A bunda crônica

23.07.2015

Paixão nacional é cantar o hino, a plenos pulmões, antes dos jogos da Copa e mais nada. Dane-se o futebol, a cerveja e a bunda. Aliás, bunda é outra coisa. 

Não me venha dizer que bunda é uma paixão; bunda é simplesmente prazer e está ao alcance de todos, dada a variedade e disponibilidade. No Brasil há muitos tipos de bunda, como bem relatou o mestre sociólogo Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala ao enfatizar a formação da nossa sociedade no contexto da miscigenação.

Os europeus chegaram e se deslumbraram com o desbunde que havia nesse país. Comeram meio mundo e nos deixaram com um pouquinho do seus genes, mas, além dos portugueses, habitavam essas terras diferentes indígenas e foram trazidos muitos negros, de várias nações africanas. E assim o Brasil foi se desenvolvendo.

Somos um país jovem pra afirmar que a bunda é nossa paixão. A espécie inteira cultua a bunda há mais de 200 mil anos, quando ela ganhara esse formato arredondado que tem hoje. Nas mulheres o tamanho e a curva, cientificamente falando, estão associados a quantidade de estrógeno e, por conseguinte, a magia da fertilidade.

Resumo esse capítulo da história dizendo que teve gente que chegou antes de nós brasileiros e escolheu a bunda. Ela não é nosso patrimônio se não nós uns bundões ao achar que temos mais direitos do que outros. 

Talvez minha tese só vá pra as cucuias – sem trocadilhos - se alguém se deparar com o novo clipe da Gretchen ao lado do DJ Rody. Sim, a outrora rainha do bumbum, e mais recentemente dos memes e gifs da internet, voltou a cantar e está fazendo o maior sucesso nas redes sociais. Parafraseando Cazuza, eu diria que é aterrorizante ver o futuro repetir o passado.

Dos males o menor: como o tempo não para, a bunda da Gretchen também despencou e isso já se notava desde antes da rainha se apresentar com pompa no Circo do Palhaço Facilita. Gretchen, meus amigos, entrou para o democrático time de bundas moles.

A gente bem sabe que os negros tem o derrière mais firme a avantajado, mas a bunda dura, como já escreveu Arnaldo Jabor, não é nenhuma vantagem. Ela exige muita recusa e abdicação do mundo e dos prazeres reais, só pra que seu dono(a) use uma calça com cintura tão baixa que quase termina onde começa a pornografia. 

Em 1993 Freyre também já tinha certezas e em sua obra-prima refutou a ideia de que no Brasil exista uma raça inferior devido à miscigenação. 

É por isso que eu gosto da bunda mole. Ela sim é nosso maior orgulho tupiniquim, símbolo da malandragem, pouca-vergonha e da bandalheira. Vide nossos sistemas, sobretudo o político, para perceber a verdade nua e crua. Hoje em dia, meu amigo, mais do que nunca, estamos com a bunda de fora. A gente leva pé na bunda dia a  dia e vai acabar saindo com uma mão na frente e outra atrás. 

É por isso que existem outros tantos brasileiros pagando pau pra os gringos, sobretudo pra a terra do tio Obama. Enquanto nós louvamos a bunda, nos Estados Unidos o que vale é ter peito. E por aí vai. 

Que me perdoe Cazuza, gênio da nossa música, mas no caso desse injustificável mito da bunda perfeita melhor seria ouvir um “Nevermore”, como no poema de Edgar Allan Poe. 

 

Eis o motivo da minha inquietação:

Texto: Cristiano Félix

Ilustração: Zachari Logan

 

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