Roupa usada e ideias novas no réveillon

25.12.2015

Não se deve confiar em Napoleão Bonaparte, tenho dito. E eu não vou falar aqui sobre o Bloqueio Continental, a relação com a Inglaterra ou a situação de fuga da família real portuguesa ao embarcar rumo ao Brasil. Tampouco de como sua chagada resultou no nosso processo de independência. Como esse é um espaço de moda, quero dizer que não curto o gajo por ele ter deixado de herança uma ideia ainda a ser vencida, de que não se deve repetir roupa. Já nos avizinhamos de 2016 e devemos quebrar esse paradigma, reciclar inclusive para o réveillon.

São mais de duzentos anos da mesma ladainha. Foi no início do século XIX que Napoleão, então imperador da França, proibiu as damas da corte de repetir vestidos. Era uma forma de proteger e fomentar a indústria têxtil do país nos tempos de crise. Nós, definitivamente, não precisamos ficar presos a isso. Sequer usar branco deveria ser uma quase obrigação social.

Não quero parecer antipático ou esquerdista, seria vexatório terminar o ano assim. Mas preciso dizer que especialmente no Brasil, um país majoritariamente cristão, sendo 64,6% da população formada por católicos, é no mínimo estranho que quase todas as pessoas queiram se vestir de branco, já que essa é uma tradição das religiões africanas. Foram os praticantes do candomblé e da umbanda que primeiro usaram branco para homenagear e entregar oferendas a Iemanjá.

Como o ritual é bonito e todo mundo corre pra pular sete ondas, terminou pegando. Mas a intolerância religiosa existe e os umbandistas e candomblecistas são comumente descriminados fora da Bahia, apesar de copiados em muitos aspectos. Como eu estarei no litoral baiano na noite da virada, me vestirei de branco em homenagem a eles. Vestirei uma roupa velha, como eu acho que outros devem apostar. E, como eu também acredito que você deva reaproveitar o que mais curtiu nos últimos meses, hoje proponho uma retrospectiva das tendências da moda masculina em 2015.

Pra início de conversa, uma explicação: reciclar é a palavra de ordem e os estilistas fazem isso ao visitar referências atuais e, claro, do passado, para compor suas coleções. Esse ano foi marcado pelo revival de muito do que a gente já usou nas décadas de 1980 e 1990.

O destroyed apareceu com força, inspirado nos movimentos punk e rock. Além de calças e bermudas jeans, o estilo detonado também foi visto em camisetas e outras peças. Assumimos o lado podre, o desgastado, imperfeito. Todos os puídos reunidos fizeram essa ser a minha tendência preferida.    

O longline surgiu como possibilidade e quebrou a regra de que as jaquetas tinham de ser da mesma altura da peça de baixo. As camisas e camisetas começaram a passar da linha do quadril enquanto a peça de cima ficou num tamanho cropped, mais curto. Versão parecida com o longline é o oversize: um tamanho inspirado nas camisetas dos jogadores de basquete. Deu certo e no próximo ano ainda vai aparecer muito, só que, ao invés da barra reta ou com zíper na lateral, chega também a barra abaulada. Anote!

Os tênis brancos também quebraram barreias, deixando de lado a pecha de exclusivamente esportivos para ganhar feições e versões mais sofisticadas. O calçado branco ressurgiu primeiro como uma evolução do conceito de investir em contrastes; anos atrás misturava-se peças esportivas com outras de alfaiataria e hoje, com a sofisticação de técnicas e o investimento das empresas em uma nova numeração padronizada, o casual se aproximou do feito sob medida. Todos ganhamos com isso e a Lacoste é apenas um exemplo dessa inovação.

Dos pés para o corpo inteiro. Foi assim que ganhou força a aposta em produções monocromáticas, reforçando o lema do minimalismo de que menos é mais. É claro que a crise econômica nos fez apostar em peças mais básicas, mas o que era chave, virou conceitual. E os desfiles seguiram essa linha nas passarelas e nas ruas.

Outro calçado que deu as caras em 2015 foi a yellow boot lançada pela Timberland em 1975. Naquela época a marca teve de produzir 250 mil pares e distribuí-los pelo mundo inteiro, tamanho foi o sucesso. A botas amarelas, criadas para proteger os pés do lenhadores norte-americanos, tem atualmente outro apelo: são boêmias e casuais, embora tenham ganhado projeção com o surgimento da categoria de lumberssexuais – os lenhadores do século XXI, que ignoram a influência do  David Beckham na moda e se vestem com camisa xadrez e cultivam barbas.

Elas cobriram o peito, mas as camisas amarradas na cintura também estiveram em evidência, sobretudo na cena eletrônica. Os festivais de música ao redor do mundo estavam abarrotados desse estilo defendido duvidosamente por tantos, incluindo o ator e cantor Jared Leto. Muitos entortam o nariz para ele, mas o cara, na minha opinião, foi um dos que mais sobre defender o estilo boho – abreviação para boêmios do Soho, caras que misturam diversas influências ao compor o visual.

O undercut fez a cabeça dos homens. Nós raspamos a lateral do cabelo, deixamos os fios no topo mais alongados e até prendemos com elástico, fazendo coque samurai. Quem usou esse corte mais despojado também apostou muito nas calças jogger, aquelas esportivas com elástico na barra. São confortáveis e, por isso, ainda tem muito futuro.

Por falar em praticidade, o look all jeans foi outro tipo que aconteceu. De quando em vez podia ser visto na calça, camisa e até no blazer. Tudo junto e agora. E, por último, mas não menos importante, apareceu a estamparia floral nas camisas de manga curta. Algumas foram combinadas com bermudas do mesmo padrão, numa espécie de combo ou, como se diz aqui pelo Nordeste, conjuntinho.

Esse tipo de estampa não é nenhuma novidade, surgiu há 80 anos com a aloha que já foi visto até mesmo em capa de disco do Elvis Presley. Depois ele evoluiu para as flores miudinhas chamadas de liberty e para as atuais que podem ser vistas aqui no país na coleção verão 2016 da Colcci e, lá fora, na Pull and Bear. Não há nada mais Dolce & Gabbana.   

Todas essas tendências foram revisitadas, nenhuma é completamente nova, como não precisa ser sua roupa da virada. Até porque de nada vale roupa nova se as ideias e atitudes são antiquadas. Pense nisso ao saudar um novo ciclo e vamos em frente, sem perder a guerra. Feliz 2016!

 

* Texto publicado originalmente no Novo Jornal

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