Mais estilo, por favor

25.09.2015

 

Enquanto você dispensa tempo nessas linhas, caro leitor, o modelo sueco Alex Lundqvist, o número um do mundo segundo o site models.com, pode estar em Milão desfilando alguma coleção que vai ditar o que é moda na próxima estação. No quadrilátero da moda italiana a semana vai ser fervida até o dia 29, quando começa a temporada de Paris. Depois disso os eventos acontecem aqui no Brasil, com edições do São Paulo Fashion Week e Minas Trend. Os meses de setembro e outubro são historicamente os mais importantes da indústria em todo o mundo.

Moda é realmente uma maluquice. E é assim porque movimenta muito dinheiro e o combo economia e propaganda nos provoca reações como correr atrás de produtos dos quais não precisamos. Mas os supérfluos estão aí, mesmo em tempos de crise. E são objetos de desejo, possamos compra-los ou não.

No entanto, a moda em seu estado inicial é ideia, apenas um emaranhado de invenções. Todas as ditaduras e regras já foram ao chão nesse terreno do criar. É por isso que um estilista pode apostar no folk, outro no kitsh e um terceiro no minimalismo. As propostas podem chegar a ser apresentadas escandalosamente em sequência e se um grupo sair louco em busca daquelas peças, elas descem a passarela e tomam as ruas num outro formato, viram tendência. Viva o capitalismo, dirão.

Há contrapartidas. Evaldo Gouveia e Jair Amorim sabiam da influência da moda no nosso poder de conquista desde os tempos áureos do rock and roll. Compuseram em parceria a música que é quase um hino em regravações e versões, desde a de Jair Rodrigues até a da banda Metrô, que misturou lounge e DJ Dolores pra movimentar mais uma vez as pistas de dança. Fecho meus olhos e já posso ouvir a discotecagem por trás da letra.

 

“Um rapaz da moda eu vou ser

Pra ver se ela gosta de mim

Deixar meu cabelo crescer

Usar calça rente no fim

Formar um conjunto legal

Fazer na guitarra blim blim

Um rapaz da moda eu vou ser

Pra ver se ela gosta de mim”

 

É, meu amigo, moda é fundamental, por mais que alguém torça o nariz. E só há uma força capaz de deter essa máquina extraordinária de consumo: o estilo.

Moda e estilo já protagonizaram grandes duelos entre jornalistas e estilistas. Diziam eles: sem formação, como alguém pode escrever uma crítica ao que nós criamos? Nós contrapúnhamos: Por que não investir em desconstrução, propondo algo realmente novo?

Quando falei nós, registre-se, pensei imediatamente em Regina Guerreiro, uma das críticas mais vorazes e temidas, com 52 anos de história profissional. Lembro de ter visto a colagem de um dos seus textos, falando da moda de 1978, de quando quase tudo foi tratado como descontração, como se a moda não fora uma senhora extremamente mordaz; como se não existisse uma linha tênue separando o bonito do feio, o surreal do ridículo e o excitante do desconcertante.

Esse quase nada é conhecido como estilo. Está numa outra esfera. Não é moda, tampouco tendência, mas pode fazer fronteira com as duas. Ter estilo é o que nos faz distintos, tratando como opção o que muitos veem como imposição da moda ou do que é vendido na mídia como se fosse. Outra diferença básica: a moda passa e depois pode ressurgir, é cíclica, o estilo permanece.

A jornalista e consultora Cláudia Matarazzo, que viveu em Natal a turbulência do cancelamento, por pressão das redes sociais, de uma palestra em que falaria sobre como organizar eventos e foi vendida pelo governo como “Etiqueta e elegância: a arte de receber das primeiras-damas do RN”, já disse em muitas situações que estilo é o mesmo que sentir-se cômodo. Enfim, conforto é um bom padrão para além da elegância, para sustentar uma boa produção, acredito.

“Uma vez produzido(a) faça o teste do espelho e do sofá. Se você gostar do que viu no espelho, vá em frente e sente-se no sofá: se estiver confortável e você se sentir bem, está no caminho certo”, escreveu em um dos seus livros.

Eu ousaria propor o exercício de outra maneira. Ponha-se diante do seu armário. Examine bem o que existe lá dentro e retire o que lhe deixa confortável. Analise suas qualidades e tente valorizá-las com a roupa. Fazendo isso, características importantes da sua personalidade aparecerão no visual.  Para colocar a linguagem atual da moda, adicione elementos que estão em evidência. Talvez você comece a contar pontos nessa fase.

Dentro de casa, sempre arrumei as gravatas do meu pai. Certa vez extrapolei limites dos muros da minha família, ajudei um candidato ao governo a dar o nó da gravata pouco antes de entrarmos no estúdio para um debate eleitoral com postulantes ao executivo do Estado. Achava normal essa história de ajudar a vestir. Viramos os dois, notinha de jornal da forma errada, foi uma aparição gratuita.

Minha mãe, depois dos 30 anos, aprendeu, não sem esforço, a contar até dez. Dez pontos era o máximo e cada peça que ela vestisse contaria um. Acessório também. Um vestido, um relógio, um anel, um par de óculos já somam quatro pontos. Aos poucos aprendeu a mesclar seu estilo – ainda acho extravagante de quando em vez – com outras referências.

Moda e tendência são coisas pontuais numa produção. Ninguém em sã consciência sai vestido de jardim só porque é primavera. Tampouco a guerra da vida merece tantas couraças ou condecorações quanto o militarismo mostrado nas passarelas a cada inverno.

Dia desses fui almoçar com o estilista Ronaldo Fraga e até escrevi uma matéria aqui pro NOVO. Uma das coisas mais interessantes que ele disse foi que os criadores estão encarando o desfile de uma forma diferente nos últimos anos. É o momento de “levar a coleção à última consequência.” Então, quando você vir a repercussão das semanas de moda, olhe tudo com parcimônia. Da mesma forma que é possível encontrar alguém com as melhores roupas de costureiros famosos, há quem consiga identificar seu estilo sem qualquer esnobismo. Aliás, essa quiçá seja a forma mais inteligente e autoconfiante de vestir.

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