Bichos de fora contra a intolerância

20.06.2015

Em tempos de muita discussão sobre intolerância dos mais variados tipos, de orientação e gênero; homofobia e agressões de todos os lados, venho aqui exercer meu direito de “afrescalhar” e usar animal print quando eu quiser. 

Lembro do primeiro cara que eu vi fazendo isso de forma magistral. Era início dos anos 2000 e ele tinha produzido camisas com o desenho de um pássaro que percorria os ombros com asas e o rabo ia parar no meio do peito. Achei aquela camiseta absolutamente linda.

Cerca de um ano depois, essa mesma figura usou o perfil no instagram para comercializar as t-shirts para os poucos mais de 500 seguidores que tinha. O cantor Devendra Banhart e a modelo transexual Lea T. foram alguns dos primeiros a curtir. Aquela coleção vendeu algo em torno de oito mil peças e hoje o perfil dele tem mais de 180 mil seguidores. Estou falando do designer argentino Marcelo Burlon, que desde 1998 vive em Milão, onde organiza as melhores festas de grifes como Givenchy, Gucci, Chanel e Raf Simons, graças ao seu mailing bombástico.

A marca de Burlon, em parceria com dois sócios, foi batizada de County of Milan e possui mais de 450 pontos de vendas ao redor do mundo, incluindo as lojas Selfridges, em Londres, Barneys de Nova York e Colette, em Paris, além de detonar números no e-commerce, girando mais de € 22 milhões no último ano.   

Foi esse cara que abriu as portas de um universo restrito aos clubbers para nós homens entrarmos sem medo, aonde quer que estejamos – porque é fácil vestir-se assim no salão Pitti Uomo, em Florença, mas se assumir como realmente é, dando de ombros para o preconceito alheio, poucos têm coragem

Os clubbers, assim como os punks, os gays e tantos outros grupos passaram muito tempo confinados em guetos. Esses refúgios das minorias, surgidos na Alemanha e Península Ibérica no século XIII por causa das imposições e circunstâncias políticas, sociais e econômicas, se espalharam pelo mundo e foram de suma importância.

Para muitos o gueto era o único espaço onde se podia viver aquilo que se é, sem qualquer imposição. Mas isso criou uma urgência assustadora. Homossexuais, por exemplo, até hoje não conseguiram se livrar do modelo que martelava e dizia para aproveitar aqueles poucos momentos. Antes que a polícia chegasse, antes que alguém fosse espancado ou até morto. Essa pressa tornou os encontros fugazes, o sexo um desejo inadiável. Muitos grupos nunca conseguiram superar essas marcas, apesar do tempo. E a sociedade inteira ficou com uma dívida histórica.

Infelizmente nem todos reconhecem que a forma mais simples de quitar essa dívida é garantir o direito que cada um tem de ser livre, expressar e viver como quiser. É por isso que durante essa semana inteira eu botei meus bichos pra fora, vesti animal print todos os dias.

Usei do meu jeito, colocando a estampa em pequenos detalhes: na gola da camisa, na bolsa, no tênis. Mas acho sensacional quem se veste inteiro com as estampas tradicionais e desfila por aí sem pudores. A rua é nossa, o direito é nosso. Sem mais.

 

 

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