Traje Passeio (parte 2)

03.02.2015

 

Parece que estou tendo um déjà-vu. Seria, não fosse tudo tão real. Não preciso fazer esforço nenhum para lembrar e basta isso para ser invadido por todas as sensações: ansiedade, frio na barriga, adrenalina, prazer. Muito prazer, meu nome é cachoeira.

Nasci e me criei diante das águas. Sou de praia, do litoral nordestino, e fico fascinado com água doce, calma, sem ondas. Não que meus olhos tenham se acostumado com a beleza do ir e vir, do movimento quebrando e do cheiro de maresia, mas os momentos que tenho vendo quedas d’água e me jogando debaixo são diferentes.

Começa com uma viagem; planejamento e aventura bem misturados. A aventura fica por conta da mínima roupa ou de nada que me cubra. Um fetiche que talvez seja natural, o de se embrenhar numa mata, andar quilômetros pro trilhas, encontra um recanto quase inacessível e explorar outro corpo com o mesmo furor. Explorar, essa é a palavra de ordem.

Saí de Belo Horizonte pela manhã rumo a uma estrada de 100 km, a distância que me separava da Serra do Cipó. Havia feito uma rápida pesquisa na internet e esse lugar me parecia o mais interessante nas proximidades da capital. Um carro alugado, rodovia com asfalto acima da média do país e um rádio que falhava de quando em vez. Cantei no caminho.

Estava com o Gustavo, um amigo muito querido que foi meu cicerone durante alguns dias em Minas Gerais. Apesar de viver bem ao lado, ele só tinha ido uma vez à Serra. E, ao contrário do que pensávamos, a cachoeira mais especial, apontada pelos nativos, não estava indicada nos roteiros. Serra Morena! Lembro desse nome com doçura, foi lá que passei momentos incríveis.

Do centro da Serra do Cipó até chegar lá se anda mais um tanto. Subidas quase além do limite para um veículo com motor 1.0 e mais uns 6 km de estrada de terra, 13 km no total. A propriedade é privada e paga-se para entrar. Sequer almocei, pedi apenas um pastel e uma cerveja no bar e começamos a caminhada.

Fazia um dia lindo. O sol escaldante quase me obrigou a tirar a roupa, mas me contive: um coito interrompido por poucos instantes mais. Na cachoeira de Serra Morena I eu já estava feliz. Era uma queda d’água pequena, de apenas sete metros, mas a água era cristalina e estava geladíssima, do jeito que eu precisava pra me refrescar. Passamos cerca de uma hora ali e, sob protesto, segui. Calcei apenas o chinelo pra continuar a andar.

Mais uma boa subida e avistamos a cachoeira II: são 70 metros de atura e uma invasão de paz de espírito. É impossível não ficar espantado com a exuberância e a força da natureza. Daquele ângulo as pessoas pareciam em estágio de formiga.

 

 

Não dava mais pra caminhar, corri. Passamos a tarde inteira por lá, contraindo as pernas para não sermos derrubados pela força da água. Nossos corpos já pareciam estar acostumados com aquela temperatura quando, de repente, o frio voltou, a pele ficou mais enrugada e os lábios antes colados estavam quase desfeitos de trêmulos. Uma nuvem poderosíssima começou a se aproximar e lançou raios e trovões.

Apressamos o passo e mesmo assim não deu. No fim do caminho de terra o céu começou a desabar, a estrada de volta também. Tive medo de ser arrastado junto com aquele carro de vidros embaçados montanha abaixo. Na Serra do Cipó não há posto de combustível e o tanque estava quase a zero.

Fui tomado por um ímpeto semelhante àquele do início. Gozar, como dizem, é uma pequena morte, gasta-se muita energia para alcançar esse prazer. Nós fizemos alguns vídeos que poderiam mostrar nossos derradeiros momentos. Era adrenalina, ansiedade, frio na barriga outra vez. Esqueci o freio até a primeira descida, estávamos salvos: outro deleite chegou.

É claro que meu fetiche continua, nunca transei numa cachoeira. Talvez um dia possa realizar essa fantasia, quando eu já estiver acostumado com paragens como aquelas e embarcar nessa aventura com alguém que seja mais que um amigo, claro.

Pelo menos a experiência da volta eu tive. Não era mesmo um déjà vu. Quase oito anos antes eu me refestelei pelas cachoeiras de Minas. Conheci Mariana e publiquei uma crônica chamada “Traje Passeio” na revista Vitrine. Era abril de 2007. O título de agora, como se vê, é reciclado. As semelhanças com a outra viagem são muitas. Do mesmo jeito que aconteceu anos atrás, esqueci minha roupa de banho no hotel em Belo Horizonte e tive de comprar novos trajes numa loja à beira da caminho. Acho que eles me caíram bem e vão entrar pra coleção de causos que está guardada na pasta dos momentos mais felizes.

 

 

Cachoeiras de Serra Morena

Acesso por Vau da Lagoa, km 5, acesso pelo km 104,5 da MG-010. São 13 km de estrada, sendo 6 km de terra.

Entrada: R$ 30,00.

Telefone: (31) 9977.1421

Informações sobre a Serra do Cipó: http://www.circuitoserradocipo.org.br/

 

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