Precisamos das mulheres ditadoras

10.10.2015

É ora desejo, ora conquista histórica. As mulheres não precisam de látego forte, são naturalmente dominadoras, pioneiras no representar a moda de forma global. O que vira objeto de desejo sempre é adorno do corpo feminino. Suas curvas são o transporte da idolatria, por assim dizer.

A moda masculina precisa das mulheres e alguns criadores souberam exemplarmente identificar essa causa e seu efeito. Estilistas aproveitaram de maneira sábia o corpo da mulher para vender roupas masculinas. Pode soar estranho, mas é o que acontece há tempos e, de quando em vez, por ignorância de nós homens, passa despercebido.    

Por acompanhar – mais de perto ou longe, dependendo da agenda –, já não faço distinção entre semanas de moda. No calendário de algumas das principais capitais da moda, masculino e o feminino podem até ficar separados, mas isso não passa de teoria. Tudo anda junto e misturado na passarela. E eu não estou aqui falando de androginia, anote-se. 

No desfile do verão 2016 em Milão, Emporio Armani colocou na passarela homens e mulheres, todos com trajes masculinos, o que foi definido pela mídia internacional como estilo “agender”. A coleção era naturalmente diferente, com cartela repleta de tons escuros e metalizados; cinzas e preto foram os protagonistas. A modelagem é amplificada, solta e com trabalho de texturização. Não combina com a silhueta feminina, tampouco parece verão. E de fato não é.

A coleção é extremamente masculina, mostra um homem workaholic, que não tirou férias. Os trajes são formais, de escritório, quase todos invernais, incluindo capas e sobretudos. É claro que a tecnologia têxtil ajuda a fazer esse jogo de cena e as roupas, embora amplas, podem ser leves. Mas o que está em debate aqui é a estética e o poder de persuasão das mulheres nesse cenário.

Alexander McQueen e Jean Paul Gaultier, em outras épocas, também idolatraram os cortes masculinos e os transportaram para o corpo feminino, tornando as peças mais cobiçáveis, a moda mais pulsante.

Parte da coleção mascuina da Armani foi desfilada por mulheres 

 

Existem muitas nuances no meio desse jogo de provocação sexual e de poder. Quando Yves Saint Laurent vestiu mulheres com sua coleção “le smoking”, em 1966, isso também sinalizava a mudança na forma das mulheres se vestirem dali por diante. O smoking foi usado com calças masculinas e blusas transparentes. As calças nunca saíram de cena, independentemente de gênero, e as transparências são hoje uma realidade no guarda-roupa de muitos homens.

Nada, caro leitor, absolutamente nada na moda masculina vira tendência se não for explorado antes por elas. As transparências são só um exemplo, mas podemos falar das estampas florais que terão muito espaço no verão masculino, das franjas nos complementos, em especial nos coletes; falamos das calças skinning, mais ajustadas ao corpo, dos lenços no pescoço que talvez antes de serem aprovados por elas só tenham sido usados nesses rincões por Lampião.  Sim, um dos cabras mais temidos do cangaço era um exímio produtor de moda. Bordava, costurava e teve seu estilo copiado por muitos. Merece, portanto, um texto exclusivo e prometo fazê-lo em breve.

O contrário também acontece. Peças que já eram do nosso cotidiano elas aderiram e elevaram seu status. Vai me dizer que não percebeu que a valorização das camisetas ressurgiu depois que as mulheres passaram a combinar com saia e salto agulha? Aliás, as t-shirts masculinas hoje tem assimetria, gola cavada e até o longline – aquele modelo com comprimento maior, podendo chegar no meio da coxa – pegou porque as mulheres abriram as portas.

Da mesma forma, acho difícil alguém discordar que a moda “boyfriend”, das calças detonadas, folgadas, que pareciam roubadas dos armários dos namorados – e muitas vezes eram – não ficavam muitos mais interessantes nelas.

Podemos ver nos desfiles de Paris e nas ruas, acontece na nossa cara: elas assaltam nossos armários para nos ajudar. São heroínas, afinal. Não fosse pelas mulheres, nossa eterna reclamação de não ter opções poderia ser ainda mais estridente.

Posso estar correndo o risco de parecer repetitivo, mas citarei novamente Coco Chanel nessas breves linhas: “Vista-se mal e notarão o vestido, vista-se bem e notarão a mulher”. Mulheres são muito mais competitivas que nós e qualquer defeito é enxergado com lupa, mas elas são maestras em usar truques de beleza, aprendamos.

Moda também existe como artifício estético. O corte, a cor, o modelo: tudo ajuda a esconder o que nós não queremos revelar. Depois da capilaridade da moda, do espaço aberto pelas mulheres, deixaram de existir apenas dois genes: o das capas de revista e o dos acidentes hereditários. Foi costurado um novo ser, o que sabe se apresentar.

Nesse mundo, afortunadamente, não é preciso nascer belo e acordar inspirando pintores e poetas, sem sequer remelar. É possível se produzir bem e ser valorizado por ter visão ou atitude, como queiram chamar. Tornar-se belo é um trabalho de carpinteiro, de se revestir de formas. E, mais uma vez, elas têm mais expertise na área.

Portanto, meu amigo, o conselho de hoje é: observe e ouça a mulher que está ao seu lado, sobretudo na hora de vestir. Pode ser sua esposa, amante, irmã, mãe ou amiga. Ela pode ser o seu espelho, par perfeito ou simplesmente estar mostrando o que você vai usar no futuro. Não se preocupe, esse tempo vai chegar.

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