Jussara Silveira

07.11.2014

 

Uma canção para Clarice. Jussara Silveira faz pocket show no Festival Literário de Natal baseado em livro da escritora.

Quando Eucanaã Ferraz decidiu criar o espetáculo musical “Outra hora da estrela”, baseado em “A hora da estrela”, o penúltimo romance e último livro publicado em vida por Clarice Lispector, deu-se conta de que Macabéa, personagem principal dessa novela, tinha muito da história de vida da cantora Jussara Silveira. Como a protagonista que sai de Alagoas para tentar a vida no Rio de Janeiro, Jussara deixou o
sertão baiano ainda jovem, estreou no Teatro Castro Alves – a maior casa de espetáculos de Salvador – e de lá migrou para conquistar o Brasil. Para isso, precisou se mudar para o Rio, onde estudou técnica vocal com Maria Helena Bezzi.
“É interessante como Eucanaã consegue extrair fragmentos do livro e com esses trechos mostrar a obra de Clarice de uma maneira completa. Isso toca todos os públicos, não apenas as mulheres. É claro que Clarice fala muito do universo feminino e sobre a condição da mulher, mas essa obra é também sobre o povo que sai do Nordeste do nosso país em busca de oportunidade. Eu mesma sou uma espécie de retirante que saiu do sertão para viver na cidade grande, no Rio que encanta e apavora”, diz Jussara, que se apresenta hoje, às 21h30, na Tenda dos Escritores. Última atração do segundo dia do Flin.
No espetáculo as canções interpretadas por Jussara são intercaladas com a narração do Eucanaã. No espetáculo original esse papel de narrador é feito pelo ator baiano, João Miguel Wisnik, que se dedica prioritariamente ao cinema. E é justo a possibilidade de ter uma voz masculina que ajuda tornar a apresentação mais abrangente no que diz
respeito a atingir a emoção dos espectadores.
O texto é amarrado pelo universo das canções; os dois (texto e canção) caminham lado a lado. É como se o discurso único fosse sobre a indistinção da Música Popular Brasileira com a literatura. “Cada canção entra como se fosse uma continuidade do texto. São poesias do Wally Salomão e outras letras do Caetano Veloso belíssimas, como 'No dia em que eu vim-me embora' e 'A hora da estrela de cinema'. Sem falar em músicas como 'Janelas Abertas Nº 2' (Chico Buarque).” 

Destaca-se ainda o mise-en-scène de Jussara, que precisou adaptar sua postura para se enquadrar no tamanho do desafio que o projeto expunha. Ela, que sempre se apresentou como uma apaixonada por canções e que não representava, colocando a voz entre o leve e o denso, a depender do ritmo da canção, teve de incorporar a força da literatura. E dos palcos, por conseguinte.
“Esse espetáculo tem uma força teatral que não é comum pra mim e me ajuda a ampliar o mundo da interpretação. Tenho a sorte de estar ao lado de três músicos espetaculares, dois deles já me acompanham em outras turnês. Sacha Ambak (piano) e Marcelo Costa (percussão) agora dividem espaço com o Muri Costa, que colocou violão no meio dessa formação inusitada de piano e percussão. Eu tenho a sorte de estar bem
acompanhada”, destacou.
“Outra hora da estrela” foi concebido a pedido do Instituto Moreira Salles, parceiro do Flin, e já circulou o Brasil em alguns festivais, além de ter sido apresentado em Lisboa, em um festival da Fundação Calouste Gulbenkian. Durante essa passagem pelo exterior, Jussara teve contato com Henrique Dias,  um estudioso da obra de Clarice, que foi ver o espetáculo. Os escritos dele ajudaram a cantora a entender melhor a literatura que ela já havia consumido.
“Clarice sempre está presente na vida de quem gosta de literatura. Estava presente na minha também. 'A hora da estrela' e outros livros dela eu já conhecia, mas é claro que quando a gente se depara com um projeto como esse, precisa se preparar melhor”, disse Jussara, que elenca duas canções do espetáculo como as mais tocantes: 'O nome da cidade', de Caetano Veloso, e 'O pedido', do seu conterrâneo da Bahia Elomar Figueira de Melo. “Essa música do Elomar eu escuto desde criança”, lembra e começa a cantarolar. 


O livro

Em “A hora da estrela”, a datilógrafa Macabéa migra de Alagoas para o Rio de Janeiro cheia de sonhos. Ao chegar na cidade grande se vê às voltas com um emaranhado de culturas e valores muitos diferentes dos seus. Levando uma vida simples e sem tantas emoções, começa a namorar Olímpico de Jesus, um jovem que não consegue vislumbrar nenhuma oportunidade de ascensão social e, em determinado momento, acaba trocando Macabéa pela sua colega de trabalho. O pai dessa segunda moça era açougueiro e tinha uma possibilidade de melhorar de vida.
Diagnosticada com uma tuberculose, Macabéa é aconselhada por Glória a procurar a cartomante Madame Carlota, que prevê um futuro feliz para a jovem. Na leitura da cartomante ela conheceria um homem loiro e pouco tempo depois se casaria com ele. Mas o final é trágico. Ao sair da consulta Macabéa é atropelada por uma Mercedes, conduzida por um homem loiro. Cai no asfalto e morre.
Essa é “a história de uma moça tão pobre que só comia cachorro-quente. Mas a história não é só isso, é sobre uma inocência pisada, de uma miséria anônima”, comentou Clarisse Lispector em sua única entrevista pra televisão, concedida em fevereiro de 1977 ao repórter Júlio Lerner, da TV Cultura.
Nessa mesma entrevista, a escritora diz que as referências para compor a obra são pessoais, da sua infância no interior nordestino (Clarice cresceu na cidade de Recife, a despeito de ter nascido na Ucrânia), além de uma visita que fez a um aterro de São Cristóvão, onde nordestinos se reuniam. Segundo Clarice, esse “ar meio perdido” do nordestino na cidade grande foi capturado justamente no aterro da Zona Leste do Rio.
Já a parte do atropelamento da protagonista é pura obra da imaginação de Clarice, que não conseguiu se desvencilhar dessa ideia trágica logo após uma visita a uma cartomante. Pensamento fixo que lhe rendeu o final do livro escrito originalmente em fragmentos de papel e publicado em outubro de 1977, pouco antes da autora dar entrada no hospital do INPS, no Rio, por causa de um câncer no ovário. Clarice foi internada no dia 9 de dezembro e morreu três dias depois, um dia antes de completar 57 anos. 
“O texto é muito sério, mas tem passagens divertidas também. A relação com a cartomante é um desse momentos, digamos, engraçados. Eu que vejo mais a tragédia que o humor, choro mais do que rio. Mas a plateia ri mais do que se emociona”, observa Jussara.
A cantora defende que obras assim deveriam ter apoio não apenas do Ministério da Cultura do Brasil, mas também do Ministério da Educação. “Eu  gostaria que o espetáculo fosse muito mais apresentado, que andasse por todas as escolas de São Paulo e por todo o Nordeste. Está inscrito em alguns editais de cultura e tenho a esperança de levá-lo a muito mais lugares. É sempre uma alegria apresentar e vai ser assim também em Natal”.

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