Moda, pra que te quero

18.09.2015

Assobio, buzina de carro, apelido e até pelo nome; eu olho sempre, a qualquer sinal. De quando em vez até sorrio, pra conhecidos e também estranhos. Nunca me enganaram com aquela historinha que homem não liga pra moda, que sai de casa vestido de qualquer jeito. Especialmente nesses tempos de democratização em que até cantada é objeto de lutas por igualdade, para homens e mulheres. 

Conjuntinho era o que rolava na minha infância, nos anos 1980. E que ninguém se atrevesse a tentar combinar a bermuda de um com a camiseta de outro: era inadmissível ter liberdade. Parecíamos robôs, numa versão piorada do androide excessivamente humano Sonny – e você aí pensando em ser simpático como Marvin, o robô de bordo da nave Coração de Ouro, do Guia do Mochileiro das Galáxias. Todo mundo usava franja e o mullet by Chitãozinho e Xororó, a mesma calça bag de cintura alta.

A adolescência na década seguinte foi igualmente complicada. Tínhamos até a rebeldia da idade, mas computador em casa era pra poucos. Somos chamados de Geração Y, a geração do milênio e da internet, mas a rede só se popularizou mesmo depois do movimento grunge, por exemplo. O Nirvana já tinha lançado “Nevermind” e fazia um sucesso estrondoso, e Kurt Cobain estava saindo de cena, deixando órfãos muitos fãs do subgênero do rock alternativo que usavam cabelos em desalinho e amplo xadrez. Encontrar referências sem internet é uma tarefa inglória, meus jovens. Sorte de quem era intuitivo e acreditava nesse sentido.

Informação é fundamental, já proclamou o ensaísta e pai da ciência moderna, Francis Bacon, em Meditationes Sacrae, em 1597: “O conhecimento em si mesmo é poder”. A frase é extremamente inteligente e chega a ser um aforismo, mas não vou repetir outras do tipo para não empobrecer essas linhas tortas, como ouvi pregarem na universidade.

Sobrevivemos a toda essa lentidão sem saber que o pior estava por vir: a vida adulta e os trajes corporativos. Muito numa boa, acho que o mundo dos profissionais que precisam usar uniforme ou um tipo específico de roupa só pode ser dividido em duas partes: tédio e canseira. Isso excluindo-se os finais de semana, claro, ou o aceite do parceiro no dia de liberar as fantasias sexuais. Quem nunca sonhou em encarar uma farda, seja de faxineira ou policial – com algemas, preferencialmente –, que se atire primeiro da Ponte Newton Navarro. Afinal, é uma espécie de suicídio viver sem imaginação. Pior que isso só seguir fielmente todos os mandamentos de Deus nosso Senhor e as leis da municipalidade.

Enfim, Foi na cilada do traje quadrado de trabalho que eu caí. E olhe que a minha área profissional é dita livre e descolada pela maioria. Comecei a trabalhar com jornalismo em televisão e logo encontraram em mim o perfil para escrever sobre política e economia.

Terninho virou indumentária para a longa semana na Cidade do Sol, entrando e saindo de gabinetes e casas legislativas. Estar num estúdio era a glória, mesmo que com um bocado de maquiagem. Mas isso só aconteceu depois de alguns anos levando sol na moleira. Sim, eu já pastei!

O tempo foi passando, as tatuagens aumentando e eu continuava a lutar para escondê-las por trás daquela bancada de telejornal. Ninguém acredita num cara todo riscado, era o que me diziam em coro.

Passei 15 anos me vestindo de duas maneiras, uma profissionalmente e outra na intimidade. Talvez por isso tenha mais urgência do que outros em mostrar como sou. Isso significa vestir o que gosto, escolher, provar, fazer combinações, mudar tudo outra vez e sair seguro de que as pessoas vão entender minha mensagem, quem sabe até buzinem no farol de uma esquina qualquer.

A indústria impõe um dinamismo ao qual já nos acostumamos. Nada que venha da moda nos assusta mais e até homem de saia kilt agora existe além fronteira escocesa. Quiçá uns ainda olhem pra alguém andrógino tentando descobrir qual seu gênero, mas, na maioria das vezes, não passa de uma espécie de jogo dos sete erros.

Não estou falando sobre preconceito, mas em linguagem de moda, que fique claro. Só não estou bem certo de que os tempos mudaram ou foram mudados. Por nós homens e pelas mulheres. A atriz e cantora alemã Marlene Dietrich foi uma das primeiras a usar um terno masculino. Chocou o mundo, dividiu opiniões e abriu portas para outros protestos, como o da mexicana Frida Kahlo, que se vestia de homem e deixava os cabelos curtos para afrontar o marido Diego Rivera.

É claro que as duas foram extremamente vanguardistas, mas o exemplo é pra mostrar que os tabus do século passado não causa mais nenhum tipo de surpresa. As mulheres podem usar cabelos curtos, calças e ternos. Os homens até saia. Tudo por culpa da moda, que cansada de ser vocábulo, aprendeu a impulsionar nossa evolução, unindo forma e significado.

Moda, independentemente de gênero, é uma espécie de iconografia, uma linguagem pessoal com inclinações artísticas. “A moda não é apenas algo presente nas roupas. A moda está no céu, nas ruas, a moda tem a ver com ideias, a forma como vivemos, o que está acontecendo”, já disse Coco Chanel.

Você pode até não aceitar o que digo, mas não duvide de Coco Chanel, meu camarada. Machismos à parte, certamente sua namorada admira esse ícone e pode te dar uns bons conselhos. Aliás, como falou um poeta qualquer estilo Mução, as mulheres estão bem perto, mas só não dominaram o mundo porque ainda estão decidindo o que vestir.

Enfim, se você ainda continua achando que, mesmo tento infinitas possibilidades, deve sair de qualquer jeito, faça também o favor de pular essa página na próxima sexta-feira. Esse espaço é para os bolinhas que se importam, sem todas as idiossincrasias contidas no ser ou não ser.

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