Esqueça o grude do Chiclete, a bandana é mais

04.12.2015

No carnaval de rua as pessoa se fantasiam, nas micaretas elas se montam: essa é a ordem. Via de regra, não existe um ar despretensioso, apenas uma estética que pode até parecer desencanada, mas custa horas de produção. Havia apenas duas figuras completamente fora do roteiro dentro do bloco, com boá de plumas em volta do pescoço, óculos gigantes em formato de estrela e algum acessório na cabeça do qual não me lembro bem, dado o teor etílico somado ao nervosismo de ter sido abraçado subitamente pelas foliãs naquele derradeiro ano em que estive na avenida, no Carnatal.

Minha mãe saiu fugida de casa para o Burro Elétrico e minha tia a acompanhou na fantasia. A ideia era poder dissimular, mesmo que tivessem sido filmadas e a imagem exibida na tevê. Meu pai cairia na história, ambas acreditavam. Todos os que estavam comigo adoraram as duas e, desde então, tenho uma mãe que acredita poder partilhar da minha roda de amigos em qualquer situação. Realmente têm seu mérito: elas apareceram inegavelmente com um alto astral de foragidas, curtindo aquele momento como se fosse o último.

Lembrei dessa passagem e mais uma vez expus minha mãe, coitada (!), porque também curti a ideia de poder extravasar. Usar elementos muito além das bandanas do Bell Marques deveria ser uma ordem, mas parece que os foliões dos carnavais fora de época estão bem presos a uma só estética e nem entendem bem de onde ela surgiu.

A bandana é um extraordinário acessório de moda. Falemos de pernas de fora e erotismo e vamos parar direto nas pin-ups dos anos 1890, duas décadas antes de Greta Garbo surgir na cena. As moças do calendário abusavam desses lenços e até hoje o estilo é adotado, sobretudo por aquelas que sustentam tatuagens de estilo old school. Transportemos para o universo masculino e veremos a mesma bandana como ícone pirata e dos pistoleiros do faroeste.

Participasse eu de uma competição tipo Passa ou Repassar, responderia sem titubear uma pergunta sobre a origem da moda xis: Estados Unidos. Os americanos são bichos ardilosos no quesito lançar moda, de quando em vez até mais que os italianos parisienses e afins. Foi lá que se popularizou, na época da produção em massa de rádios, um dos estilos musicais mais fortes de todos os tempos, o country. Quando foram derrubados os muros que confinavam cada estilo em uma região, o jeito de cantar músicas caipiras e sertanejas foi propalado com muita reverberação, criando ecos inclusive na moda.

Coutry e rock estão intimamente ligados desde Johnny Cash, passando por Bob Dylan e Elvis Presley, até chegar aos Guns N' Roses. Até mesmo a banda de Axl Rose e o seu roque pesado entoa notas como mantra, pare para observar. E é justamente Axl, o vocalista da banda, a grande inspiração dos jovens moderninhos que usam bandana na testa. Esqueça de uma vez o Chiclete com Banana: essa pegada é rock, bebê!

Não sei desde quando Bell Marques usa uma para cobrir a cabeça e nem me interessa, numa boa. Basta saber que na época do anúncio do fim da banda ele foi ao Faustão para um especial e disse que usa o lenço porque o “cabelo é ruim, tem que receber muito creme”, aproveitando para negar, portanto, qualquer boato fomentado ao longo de décadas, de que era calvo.

Longe de subterfúgios, com o sucesso do Guns na década de 1980, Axl foi o cara que ajudou a divulgar a bandana como ornamento interessante para os homens. Até os rappers têm apostado para compor um visual urbano, o que prova que as cores vivas e estampas de figuras indígenas primitivas ou cashemir, desde o ressurgimento dividido também com Bon Jovi e Poison, foram definitivamente incorporadas ao guarda-roupa do homem que tem espírito jovem.

Nessa mesma data o jeito livre da bandana foi aproveitado pela comunidade gay. Homossexuais usavam o lenço preso no bolso de trás da calça: lado esquerdo para os parceiros sexuais passivos e lado direito para os ativos ou dominantes. Era uma época em que os sistemas de comunicação não verbal eram cultivados pelos gays para facilitar o contato e evitar exposição. Dessa forma inteligente e simples foi que o grupo conseguiu sair do underground para o mainstream, sem fazer alarde.

Homossexuais continuam e vão continuar sem traços físicos que os diferenciem de outros, mas, como os tempos mudaram, até trejeitos são mais facilmente aceitos e incorporados. Enfim, o código do lenço entrou em desuso.

No braço, na calça, no pescoço: há quem amarre em diversas partes do corpo, seja homo ou heterossexual. E, além de ornamento, sempre existe uma finalidade. Quebra-se o visual clássico da camisa com blazer com uma bandana no pescoço e, de bônus, o lenço tem a função de manter suor e poeira afastados do colarinho. Cada amarração remete a um tempo, mas todos podem ser usados no agora, sem restrição.

Australiano e atualmente com apenas 18 anos, Cody Simpson, um novo astro mundial da música, vem ajudando a difundir essa pegada entre os mais jovens. Bem jovens, aliás. O rapaz começou a cantar ainda criança, gravou com Jason Mraz e os Justins Bieber e Timberlake antes mesmo de estrear profissionalmente. Agora vira e mexe aparece com chapéus de aba larga e bandanas, muitas bandanas. Em alguns momentos elas aparecem até por baixo do chapéu, assim como fazia Axl nos áureos tempos do rock.

Mais gente interessante se soma aos bons exemplos. Não posso esquecer de citar Gustavo Kuerten, um dos nossos heróis esportistas, como tal. Por isso, quando você vir um cara com bandana na testa no próximo verão, não o classifique apressadamente de chicleteiro. Usar bandana nesse contexto estreito é quase se disfarçar, como precisou fazer em fuga minha mãe pseudo-baladeira.  

 

* Texto publicado originalmente no Novo Jornal

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