Apertem os cintos, mas vamos à luta

04.01.2016

O medo da morte nos ajuda a viver, ensina a psicanálise. É por isso que eu acho bom termos começado 2016 com as piores previsões para a economia. Não, caro leitor, aqui você não vai acompanhar nenhum relato sádico. Sequer fetichista será – e olhe que esse é um tema que cabe perfeitamente no quesito vestir. O ano virou e nós ainda vamos continuar falando de moda, para desespero de alguns que acham que isso não é jornalismo. E o cenário de dificuldades deve inspirar a maioria da população, os pequenos comerciantes, os empreendedores natos.

Digo isso com a certeza de que o dinheiro muda de mãos. Afortunadamente, para mim o ano passado não foi ruim, mas, em determinado momento, como todo mundo, apertei o cinto e me preparei para um arroxo ainda maior. Em tempos assim, a gente faz concessões, mas sobretudo algumas mudanças. Cortei alguns dos meus restaurantes preferidos por um tempo, mas não deixei de comer. Fui à outros e, num deles, conversei com o dono. Ele estava com sorriso de orelha a orelha por causa da clientela que havia aumentado.

Um dos meus professores do curso de formação de conselheiros de administração do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) dividiu durante uma aula um estudo sobre o comportamento de bebês gêmeos e como a relação entre irmãos é formada desde a primeira infância. Qualquer filhote, humano ou não, chora instintivamente por medo de morrer. Quando sente a barriga vazia, a gente chora pra poder mamar. Normalmente os irmão gêmeos fazem isso ao mesmo tempo, mas mesmo que tenha sido gerados a partir de um só óvulo, são diferentes e têm demandas muitas vezes opostas.

O choro de um que pede comida pode acontecer na hora do de cólica e dor de barriga do outro, agravando ainda o aperreio de sujar as fraldas. Pais, por mais maturidade e vivência que tenham, são inocentes demais em vários aspectos. Não entendem como surgem as disputas entre filhos, por exemplo, e apressadinhos fazem questão de saber o sexo do bebê logo no quarto mês de gestação quando ele só é descoberto de verdade lá pelos 15 anos de vida.

Humanos, empresários também tem medo de ver o sonho de criação de um negócio morrer. Choram as pitangas nos ombros amigos em qualquer mesa de bar e xingam o líder de governo, tomando seu próprio partido, claro, independentemente de agremiação política. É para esses empreendedores que eu digo e repito: apertem os cintos, mas não deixem de lutar.

Na avenida Afonso Pena, coração de Petrópolis que alguns malucos ousam chamar de Oscar Freire dos natalenses, os produtos realmente, sobretudo de moda, têm um nível de sofisticação um pouco maior, embora pouquíssimos possam ser considerados de luxo. Foi lá que minha amiga Carol Gonçalves montou sua primeira loja de uma marca chamada Mulambo. Vende acessórios interessantíssimos e fabrica camisetas transadas.

Ano passado, com apenas seis meses de portas abertas e receosa por causa do cenário de crise que era pintado, ela arregaçou as mangas, aumentou a produção, baixou o preço e passou a ganhar no giro. A margem de lucro era menor, o trabalho quase dobrado, mas o faturamento aumentou porque o produto saiu mais. Certamente como eu deixei de ir à alguns restaurantes mais caros, deixando esse pequeno luxo apenas para viagens e os finais de semana, outros abandonaram a ideia de comprar aquela camiseta que custa entre três onças e duas garoupas, de uma marca que investe milhares de reais em propaganda e repassa esse custo para o cliente, para comprar a dela, que também tem qualidade e era vendida por um preço bem razoável.

É no giro que muitos empresários de moda têm apostado para reinventar seus negócios. Poucos meses atrás vi uma entrevista de Flávio Rocha da revista masculina GQ e ele, além de exibir sua bela casa nos jardins, falava de como o ciclo de produção fez a Riachuelo dar uma guinada e aumentar um dígito no faturamento bilionário em poucos anos. Antes o magazine apostava no básico, produzia em larguíssima escala e vendia as mesmas camisetas brancas. Tinha ciclos de mais de 30 dias entre desenhar, produzir e disponibilizar a mercadoria nos pontos de venda Brasil afora. Hoje os ciclos são de 13 dias, as peças são produzidas em menor quantidade. Diferenciadas, criadas em parceria com estilistas renomados, esgotam-se facilmente e mais giros desse tipo são criados com uma velocidade assustadora. Rocha descobriu essa possibilidade depois de estudar o case da Zara, registre-se.

Há diversos casos regionais e nacionais de crescimento na indústria da moda. O ano passado não foi ruim para todos e esse também não será. Importando e sempre de olho no mercado internacional, a Matersol é outra que olha com muita atenção para essa demanda de produtos de consumo e desejo imediato. A empresária Déborah Sayonara abriu em dezembro uma loja na zona sul de Natal, também agigantou a equipe para melhorar a produção e, na véspera do réveillon, estava quase abandonando uma viagem para poder trabalhar. Nos falamos ao telefone e ela, animada, me disse: “Inclusive estou contratando, viu? Se você conhecer alguém que tenha experiência na área de vendas, pode mandar me procurar.”

A Matersol produz moda praia e o verão está quente pelo Nordeste. Aqui na Bahia, de onde escrevo essas poucas linhas, meu amigo, os termômetros começaram o dia marcando 37 graus e eu, com pouca melanina, tenho medo real é da hora em que o sol estiver a pino. Fora isso, nada me assusta. Muito menos se o cinto for bonito de se mostrar e passar apenas quatro dedos depois da volta completa pela cintura. Nem mais, nem menos: façamos o ajuste que for preciso fazer nesse carnaval de ofertas de pessimismo. De resto a gente sabe que os 365 dias do ano passam rapidinho. Aliás, já são 364, mesmo com os 29 de fevereiro.       

 

* texto originalmente publicado no Novo

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