Ode à moda masculina comercial

24.10.2015

O São Paulo Fashion Week é grande, mas já foi muito maior. E ter perdido espaço não é apenas culpa da crise econômica, mas uma curva natural que acontece em todo tipo de evento. Madura, a maior semana de moda do Brasil dá muito o que falar, mas não é mais capaz de parar a capital paulista. Crescente mesmo só o público masculino, as coleções voltadas para os homens e, pra quem ficou de fora, a sensação de ter perdido a partida sem ao menos entrar em campo pra jogar. 

Não precisa ser celebridade pra caprichar no visual, qualquer um faz isso quando vai conferir um evento de moda ou também está fadado ao escanteio. Até mesmo a estética que parece desordenada contém estratégia e custa horas de produção. Eu me incluo e estava na barbearia Cavalera, dentro da loja da Oscar Freire, dando um trato, quando ouvi Alberto Hiar, diretor Criativo da marca, usar a clichê metáfora do futebol. “A gente está se sentido fora da Copa”, disse ele a uma repórter de televisão. A imprensa especializada está toda dentro do SPFW e boa parte no entorno, sentindo a reação da vizinhança. 

Não basta ser interessante, tem de investir. A Cavalera é uma marca bacana e bastante comercial. Na temporada de verão desse ano levou 20 índios da tribo Yawanawá, do Acre, para conduzir um ritual de preparação no backstage e dividir a cena no evento com Yasmin Brunet e Reynaldo Gianecchini, que aproveitaram para gravar cenas da findada novela Verdades Secretas, da Rede Globo. A crise bateu, não rolou investir, ficou de fora da temporada de inverno e corre o risco de vender menos. Essa é a lei.

Algumas marcas pagam mais, outras arcam com menos, depende do histórico e do prestígio. Mas, mesmo as convidadas, precisam desembolsar custos com o casting de modelos, a maquiagem, a luz, a distribuição de convites, contratar uma boa assessoria etc. Corre-se atrás de patrocínio pra cobrir. Enfim, com essas despesas na planilha, o gasto fica perto de R$ 200 mil, consumidos em no máximo oito minutos de desfile. Depois que entram, todas têm liberdade e são acompanhadas pela curadoria da Vogue. Paulo Borges, criador do evento, pouco se mete.

É um negócio que vale a pena, ao que dizem. Basta levantar que, na temporada passada, quase todos os participantes ganharam espaço nas 15 principais publicações de moda do país e as peças mostradas foram as primeiras a voar. Comprar espaço em todas essas revistas custaria bem mais e não tem nunca o mesmo prestígio de algo afiançado por um jornalista, que me perdoem os colegas da publicidade.

Quem pagou pra entrar pela primeira vez e teve custos ainda mais elevados já chega sabendo que o masculino também vende e, pelas cifras, começa a ser valorizado. A marca mineira Gig Couture, uma das caçulas, não ganhou tanta badalação na mídia. Dentro, no entanto, muitos rapazes assistiram curiosos. Roupas inteiras tricotadas, silhuetas ora slim e ora oversize com toques de anos 1990, pássaros e art déco em desenhos gráficos e looks monocromáticos em matelassê de tricô. Para a crítica, realmente não havia nada especial ou transgressor, a ordinária palavra da moda. Já para quem consome e estava ali na condição de plateia, foi muito bonito ver a valorização de algo que é comercial no sentido puro, provoca desejo imediato.

Transgredir de verdade poucos ousam. O estilista João Pimenta é um deles, desde sempre incentivou e insistiu numa modelagem mais fluida para os homens. É um cara que poucas vezes flerta de verdade com a androginia. Desenha ternos com uma pegada mais leve e, por isso, sua silhueta pode ser considerada feminina. Mas, na real, é uma moda totalmente masculina e (aleluia!) agora comercial.

João Pimenta fechou as portas da loja, só atende por encomenda, e colocou mais agressividade no produto para alavancar venda. É uma estratégia para enfrentar a crise e de posicionamento político para além do lugar comum, como registrou Gloria Kalil. “Ele, que até pouco tempo era um dos poucos que insistiam na imagem masculina dentro do SPFW, ganhou a companhia no calendário de algumas mirando nos homens com ineditismo - como Vitorino Campos e Gig - e outros que já tinham rapazes na sua conta, feito Ronaldo Fraga, Uma e Ratier. Mas absolutamente todos, de uma forma ou de outra, construindo uma imagem masculina urbana e maleável, como manda 2015”, escreveu em seu site.

O desfile de Pimenta mostrou uma mistura mega interessante de streetwear e alfaiataria. O blazer com capuz construído com tecido vintage e modelagem moderna, sem ser tão enxuta e caricata como propõe algumas marcas gringas, ganhou o público. O desfile concorreu com o de Ronaldo Fraga como um dos mais originais.

Ronaldo, que sempre começa sua base de pesquisa com elementos de literatura, explorou o amor como infração em tempos de guerra, mesclando romantismo, corações científicos e poemas eróticos de Hilda Hilst. Abriu o desfile com modelos se despindo e terminou com uma cama de gatos, com homens e mulheres de conchinha num mesmo colchão, num bacanal comportado. 

Homens, definitivamente, gostam dessa moda sexualmente atrevida, sem pudores. Dei-nos a possibilidade de imaginar uma suruba, espiar a cruzada de pernas de Sharon Stone em Instinto Selvagem ou sermos atraídos por uma silhueta e nos terão aos seus pés, calcem saltos altos e finos ou coturnos. Como é sabido desde 1978 quando os psicólogos Russell Clark e Elaine Hatfield comandaram uma pesquisa sobre apetite sexual na Universidade da Flórida, homens e mulheres são iguais em desejo, mas nós temos mais disposição ao aceite. A explicação é que mesmo em tempos de liberação sexual, homens são mais práticos e, como recebem menos cantadas, não dispensam oportunidade. 

Na moda é igual. O desejo de consumo existe, mas de quando em vez falta oferta.   Circulando pelos corredores e assistindo aos desfiles do SPFW a proporção de homens e mulheres está bem meio a meio. Na passarela há menos igualdade, elas continuam dominando. E como há liberdade absoluta nesse momento de criar, deveria também existir liberdade – longe da crítica ácida - para o sentido mais objetivo. Por favor, ofereçam-nos teorias de roupas que se adequem aos dois gêneros, mas também combinações possíveis para vestir agora. 

Please reload

Destaque

O que comprar em promoção?

08.07.2019

1/6
Please reload

O CRICOFELIX.COM é o site criado pelo jornalista Cristiano Felix sobre tudo o que interessa ao dândi moderno: tecnologia, moda, comportamento, gastronomia etc. As imagens contidas podem ser creditadas ou reproduzidas de fontes externas. Caso você tenha os direitos sobre qualquer imagem publicada aqui e não quiser que ela seja veiculada, entre em contato para que ela seja prontamente removida.  

Categorias:

Comente aqui:

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now