Estrangeirismo na  moda: questão de lifestyle

11.12.2015

 

Jornalista é um bicho esquisito, poderia constar assim nos dicionários: Jornalista, substantivo de dois gêneros, plural, com adjetivos e opinião. Tremei os doutos acadêmicos que lecionavam nas quadradas universidades estacionadas em alguma época anterior ao capítulo das mídias sociais, em que todos podem ter e comunicar seu ponto de vista. Falo em dividir com sentido de compartilhamento em massa, das redes, embora também goste de receber cartas. Aliás, acho que só a Dilma não.  

Bichos esquisitos somos todos, incluindo minha amiga Sheyla Azevedo, que cunhou seu blog com esses termos. E que também gosta de cartas e guardá-las com qualquer blasé mancha de um café descuidado, embora para ela também, com algum prejuízo para a poesia, a maioria chegue hoje em forma de correio eletrônico. Como acontece em qualquer relação de intimidade, já falamos sobre algumas correspondências, inclusive as enviadas por Geraldo Batista, seu leitor fiel e que, pelo que soube, um acariense que não gosta de estrangeirismos.

Tivesse a moda surgido no Brasil e fosse essa linguagem autossuficiente, estaríamos até hoje nos cobrindo com tinta e poucas penas. Quiçá todos presos por atentado violento ao pudor ao exibir genitálias. E não é nada contra os índios, até porque as referências culturais e nativas muito interessam aos criadores que se debruçam seriamente em pesquisas antes de lançar uma coleção e também a mim, que tenho o trabalho mais simples, de opinar, do meu jeito, sobre esse movimento. Divido-o, inclusive com prazer, com quem mais se interessar possa.

Lá na velha Ribeira vive o Salesiano, colégio tradicionalista e que não aderiu ao modismo dos bilíngues, mas que oferece na grade, para quem já foi alfabetizado em bom português, a língua inglesa. Lá eu tive minhas primeiras aulas e fiquei assustadíssimo ao ouvir, sem entender bulhufas, que algumas expressões são idiomáticas. Ao pé da letras não se deveria traduzir quase nada e eu, muito jovem e sem experiência sequer no mundo que julgava conhecer até ali, não poderia alcançar declarações muitas vezes associadas a gírias, jargões ou contextos culturais muito específicos, de grupos definidos por idade e classe, mas também por afinidade.  

O grupo que gosta de falar sobre e acompanha moda é restrito, selecionado sobretudo por afinidade. Nunca tive a ilusão de que todos os homens fossem ler essa coluna. Sobre a moda brasileira, fica o registro: ela é riquíssima. Nessas poucas linhas já tive o prazer de dividir alguns pensamentos sobre ela e a necessidade cada vez mais eminente de estar associada ao contexto das culturas regionais, seja em forma de estampas, artesanato ou afins.

Fazem parte dessa curta história de pouco mais de três meses os estilistas Ronaldo Fraga, João Pimenta e Marcelu Ferraz, que recentemente trocou o estrangeiro por uma boa causa: vender. Abandonou a pesquisa sobre o litoral americano para retratar Fernando de Noronha em sua coleção capsula de verão. Sem o glamour que pode imaginar quem está de fora do cerco, componentes mercadológicos influenciam diretamente na escolha de temas. Para quem tem um bom orçamento - coisa difícil em tempos de crise econômica -, o desfile em uma ilha pode ser apenas um chamariz midiático, mas para a maioria é oportunidade.

A coleção do Marcelu tinha uma linha de balneário, por suposto, mas não ignorou a tendência global do jeans destroyed. Na moda é assim: pesquisa-se, cria-se e, inegavelmente, olha-se para além fronteira, por mais que isso provoque dor nos puristas. Valorizar a prata da casa é preciso, mas ninguém que viva no presente pode ignorar o modelo globalizado. Nele, alguns produtos e processos tecnológicos são uniformizados e exigem atualizar vocábulos para compreensão também global. Sei que é duro, já que a universalização é uma forma de elitizar uma língua em detrimento da considerada menos expressiva, mas isso está muito além da moda, é sobretudo uma lição de economia.

Eu até substituiria meu “old school” pelo termo “velha guarda” se essas linhas me servissem para falar, com respeito, dos fundadores da Portela ou da Mangueira que ainda resistem e abrilhantam os atuais desfile de escola de samba. Como não é e falo para um grupo específico, me dou ao luxo. Expressões como essa não são exclusivas da moda. Tatuadores reconhecem o old school como uma escola, um estilo de desenho em que as cores e traços são mais elementares e a composição na pele é comparada com uma marca de carimbo.

Tivesse eu cacife artístico, arriscaria entoar agora, só pra polemizar, os versos do maranhense Zeca Baleiro, defensor e estudioso da nossa cultura nordestina: “Venha provar meu brunch, saiba que eu tenho approach, na hora do ruch eu ando de ferry boat.”

Pode até parecer estranho para alguns, até porque a aquisição de processos linguísticos acontece sem a voluntariedade de mudanças da vida social dos moradores locais, mas todas as palavras gringas dessa música já foram incorporadas ao nosso cotidiano. São usadas jornalisticamente e em conversas mais informais. Para Garcez e Zilles “a noção de estrangeirismo confere ao empréstimo uma suspeita de identidade alienígena, carregada de valores simbólicos relacionados aos falantes da língua que originou o empréstimo.”

Mas americanos não são alienígenas e nada mais diluirmos as fronteiras políticas, nos vemos quase que obrigados a formar novos agrupamentos - esses por afinidade, repito - e passamos a reconhecer o empréstimo linguístico como uma importante ferramenta de comunicação, pasmem! Soma-se a isso o fato de o estrangeirismo em textos midiáticos ser uma forma de empréstimo de valores. E, por falar em valor, é importante destacar que a moda se alimenta de lifestyle.

Estilo de vida também é algo que pode ser traduzido, mas outras palavras específicas não tem tradução na língua portuguesa. Acontece com a calça jogger e com o corte de cabelo masculino mais aclamado do ano, o undercut. Acontece com termos novos, mas também antigos, como o traje black tie. O termo inglês para o último grau de sofisticação do dress code é eterno e imutável. Aproveito para dizer que só existem cinco tipos de traje. No esporte a roupa é casual, no passeio a gravata é dispensável e o acessório recomendável, no passeio completo dá-se o nó na gravata, o traje de gala é smoking e no black tie pode-se assumir até o fraque. O resto, a exemplo de “social” e “esporte fino”, é invenção de brasileiro desinformado. Ou quando não se aceita uma linguagem universal e faz a emenda ficar pior que o soneto.

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