Moda, vetor cultural e econômico

20.09.2015

Estilista Ronaldo Fraga, que em Natal já teve de defendere Cascudo diante de empresários, acredita que a indústria da moda estaria saturada se não fosse o resgate cultural 

 

Moda além da indústria, usada como vetor econômico, mas, sobretudo de apropriação cultural. Essa é a mensagem que o estilista mineiro Ronaldo Fraga defende e leva para todo o Brasil em caravanas patrocinadas pelo Sebrae e o Senai. De passagem pela capital potiguar pela terceira vez para palestrar no evento “Natal pensando moda”, ele conta que já percebe muitas mudanças no comportamento dos empresários assistidos pelo projeto, mas ainda há grandes e sérias barreiras a superar. A resistência já surgiu inclusive com Luís da Câmara Cascudo, nosso maior folclorista e pesquisador das culturas regional e brasileira.

“Quando estive aqui pela primeira vez os empresários me diziam: ‘Isso vai parecer roupa de turista, não vai ser comercial, não vai vender.’ Nós fomos fazer uma visita à Casa Câmara Cascudo (Instituto Ludovicus) e, dos 15 empresários, apenas um já tinha ido lá e já tinha lido alguma coisa dele, incentivado pela mãe, que era professora”, lembra. Fraga os convenceu a valorizar a cultura local mostrando sua força, mas também apontando ferramentas próximas do universo da moda. O papel do design, por exemplo, seria o de retratar de uma nova forma, não fazendo uma reprodução literal das obras. “A moda se inspira em leituras e propõe releituras”, defende. 

Acostumado a percorrer todas as regiões do país e ir além fronteira, proferindo palestras em todo o mundo sobre a cultura brasileira estampada na moda, Ronaldo Fraga garante que esse descrédito se repete por todo o Brasil. “Se você estiver na minha terra, no estado de Minas Gerais, vai perceber desenhos, pontos que não foram explorados por nós mineiros, mas que poderiam ser apropriados. O velho problema do Brasil é a vergonha, o medo de achar que a cultura local é algo menor”, diz, aproveitando para defender seu ponto de vista. “É por isso que eu acho que a moda, em muitos lugares, tem um papel importantíssimo. O brasileiro tem loucura por moda e o que é dito nos canais de comunicação influencia diretamente no comportamento do povo. Nós estamos falando de um tema que só perde em espaço na mídia espontânea para o futebol.”

O dado citado por Ronaldo Fraga foi levantado em pesquisa a pedido de Paulo Borges, criador do São Paulo Fashion Week – maior evento de moda do Brasil. A conta é invariavelmente complexa de se fazer, mas sempre impressionante de analisar. Estima-se que o último desfile no SPFW, Gisele Bündchen, na sua despedida das passarelas, tenha recebido um cachê de R$ 3 milhões e gerado em mídia espontânea em todo o mundo mais de dez vezes esse valor. Marcas nacionais como a P&G publicaram balanços que mostram mais do efeito Gisele. Em 2005 a marca Pantene tinha 1,5% de participação no mercado nacional e em 2013, depois de alguns anos com a modelo como garota  propaganda, essa capilaridade cresceu para 11,4%.

Antes disso, em 2007, o pesquisador Fred Fuld, colaborador do The New York Times criou o “Gisele Bündchen Stock Index” (Índice de Mercado Gisele Bündchen), em referência ao índice Dow Jones da Bolsa de Nova York. Ao final do estudo ficou constatado que a modelo mais bem paga do mundo (esse é o nono ano consecutivo, segundo a o site Forbes, e Gisele já faturou em 2015 R$ 170 milhões) ficou constatado que as marcas que a contrataram chegaram a se valorizar 29% na Bolsa de Nova York, ao passo que a Dow Jones naquele ano fechou com crescimento de 6,5%.

Gisele Bündchen é um caso singular no mundo, admitamos. Mas, nesse universo da moda, existem muitas outras exorbitâncias, inclusive em termos de aparição na mídia. E, segundo Ronaldo Fraga, esse é o momento de aproveitar para mostrar a força da cultura brasileira. “Passada a euforia de globalização, o novo luxo é o genuíno, é aquilo que só tem aqui, aquilo que traz o desenho do pensar, da alma, da história desse lugar. Eu adoro observar o jeito que o artesão e o artista vão escrever. E essa escrita está no naïf, na pintura realista, na escultura, na cerâmica, na mão humana, enfim. A indústria da moda estaria saturada se não fosse a possibilidade de dar a ela um trabalho exclusivo, feito manualmente, como um artesanato.”

 

"Nós fomos fazer uma visita à casa de Cascudo e apenas um já tinha ido lá e lido alguma coisa dele, incentivado pela mãe." 

 

A estudante, ele sugeriu conhecer a Ribeira

Assim como aconteceu com empresários anos atrás, Ronaldo Fraga se deparou recentemente com outra negligência diante do rico acervo histórico de Natal. A estudante Jéssica Cerejeira, 20, selecionada para no reality show Brasil Fashion, do Senai, queria desenvolver uma coleção inspirada no kitsch de Pedro Almodóvar, misturando outras referências como David Bowie e Ney Matogrosso. “Eu disse a ela: pode parar de palhaçada, o tio é bravo!”, lembra, rindo.

Ele orientou a estudante a desenhar um romance que sobrevive aos tempos de guerra. “Pedi pra ela ir à Ribeira, se inspirar e pensar na história de amor de uma prostituta com um soldado que vai embora no final da guerra e deixa o cap e o casaco, que ela usa sobre o vestido de pinup, justo e decotado, só que feito com tecido de chita.”

Segundo o relato do mentor, Jéssica fez um bom trabalho. Pesquisou a vida de Maria Boa, prostituta de luxo e proprietária de um cabaré que existiu em Natal de meados dos anos 1940 ate a década de 1980. A aprendiz recortou flores de chita e as bordou, colocando relevo nas roupas. “Ela mostrou pra São Paulo um Nordeste que pouco se vê. O restante do Brasil pensa o Nordeste como uma grande massa, onde tudo é igual. Eu vivo dizendo que o Nordeste é como a Europa. Você atravessa a fronteira da Paraíba com o Rio Grande do Norte e começa a ver diferenças sutis e drásticas que vão formar a cultura daquele povo. Então, ponto pra a Jéssica! A geração dela tem medo de fazer porque não aceita crítica, tem medo da frustração. Mas a Jéssica é extremamente delicada, escutou e absorveu o melhor.”   

 

Estratégia de negócios inclui parcerias

Durante a passagem por Natal, Ronaldo Fraga ainda aproveitou para lançar a segunda edição do livro “Caderno de roupas, memórias e croquis” (Editora Cobogó, 316 páginas, R$ 120), sucesso editorial em 2013, quando teve 2,5 mil exemplares esgotados em 45 dias. A nova edição, revisitada e ampliada com as últimas coleções do estilista, conta com textos de Cristiane Mesquita, Costanza Pascolato e Regina Guerreiro.

Cristiane Mesquita fala com conhecimento, acompanha Ronaldo em todos os desfiles, desde muito tempo. Costanza Pascolato, consultora de moda e empresária da Tecelagem Santa Constância, fundada por seus pais em 1948, foi quem doou os primeiros tecidos para o estilista desenvolver suas coleções. Já Regina Guerreiro, crítica temida por muitos, com mais de 50 anos de experiência no setor, foi a primeira a acreditar no talento e na proposta diferenciada do estilista ora anônimo. Ou seja, a publicação, embora ele dissimule, dificilmente não daria certo.

“O livro superou nossas expectativas. A editora imaginava que fosse despertar o interesse do pessoal só de moda, mas terminou despertando do de artes visuais em geral porque ele (o livro) fala muito de processo de criação. Hoje pra ser designer não é preciso saber desenhar. Existe um mundo de programas de computador dando isso e o meu trabalho começa com o desenho no papel.”

 

>> Leia também:

Ronaldo Fraga e a cartomante de Paris

 

Ronaldo Fraga é conhecido por encomendar, para cada início de coleção, um caderno de capa dura no qual são desenhadas todas as inspirações, colados recortes e amostras de tecido. É, de fato, um material muito revelador do pensamento do estilista e, por consequência, da sua intimidade. Mas Ronaldo parece não ter muitos problemas com exposição e até faz disso uma boa fonte de renda. Ele não fala em números, mas é sabido que esse caminho, adotado também por outros estilistas, foi o que salvou suas empresas. Ao invés de simplesmente produzir e vender moda, Ronaldo, com uma carreira solidificada e forte, vende seu nome para outras marcas fabricarem produtos com preços mais acessíveis.

Croqui da coleção inspirada em Cândido Portinari 

 

São mais de 20 produtos licenciados, entre os quais uma linha de maquiagem e perfume chamada Barroco Tropical para O Boticário, peças de decoração para a Tok Stok e óculos desenvolvidos especialmente para a Chilli Beans. “Esse novo momento da moda no Brasil é um claro sinal de democratização. O estilista e a marca parceira acabam suprimindo um desejo de consumo que antes era reprimido”. Na estratégia do estilista, as peças de roupa passaram a ter uma distribuição ainda mais limitada, justamente para “manter o desejo”, ao passo que outros produtos geram mais receita.

“O mercado mudou muito, como o mundo inteiro. O desfile ainda é o momento em que o estilista leva as roupas à ultima consequência para gerar um fascínio que ainda me impressiona, mas não é mais a única vitrine, como a gente pensava até pouco tempo. A hora de vender, a mais importante mesmo, é a do showroom.”

 

Inspirações

Para criar suas coleções, Ronaldo Fraga já se inspirou em Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, o Sertão e o Rio São Francisco, Graciliano Ramos, Zuzu Angel e Nara Leão. Recentemente foi procurado pela primeira-dama da cidade de João Pessoa, Maísa Cartaxo, para desenvolver um projeto social e de capacitação das mulheres de pescadores da praia da Penha. O local, segundo relatou, estava sempre nas páginas policiais, era um local de desova de corpos. “A prefeitura estava preocupada porque os paraibanos não queriam saber da área e as incorporadoras estrangeiras estavam comprando tudo a preço de banana e isso fez crescer o processo de favelização”, conta.

Ronaldo chegou na comunidade e ajudou as mulheres a produzir acessórios de moda com escamas do peixe Camurupim. As peças foram parar na passarela, no desfile de Ronaldo na edição verão 2016 do SPFW e a procura pelo produto só aumentou. O projeto é novo e ainda é cedo pra dizer se ele vai andar com as próprias pernas, mas, por aqui, o Sebrae garante que as empresas atendidas pelo projeto “Natal pensando moda” já chegaram a ter um aumento de 200% no faturamento.

Registros do desfile da coleção Sereias, no SPFW,

no qual foi mostrado o trabalho das Sereias da Penha (fotos: reprodução)

 

Texto e fotos: Cristiano Félix

Please reload

Destaque

O que comprar em promoção?

08.07.2019

1/6
Please reload

O CRICOFELIX.COM é o site criado pelo jornalista Cristiano Felix sobre tudo o que interessa ao dândi moderno: tecnologia, moda, comportamento, gastronomia etc. As imagens contidas podem ser creditadas ou reproduzidas de fontes externas. Caso você tenha os direitos sobre qualquer imagem publicada aqui e não quiser que ela seja veiculada, entre em contato para que ela seja prontamente removida.  

Categorias:

Comente aqui:

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now