Caso Chanel: entre o plágio e a inspiração

18.12.2015

Faz muitos anos que tento me adaptar, mas não posso definir a internet. Sequer consigo entender o tamanho da sua força. Fonte inesgotável de pesquisa, poderia ser classificada de universo paralelo por abrigar toda a natureza fantasiosa que as pessoas criam nos canais sociais. É tão símile ao real que estamos todos ali e usamos a ferramenta para curtir, compartilhar, cobrar e, muitas vezes, escrachar. Foi esse o canal usado por uma estilista venezuelana para acusar a Chanel de plágio. E ela conseguiu, seu post virou o escândalo da semana e poderia se tornar uma das maiores máculas na história da grife fundada por Coco Chanel. Poderia.

Mati Ventrillon vive hoje na Escócia, onde cria as peças para sua marca homônima. Foi lá que ela recebeu a visita de integrantes da equipe de estilo da Chanel. Os gajos faziam, como de resto acontece com todas as marcas, uma pesquisa de referências que poderiam seu usadas nas próximas coleções. Compraram alguns jérseis com desenho e pontos muito característicos de Fair Isle. E a moça, conhecida apenas regionalmente até poucos dias atrás, ficou cabreira.

No dia primeiro de dezembro passado a Chanel desfilou sua nova coleção masculina em Roma e, tcharam!, havia um modelo igualzinho ao de Mati Ventrillon. Ela correu para a internet, publicou uma comentário em seu facebook, reclamando o reconhecimento da autenticidade do desenho. Ganhou os holofotes e, dias depois, o pedido de desculpas da maison francesa. Através de comunicado a Chanel disse que "a empresa enfatiza que é extremamente vigilante no respeito à criatividade, seja nossa ou dos outros" e que vai, a partir de agora, creditar nas etiquetas das peças inspiradas na marca escocesa os dizeres: “Matti Ventrillon Designs”.

Imagem publicada por Mati Vetrillon no facebook. Na montagem, à esquerda está a foto do jérsei criado por ela, e, ao lado, a cópia desfilada pela Chanel

 

Pesquisas de campo são feitas comumente em todos os lugares do mundo. Na Europa e aqui em Natal. A Toli, marca nascida e criada em solo potiguar, embora nas última coleções tenha se limitado a investigações online, já mandou sua equipe muitas vezes à Londres e Madri. Não quero aqui entrar no mérito do negócio ou crise econômica, só dizer que, quando o orçamento permite, investir nesse tipo de pesquisa é extremamente interessante.

Funciona assim: os estilistas vão com algum dinheiro no bolso, compram peças e, normalmente, são discretos na hora de absorver algo. Ficam com o desenho de uma roupa, o material de outra, a estampa de uma terceira, além de colocar elementos do DNA da marca para qual trabalham. A isso dá-se o nome de inspiração. Cópia é outra coisa, embora esse crime seja muito comum no meio da moda. Há até quem faça, de forma autêntica, piada e slogan das falsificações. Vide o case das Havaianas ao produzir chinelo de borracha e dizer que você só deve aceitar as legítimas.

Na época em que comecei a estudar jornalismo, mais de 15 anos atrás, já cantavam a pedra do fim da era do jornal e do rádio. Estreei na profissão em uma redação de tevê e nunca consegui me desvencilhar do vídeo, mas, como comunicador, tenho profundo prazer em folhear um jornal, sentir o cheiro da tinta no papel couchê de uma revista bem acabada. Sou adepto do digital, claro, mas os tablets e smartphones também só conseguem ser sensoriais até certo ponto, não tem o mesmo toque na pele, não despertam o olfato nem todas as minhas emoções. Os dois modelos coexistem, como num plano real e no universo paralelo que venho citando desde o início.

Quando evoco o paralelo nesse texto, quero falar de velocidade. Da mutação numa escala nada real. Nem tudo muda tão rapidamente, mas, nas redes sociais, vimos como um trovão o sustenido ser transformado e passar a se chamar hashtag, por obra e graça do instagram e do twitter. Corro o risco de parecer arcaico, mas acredito que o meio termo seja mais interessante em quase todos os aspectos da vida. Por aqui, continuo viajando para conhecer de perto algumas tendências e, noutros momentos, uso o computador para fazer pesquisas. É minha forma de ter coerência: pequenas doses, cá e, de quando em vez, lá.

Uma turma de comunicação de outra linhagem, do marketing, é mais esperta em vários aspectos e também sabe dar nomes difíceis para disfarçar coisas simples. Fazer o papel fictício de um cliente observador e levar o conhecimento sobre um processo ou produto é característica do que se descreve como benchmarking. Grandes empresas fazem isso: extraem dos concorrentes as melhores ideias e implantam nos seus negócios com algumas melhorias chamadas de diferenciais competitivos. Não vale copiar descaradamente. Legítimo é aperfeiçoar algo usando seus próprios métodos.

Nós, pessoas comuns e sem contato direto com a realeza, por vezes acreditamos que apenas os pequenos olham para os grandes e se projetam, embora os exemplos de que o inverso também acontece estejam cada vez mais próximos, catapultados para a tela dos nossos comutadores conectados com redes Wi-Fi. Chutamos a 25 de março como macumba, quase convencidos de que toda a falsificação está pela região do centro de São Paulo. Por lá parece que geral é #fake, com hashtag e tudo, como na internet poluída por fotos com muito filtro e contrastes excessivos.  

Bolacha, o funcionário de um hotel em que me hospedei dia desses, pegou minha mala na hora do check-out e um chapéu que estava perto, sobre a cama. Vivo saindo de casa de chapéu pra me proteger do sol que faz por essas bandas, mas estávamos em um ambiente de praia e achei que era normal ele comentar sobre. Papo vai e papo vem e o cara falou: “Esse é um chapéu Panamá legítimo! Eu aprendi que essa marca redondinha que existe no topo é característica, só os de lá têm”. E ele está certo.

Filho de Goianinha, Bolacha é um caboclo moderno. Trabalha em um resort, tem o corpo tatuado, não perdeu o sotaque, mas fala de forma globalizada e muito autêntica, até mesmo quando introduz um termo gringo no meio da frase, no melhor estilo escancarado pela atriz Eva Vilma na novela A Indomada, na qual cunhou o bordão “Oxente, my god!” E do jeito que ele reconhece uma falsificação, muitos outros também conseguem, para obra e desgraça de quem comprou aquela bolsa Louis Vuitton em algum coreano, pagando inclusive um pouco mais caro por se tratar de uma cópia de “primeira linha”. 

Enfim, gastei meu latim pra dizer, entre outras coisas, que nem mesmo a Chanel passa incólume pela crise de ideias e a falta de recato em roubar as de outros, mas poucas empresas como ela tem o colhão de assumir os erros, pedir desculpas e tentar corrigir. Que nos sirva de lição desde já, inclusive na hora de escolher a produção para o jantar de Natal ou a noite de réveillon. Nada da batida camisa vermelha para o primeiro e do look total white para a virada, ok? Há milhares de formas criativas de se destacar.

 

* Texto publicado originalmente no Novo

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