Documentário desvenda vida sem glamour dos modelos masculinos

28.07.2015

Com uma carreira respeitada no meio jornalístico, Pedro Andrade, apresentador do Mahattan Connection da Globo News e também contratado pela americana Fusion, emissora da ABC, reviveu um pouco da sua experiência como modelo para contar a história de rapazes que tentam espaço na indústria da moda. O documentário Unglamorous – the naked truth about male models (Sem Glamour - a verdade crua sobre os modelos masculinos) acaba de ser lançado e já é outra promissora empreitada.

Pedro foi além da diferença de salários de homens e mulheres nessa área, até porque já é sabido há tempos que os cachês dos modelos masculinos são muito menores. Número um do mundo, o sueco Alex Lundqvist, entrevistado por Pedro, faturou no último ano US$ 1,8 milhão, ao passo que Gisele Bündchen aumentou sua conta em US$ 48 milhões. No documentário essa questão é abordada, mas mas impactante é ver como esses garotos se mantêm longe da família, num universo completamente novo ora gigantes, ora apertadíssimo: os apartamento em que vivem muitos deles não caberiam um carro dentro, por exemplo.

Confira a entrevista que Pedro deu com exclusividade para o blog.

Cristiano Félix - A profissão de modelo talvez seja uma das poucas em que os salários ou cachês das mulheres são muito mais altos que os dos homens. Dá pra entender melhor o pleito feminino por igualdade, sobretudo em condições de trabalho, depois de participar desse mercado?

 

Pedro Andrade - No caso específico do mundo da moda, há uma explicação absolutamente razoável com relação a diferença de salários. Mulheres consomem infinitamente mais que homens... São centenas de marcas de roupa, maquiagem, bolsas, lingerie etc. Todas direcionadas exclusivamente para o público feminino. Além disso, um grupo enorme de mulheres compra roupas para os respectivos maridos e namorados, então, no ponto de vista das mascas, é mais interessante investir no apelo direcionado a "elas" que a "eles".

De mais a mais, como mostro no documentário, geralmente meninas sonham desde muito cedo em virar uma Angel da Victoria's Secret ou a próxima Gisele. Homens, de maneira geral, se encontram no meio desse universo após serem "descobertos" por algum profissional. Isso significa que eles quase sempre não estão preparados para o que está prestes a acontecer.

 

"Homens, de maneira geral, se encontram no meio desse universo após serem "descobertos" por algum profissional. Isso significa que eles quase sempre não estão preparados para o que está prestes a acontecer."

 

Muitas das histórias mostradas em “Unglamorous – the naked truth about male models” tem um início como a sua, em um apartamento pequeno nos EUA. No documentário ouvimos a impressão e a experiência de outros modelos, mas, como foi a sua ao ter de viver por um determinado tempo em um espaço quase claustrofóbico?

 

Venho de uma família de classe média do Rio de Janeiro, sem grandes mordomias. Lá em casa comia-se o que tinha na mesa. Depois, aos 16 anos fiz intercâmbio na Virgina (estado rural dos EUA) e acabei morando em um "mobile home" (quase um trailer) por um ano. Quando cheguei nos apartamentos de modelo, já estava acostumado com a falta de espaço. O difícil - e fascinante - é aprender a lidar com diferentes culturas do dia para a noite... Há os que não são chegados em limpar a casa, os que tomam UM banho por semana, os que fumam três maços de cigarro por dia dentro de casa... Além disso, se comunicar com pessoas que não falam uma palavra de inglês ou português é um obstáculo. No entanto, para um moleque como eu (naquela época), viajar para a Grécia, Tailândia, Japão, China, França, Itália, dentre outros países, era mais que uma grande oportunidade: era um sonho. Nessa carreira, assim como em todas as outras, você as vezes "perde" aqui para "ganhar" ali.

 

Qual o conselho que você daria a quem está começando para não terminar acumulando uma dívida quase que impagável com uma agência?

 

É complicado dar conselhos porque no mundo da moda você realmente não tem muita autonomia perante ao seu destino profissional. Os clientes ou gostam ou não gostam do seu "look".  Muitos desses rapazes vem de uma favela em São Paulo ou foram descobertos em uma feira em Moscou. Ou, como no caso de um dos entrevistados no documentário, nasceu e foi criado dentro de um trailer. Nesses casos, eles não tem dinheiro para pegar um avião até NY ou Paris. Se bancar, comer, pagar a própria hospedagem ou até mesmo o próprio visto. Por isso é que a agência tem que investir neles para que talvez, o sucesso chegue posteriormente. 

Se um modelo não trabalha nos primeiros três meses a divida com a agência começa a ficar pesada e saber a hora de ir embora pode ser uma decisão difícil.

Sugiro que, se possível, eles falem com agências respeitadas. Cuidado com os charlatões. Confie em gente respeitada na indústria. Aceite críticas. Ouça as direções dadas pelos bookers. Seja pontual. Trate TODOS, sem exceção, com respeito. Seja uma pessoa agradável! Com certeza o cliente não contrata pela segunda vez um modelo mal humorado ou mal educado. Evite sair todas as noites. Resista as tentações, que são muitas!. Tenha uma vida regrada. Se alimente direito e seja responsável com suas finanças. Este é um bom começo. 

 

Existe um momento certo de parar ou, antes disso, de buscar outros meios a partir da exposição que a carreira de modelo oferece?

 

A carreira de modelo pode ser uma plataforma preciosa para outras profissões. No meu caso, sempre soube que seria jornalista, mas, soube usufruir as experiências proporcionadas pelo trabalho de modelo em função da carreira que viria posteriormente. 

Não desperdice os contatos que você vai inevitavelmente fazer. Aprenda com suas viagens. Cresça com seus erros. Seja humilde e mantenha os olhos abertos. Muitos modelos masculinos acabam se tornando fotógrafos, agentes, stylists, editores de moda e assim por diante. 

Se o modelo passar a vida só preocupado em ser bonito, arrisca acordar um dia aos 40 anos e notar que não aprendeu a fazer nada. É uma situação desesperadora. 

"Se o modelo passar a vida só preocupado em ser bonito, arrisca acordar um dia aos 40 anos e notar que não aprendeu a fazer nada. É uma situação desesperadora." 

 

O documentário “Unglamorous – the naked truth about male models” está concorrendo a pelo menos dois prêmios, o“Webby Awards” e o “Emmy Award”. Eles são importantes pra você? O que diria na entrega da premiação?

 

Fico lisonjeado com o reconhecimento, mas, confesso que vejo prêmios como a consequência de um trabalho bem feito, não como a razão ou a meta para aquele projeto. 

Já quero "contar esta história" há anos. Fico feliz com a resposta positiva do grande público. Que seja o primeiro de muitos documentários!

Se ganhar qualquer prêmio, agradeceria a equipe que me ajudou, aos produtores e as agências e modelos que abriram as próprias vidas em nome de um projeto informativo. O meu crédito é mínimo comparado ao deles.

Depois da entrevista, veja aqui o documentário.

Texto: Cristiano Félix

Fotos: Giuliano Correia para Manhattan Magazine

* Embaixador da marca, Pedro Andrade veste Gucci nesse ensaio

 

Onde encontrar o Pedro

Site / Instagram

 

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