Homens de rosa, para além de outubro

09.10.2015

Depois do imbróglio do apartamento comprado de um terceiro enquanto ainda tinha um inquilino lá dentro, um casal de amigos enfim conseguiu que o imóvel fosse desocupado. Um caso assim só se faz com brigas e noites mal dormidas, mas vou poupá-los dos detalhes, caro leitor. Quando a antiga moradora cansou de resistir e aconteceu a entrega, a mudança foi feita de fôlego. A família inteira estava engajada, mas precisou de ajuda extra. Um fretista que havia sido indicado apareceu para a conversa. Chegou numa Pampa, vestindo uma camisa rosa, causou boa impressão e pegou o trabalho. É abreviado, mas aconteceu exatamente nessa ordem.

A roupa bem colocada pode causar boa impressão e abrir portas, mas não faz milagres. Vestir-se é apenas uma forma de externar nossa intenção. O fretista fez sua parte: indicou um pedreiro que trocou a esquadria das janelas e até fez a venda das antigas. Os dois foram ganhando pontos e deixaram o apartamento acabado, no prazo combinado e com uma família feliz e pronta pra organizar novas etapas da vida conjunta sob a proteção daquelas paredes e dos banhos de arruda e sal grosso pra espantar uma possível mandinga da ex-moradora.

Cores são eficazes abreviadores imagéticos para nossa preguiça de pensar. Muita gente nem sabe bem a razão, mas julga que rosa é cor de menina, nos limitando ao uso do azul por toda a crescente (aleluia!) estimativa de vida. Não é privilégio do rosa, acontece com mais cores, em outros contextos. Preto e luto num velório no ocidente sempre estarão profundamente ligados, assim como o vestido vermelho dificilmente deixará de ser tido como uma peça sexy.

Acessar redes sociais por esses dias chega a ser motivo de irritação. Tenho ficado assim ao ver caras que se prestam a levar informações sobre moda cometendo um desserviço ao postar fotos com uma camiseta rosa pela primeira vez no ano, fazendo alusão ao trabalho de conscientização para o diagnóstico precoce do câncer de mama. Entendo a convenção para a escolha de uma cor que representasse a feminilidade, apoio integralmente a causa, mas não consigo ficar silencioso vendo crescer essa segregação de gênero por cor.

Dois séculos atrás não havia cores predestinadas a um bebê; todas as crianças usavam branco até por volta dos seis anos, quando a forma de vestir começava a mudar. Os motivos são mais lógicos que a atual lógica de consumo: a roupa branca é mais fácil de denunciar quando a criança estava suja, os tecidos alvos tinham melhor preço que os tingidos e os pais, que produziam muito mais antes do advento da televisão e do Netflix, não precisavam fazer um novo enxoval a cada ano. Essa história está registrada no livro “Pink and Blue: telling the boys from the girls in America (“Rosa e Azul: diferenciando meninas de meninos nos EUA”), da historiadora Jo B. Paoletti.

A produção têxtil cresceu e se modernizou no século XX. Os tingimentos industriais já não desbotavam facilmente e os norte-americanos - sempre eles - colocaram o dedinho no nosso livre-arbítrio. Mas, incrivelmente, a lógica era oposta a de hoje. Como os Estados Unidos são um país fortemente cristão e o rosa é uma tonalidade mais clara do vermelho do manto de Jesus, os meninos passaram a usá-lo. A mensagem era de uma cor colérica, quente e máscula. As meninas vestiam o azul da bondade da Virgem Maria.

Nunca encontrei na história da moda um real motivo para a inversão. Alguns estudiosos acreditam que ela aconteceu nos anos 1940, quando nasceram os baby boomers, aumentando a população de alguns países em 20% em menos de duas décadas, o que, claro, causou muitos impactos na economia. A evidência mais forte que eu já encontrei, no entanto, tem influência nazista. Nos campos de concentração os gays tinham um triângulo invertido cor de rosa costurado nas roupas. Não é difícil imaginar o legado de preconceito que essa marca tenha deixado. Aliás, aproveito para indicar o livro “Triângulo Rosa”, de Rudolf Brazda, que aos 97 anos nos ofereceu um relato absurdamente impactante do que viveu num campo de concentração. Tudo isso aliado com um rigoroso serviço de estudo histórico.

 

Triângulos do Holocausto: o rosa marcava gays nos campos de concentração, herança nazista que fomentou o preconceito

 

Os triângulos do Holocausto existiam em outras cores, todas servidas para classificar, carimbar os segregados, suas origens e inclinações. O preto identificava lésbicas, azul os imigrantes, vermelho era para os dissidentes políticos, amarelo para os judeus. O verde identificava os criminosos e por aí vai.

Minha sobrinha tem seis anos e, mesmo com o advento do pré-natal surgido nos anos 1980, foi um menino até os sete meses de gestação. Aproveitando uma viagem à África, meus pais ajudaram a fazer um enxoval cheio de leões e tigres. Deu zebra numa das últimas ultrassonografias. O bráulio do menino tinha sumido! Foi uma correria para refazer tudo e receber uma menina, mesmo eu achando que, independentemente de sexo, seria uma ótima ideia que a gente começasse a vida vestindo animal print.   

Os exames que detectam o sexo do bebê provocaram uma nova revolução e agora já dá pra saber, com mais certeza, o sexo antes mesmo do quarto mês. Com exame de sangue o acerto chega perto de 100% para felicidade dos pais e comerciantes. O sexo dá pra saber durante a gravidez, meus amigos, mas a sexualidade as vezes só é descoberta na adolescência. Mais do que nove meses, pode demorar 15 anos. São duas coisas distintas, não tem razão de apressar. E não por isso um menino deve deixar de usar rosa. Ou um homem, com plena consciência de sua sexualidade, precisa evitar uma cor por qualquer boba interpretação social. 

Rosa combina muito bem com tons pastel, com branco, cinza e preto. Com jeans fica muito bacana, não tem erro. Eu uso desde sempre, não só em camisas, mas em bermudas e calças também.

Rosa, meu amigo, não é uma cor passageira como o verão, pode ser usada durante o ano inteiro. É lógico que, dependendo da estação, ela aparece num tom mais leve, opaco, vibrante e chega ao flúor. Combina com todos os estilos, biótipos e etnias.

É uma cor camarada, mas os morenos e negros são mais beneficiados. Eles podem usar o rosa claro sempre, ao passo que os homens de pele mais clara deve ter cuidado com os tons pastel, incluindo o rosa, pra não ficar meio apagados. Outra boa opção é adotar o rosa em padrões de xadrez e listras.

O estudo “A psicologia das cores”, da pesquisadora Eva Heller, aponta que o rosa é a cor favorita de menos de 5% das mulheres. Elas preferem azul verde e vermelho, por exemplo. Mas, incrivelmente, aprovam que homens vistam rosa. Então, se você é heterossexual assumido, não hesite em aceitar essa contestação: rosa é cor de homem. E passe a vestir além do mês de outubro pra ficar bem na fita. Fescura é não usar.

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