Hipster: espécie ameaçada de extinção

16.10.2015

Existe o preto, o branco e mais uma variedade enorme de tons de cinza entre os dois. Mais de 50, pode apostar. A pressa e a euforia de quando em vez os camuflam. Acontece simplesmente porque nosso olhar só é treinado para louvar o best seller e identificar o que está no avesso, o totalmente alternativo. Na moda também existe esse grave erro: mata-se um estilo para fazer nascer outro. E o novo, nesse caso, é o yuccie. Os hipsters, dizem por aí, já eram.

No mundo real estão, desafortunadamente, pessoas com até 34 anos que ainda vivem com os pais, dependendo deles pra tudo. De acordo com a última pesquisa do IBGE, 24% dos jovens brasileiros estão nessa condição e 9,6 milhões são “nem nem”: não estudam e nem trabalham. Já os yuccies são novos seres, colocados exatamente na outra ponta. Seus comportamentos nunca foram aferidos em pesquisa, mas sabe-se que, por definição, são jovens que moram em metrópoles como São Paulo ou Nova Iorque e influenciam estilos de vida. Buscam satisfação e têm potencial para enriquecer de forma rápida, mas só aceitam isso se não perderem o poder de criar. Se tivessem de escolher entre remuneração e autonomia, certamente seria o dinheiro a cair fora.

Yuccie (Young Urban Creatives) quer dizer, em bom português, “jovens urbanos criativos”. O termo foi cunhado pelo jornalista David Infante e apresentado em um artigo no Mashable, um weblog de notícias sobre mídias sociais, tecnologia, negócios e entretenimento, atualmente no ranking dos mais importantes do mundo, com média de 50 milhões de visualizações de página por mês. O cara é norte-americano, tem 20 e poucos anos, mora no Brooklyn, estuda artes liberais, usa bicicleta de marcha única para se locomover e um bigode de gosto bastante duvidoso. Visualmente poderia ser classificado de hipster, não tivesse ele mesmo se analisado para basear o novo modelo de comportamento.

O jeitão é um pouco hipster mesmo, mas o estilo também lembra o YUP, aquele jovem profissional urbanoide que tem formação universitária, segue tendências da moda e está entre os 20 e os 40 anos de idade com uma vida financeira intermediária, mas tem anseio de faturar mais, com um leque de planos comerciais e investimentos financeiros. É só misturar esses dois tipos e você vai encontrar o tal yuccie. Talvez até, sem saber, já conviva com um, caro leitor.

Eles vestem roupas inspiradas nos anos 1990. Usam óculos redondos de sol e grau, jeans detonado, camisa xadrez ou camisetão. Parte da herança é o minimalismo dos criadores japoneses na moda ocidental: modelagens mais amplas,  curvas discretas e uma visão simples da vida, contrapondo todo o exagero da década anterior. Muito do que está em alta agora na moda masculina foi ditado lá atrás pelo estilo de rua vibrante do ator Will Smith ao usar casacos mega coloridos, camiseta oversized, inspirada no tamanho dos jogadores de basquete, boné e tênis Jordan, de cano alto, atualmente chamados de sneakers. Vai me dizer que ainda não percebeu essas roupas ressurgindo por aí?

Nada de cigarros de enrolar, os yuccies só fumam com vaporizador e passam férias em apartamentos alugados através do AirBnb. Não aderiram ao retorno do vinil, levam sempre fones de ouvido e escutam longas playlists no Spotfy. Bebem cerveja artesanal e suco verde e comem em food trucks. Suas tatuagens também comunicam, todas têm significado e fazem da pele um verdadeiro álbum de pequenas figurinhas. Nada de fechar o braço, precisa-se de espaço para respiração. Barba e bigode são essenciais para esse jovem que pode trabalhar como vlogger e consultor de imagem, por exemplo.

Liberdade é nunca precisar de um emprego formal, do mundo corporativo. Poder desenvolver suas próprias ideias, nunca ser apenas um executor da dos outros impõe um preço, claro. Infante diz que, na maioria dos casos, o dinheiro varia de muito ruim a OK, mas “a realização pessoal é foda”. Espírito empreendedor o yuccie tem e domina como ninguém as novas ferramentas tecnológicas. Ele sabe que o número de curtidas mudou completamente a linha da publicidade e, por isso, domina a internet e as redes sociais.

É importante dizer que rumores sobre a morte dos hipsters já circulavam na internet havia tempos. Muitas das características estavam misturadas nesses últimos tempos. O que não é nenhum crime, também vale registrar. Via-se de um lado camisas de flanela e barbas de lenhador num estilo lumberssexual – sim, também se fala desse tipo! – e no contraponto a comida gourmet, os iPhones e uma pegada meio metrossexual à la Beckham. O artigo do outro David, o Infante, só chegou com caráter mais afirmativo e, como todo, limitador.

 

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Sinceramente não vejo razão de propostas diferentes serem impedidas de existir no mesmo espaço. Não acredito em nada preto ou totalmente branco. Em personalidade, desejos e atitudes nós somos todos uma gama de cinza, uma brincadeira de sombra e luz. Ser uma espécie de hipster de negócios e ter algumas preferências diferentes das da maioria não deveria rotular ninguém. Ainda bem que para todos esses casos vale a crítica social cantada por Tom Jobim no “Samba de uma nota só”.

Os hipsters só precisam ser atualizados não devem morrer. Enfim, talvez a única definição que eu curta e compartilhe seja a de que essa fatia da Geração Y – ou yuccies ou qualquer nome que venha a ter – deixou de priorizar preço e exclusividade nas relações de consumo para possuir algo que contribua cultural e intelectualmente. Viajar agrega. Conhecer o mundo faz você ser diferente e, só depois disso, lamento,  externar uma visão ampliada através da roupa que veste.

Não é preciso ir à Marrakesh ou Istambul, os dois lugares mais procurados por esse tribo. Quer pensar numa primeira parada não tão longe ou custosa? O buscador de viagens Skyscanner colocou a Vila Madalena, em São Paulo, como um dos principais destinos procurados pelos yuccies. Vai lá ver de perto esses seres estranhos e aproveite pra apreciar arte de rua, murais e grafites, bibliotecas, pequenas galerias e bons restaurantes com chope artesanal, por suposto.

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