente, mas a gente não se ligou muito.

A festa carnavalesca é contagiante, até o sangue mais nobre esquenta. Os monarcas europeus já sabiam disso e começaram a se mascarar para conseguir se infiltrar no meio do povo. Histórias de perdidos por Paris e Veneza são conhecidas no mundo inteiro, viraram cenas de filme, fazem parte do nosso imaginário. As icônicas máscaras brancas, tradicionalmente forradas com seda pratada e dourada e combinadas com chapéu de três pontas, são símbolo do luxo, de exuberância, e praticamente impraticáveis por aqui nos diasd e hoje, registre-se.

Clovis Bornay, um carnavalesco de vanguarda que reinou quase absoluto por décadas, assim como Paulo Barros pode ser considerado nos dias atuais, não via nenhuma barreira. Ele, que competia nos salões com Evandro de Castro Lima e Mauro Rosas, fez o luxo das fantasias vienenses atravessar o oceano para aportar no Teatro Municipal do Rio de Janeiro no formato do Baile de Gala. O ano inaugural foi 1937 e Bornay, criado dentro de uma joalheria, se encheu de brilho para arrebatar o primeiro lugar com a fantasia de Príncipe Hindu. Foi a primeira de muitas até que, de tanto ganhar, foi declarado hors concours.

Luxo e originalidade eram os quesitos que mais valiam ponto. Suspeito que seja assim até hoje, nos bailes, nas escolas de samba, nos camarotes de Salvador, nas ladeiras de Olinda ou em qualquer outro lugar. E as duas coisas podem agir separadamente. Você pode vestir algo extremamente original, mas que não tenha muito requinte. Ou se encher de ouro e ser bem padrão, não mostrar nenhuma novidade. Na dúvida, fico com o primeiro, mesmo sabendo que a criatividade é dom e, por vezes, o caminho mais complexo.   

O supracitado Paulo Barros foi usado como comparativo por motivos óbvios. Todos nós sabemos as mágicas que ele fez na comissão de frente da Unidos da Tijuca durante alguns anos. Sempre conseguiu com que aquela ala alcançasse a nota máxima. E não só os jurados ficavam de queixo caído. Eu lembro de dois carnavais que estive no Rio e assisti aos desfiles. O primeiro no camarote da Brahma e o segundo, ano passado, como convidado da Devassa. No frontstage desses camarotes repletos de celebridades não há estrelas solitárias, devo dizer. Aliás, acho que é até mais observado aquele anônimo que, sabe-se lá como, recebeu convites. E não existe idade pra curtir. Pra você ter uma ideia, eu e a atriz Suzana Vieira deixamos o sambódromo na mesma hora, saímos na vassoura.

O coração de qualquer um acelera e eu, desde meu primeiro carnaval na Sapucaí, acalanto o sonho de desfilar na avenida, vestir a fantasia, entrar no personagem. De preferência bem perto da bateria.

Se você vai curtir os blocos de carnaval de rua, que também são uma graça, aposte no figurino inventivo. Da mesma camiseta preta que eu vou usar no meu Urbe poderia sair, por exemplo, uma pela touchscreen de um smartphone. Você pode imprimir alguns ícones de aplicativos e colar ou aplicar com ferro de passar no tecido. Depois é só sair por aí sem se incomodar que passem a mão antes de usar, saca?

Só não esqueça de ir de taxi pra não dar de cara com capitão Styvenson e usar camisinha se for estender a festa. Digo isso porque é bem verdade que nossa noção de limite se dissolve durante os festejos de Momo. Então, fica apenas uma dica: vista-se e assuma a persona que mais te dá prazer. Sempre haverá o risco de descobrir que o seu caminho é seguir o do bloco das virgens. Como já bem cantou Moraes Moreira em Chame Gente, “Ah, imagina só que loucura essa mistura”. Mas o carnaval é isso também: um tempo de descobertas.

 

* Texto originalmente publicado no Novo

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