Calendário futurista

30.10.2015

 

Todo ano é a mesma coisa. As pessoas se assustam como se os meses tivessem passado de golpe e o comércio tentasse nos empurrar um prévio clima natalino, mesmo o calendário denunciando que outubro, coitado, nem terminou. As principais avenidas da capital potiguar já começam a ganhar luzes, algumas vitrines são decoradas com enfeites metalizados e é só piscar os olhos mais uma vez e você também vai estar correndo atrás de uma roupa branca para usar no réveillon. Oxalá seja de paz o próximo ano!

Uns dirão que é loucura investir em tata mercadoria num ano de crise enquanto outros arrobustam seus estoques justamente para aproveitar que a maioria não vai conseguir ofertar tanto. Menos concorrência, mais oportunidade. O único ponto invariável é o momento de fazer os pedidos. Para ter o que vender antes de novembro, o comerciante teve de tomar a decisão de comprar ainda em junho. São aqueles seis meses de diferença um tanto difíceis de compreender, mas assim é o calendário do comércio.

A moda é cada vez mais comercial. A ideia de outrora de apostar num lance conceitual já datou porque até na passarela a roupa precisa ser objeto de desejo imediato. Há inclusive quem venda logo após o desfile – e seja achocalhado de críticas -, como fez a Riachuelo quando da parceria com a Versace. Até Donatella baixou em São Paulo, fazendo o investimento chegar aos sete dígitos. Precisava vender pra pagar aquele show, indiscutivelmente.

Além da crescente verve mercantil de sobrevivência, a moda tem, na visão do consumidor, um calendário ainda mais estranho. Enquanto as pessoas estão passando no shopping e vendo as coloridas coleções de verão, os criadores das marcas já pensaram, planejaram, desfilaram e estão executando o inverno do próximo ano. E, pasmem, há ainda outro ponto na cadeia: os birôs de tendências. Eles vivem literalmente em outra estação, pinçando o que deve emplacar além fronteira e vendendo esses direcionamentos pra a indústria do lado de cá do Atlântico.

Muitos eventos orbitam em torno das semanas de moda. O São Paulo Fashion Week não é diferente, também gera uma programação paralela. Acompanhei parte dela durante essa última temporada, pra sentir o clima. O que mais me chamou a atenção foi a 24ª edição do birô de estilo WGSN, no Shopping Iguatemi. Lizzy Bowring, diretora de passarela, fazia as previsões, convidando a conhecer as principais tendências de comportamento e moda para o verão de 2017. Isso sim é um assombro!

Estamos falando de uma antecipação de mais de um ano e meio. No meu breve pensar isso beira o futurismo. Não nos moldes do movimento lançado por Filippo Marinetti no jornal Le Figaro e que se baseava fortemente na velocidade e nos desenvolvimentos tecnológicos no final do século XIX, mas, numa boa, em termos de aceleração, é quase isso. Sentado naquela plateia, parecia que eu estava vendo um filme que misturava “A cidade que se levanta”, de Umberto Boccini, e a cidade suspensa da “Era espacial” dos Jetsons, exibida pelo SBT até 1987, bem no período da minha infância.

Sua versão do futuro, segundo as previsões, estará usando colete. Ele pode ser curto, na linha do quadril, ou longo, como se fosse um sobretudo. As maxicalças podem ressurgir, embora eu não aposte tanto, já que o modelo de alfaiataria ampla defendido há pouco por alguns estilistas não ganhou as ruas. Talvez sua namorada ou irmã aposte nas pantalonas ou, mais estranho ainda, saia por aí com um slip dress, que nada mais é que um vestido com cara de camisola. Hoje isso rola sem espanto lá em Londres, onde ninguém liga pra qual esquisitice cobre seu corpo ou a tinta do seu cabelo.

Escondam-se as pernas porque a temporada quente de 2017 vai ser de valorização dos trapézios. Comece a malhar essa parte atrofiada do seu corpo, caro leitor. Para as mulheres o lance é exibir saboneteiras. Elas estarão com blusas que já começaram a surgir, um estilo ombro a ombro também chamado de Top Bardot, e nós usaremos regatas e mais transparências.

Outra tendência, dizem os especialistas, será a roupa com babados. O estilista João Pimenta, no SPFW, já armou essa jogada pro ano que vem. A Osklen antecipou outra: a sandália de tiras. Cadarço, no caso deles. E colou! Depois do desfile da marca era só o que se falava pelos corredores da Bienal. As sandálias cheias de amarração prometem virar febre. 

De todas as tendências apresentadas, a que eu mais gostei foi a volta da bolsa estilo sacola. Não que seja acumulador, mas carrego, assim como você, cada vez mais apetrechos eletrônicos e bateria extra para eles, além de carregador, celular, chaves de casa e do carro, carteira, protetor solar e, pra não dizer que não sou tradicional, caneta e bloquinho de jornalista. Há que opte por carregar essa tralha toda nos bolsos e nas mãos, eu me recuso.

Enfim, as compras de Natal estão aí. E antes de você sair pelas lojas metendo o cartão no rotativo ou parcelando, mesmo que contrarie as orientações de qualquer economista – cada um sabe a crise que tem no bolso, né? – se ligue nessas previsões. Ninguém sai repetindo tanto a roupa usada na passagem de ano, mas, caso encontre alguma dessas peças, aposte. Haverá mais chance de repetir sem erro até 2017, sem falar de todo o espaço reservado para o espanto de quando chegar outubro do próximo ano e o comércio se enfeitar novamente a fim de te seduzir para o melhor período de vendas do ano. 

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