Arnaldo Antunes

06.11.2014

 

Sai a música, entra o papo. Um dos maiores poetas de sua geração, o ex-Titãs, Arnaldo Antunes participa do Flin não para cantar, sim para falar de poesia.

As duas carreiras caminham paralelamente, mas é muito mais fácil ver Arnaldo Antunes nos palcos como músico do que como escritor, apesar de ter 18 livros lançados. Hoje é um desses momentos especiais para o público que acompanha o Flin. Antunes estará ao lado de Francisco Bosco e Antônio Cícero numa mesa que vai debater a “Poesia: do modernismo ao pós-tudo”, às 20h30, no espaço Tenda dos Escritores, na Praça Augusto Severo, Ribeira.
“O papo informal é muito diferente da relação que se faz no show de música, é um registro especial e mais próximo. Esse tipo de contato é mais raro pra mim porque não é algo que eu consiga encaixar sempre na agenda. Acho que o público percebe e valoriza. Por isso é que fiz questão de participar. Por ser um festival e por estar com duas pessoas que eu admiro muito”, disse.
Atualmente na estrada com o seu álbum “Disco”, lançado em 2013, Arnaldo Antunes divide o tempo com os escritos de um novo livro, sobre o qual ainda desconversa, lançando apenas o argumento de que “está num processo muito embrionário, não dá pra definir ainda o que vai ser”. Mas, pelo disco, dá pra ver que, com o passar do anos, ele gosta cada vez mais de experimentar.
A construção de “Disco” foi diferente de todas as outras, sendo a primeira vez em que Antunes compartilhou, pouco a pouco, as músicas pela internet, à medida que elas iam sendo gravadas. Quatro faixas foram divulgadas no site oficial ao longo de quatro meses, sempre na primeira segunda-feira de cada um. E elas vinham acompanhadas de vídeos com depoimentos e making-offs, como  de Chico Buarque já fez uns anos atrás.
Das outras vezes os álbuns só eram apresentados quando já estavam fechados, ele não versava sobre o desenvolvimento. A turnê deve acabar apenas em janeiro de 2015 e, nessa mesma época, Antunes deve se concentrar no próximo livro e começar a selecionar músicas para aumentar a discografia. Entrar no estúdio de gravação vai ficar pra o segundo semestre do próximo ano.
“Só posso dizer que o próximo livro é de poemas. Estou começando a mergulhar nele, juntando tudo numa mesma ordem e dando uma linguagem gráfica ao projeto. Ainda não tem nome, isso é a última coisa que eu dou, mas estou bastante envolvido com o trabalho. Como se pode ver, meu interesse sempre acaba migrando de uma área para outra.”

 



Poesia na veia

Não é só pela música ou pelos prêmios que recebeu, a exemplo do Jabuti, em 1993, com “As Coisas” (1992); a poesia está impregnada em Arnaldo Antunes. Escrever, declamar, musicar, debater. Tudo isso é feito com naturalidade e, claro, muita prática. Para o grande público a bibliografia dele começa em 1983, com “Ou e”, mas os escritos do ex-Titãs são mais antigos, começaram ao lado de Go, três anos antes, com dois pequenos livros escritos e impressos artesanalmente: “A flecha só tem uma chance” e “Deu na cabeça de alguém uma árvore, um piano e muitas galinhas.” Naquela época Arnaldo Antunes era um jovem de 20 anos que havia dois estava estudando letras na Universidade de São paulo (USP).
O derradeiro livro dessa lista é “Outros 40” (2014), que, assim como “40 escritos”, foi organizado por João Bandeira. Trata-se de uma compilação de ensaios que mescla música, poesia e artes visuais: tudo o que está em todos os seus trabalhos de uma talagada só, independentemente de qual o meio principal. Eles foram publicados separadamente, ao longo dos anos, em revistas, jornais e catálogos.
“Outros 40´ é uma extensão dos meu outro livro, uma reedição de muita coisa que publiquei na imprensa. Eu espero que essas duas obras possam estra dentro do debate que vamos ter, que é sempre muito fértil e inteligente. Eu tenho uma relação muito próxima com o Antônio Cícero e o Francisco Bosco. Já nos encontramos em outras ocasiões e sempre gostamos de ter a participação do público. Espero que as pessoas de Natal também nos façam perguntas”, diz.
Enquanto Antunes é do asfalto, os outros dois participantes são do litoral, nascidos no Rio de Janeiro. Antônio Cícero é poeta, compositor e filósofo e, ao lado da irmã, Marina Silva, construiu ricas parcerias de MPB. Francisco Bosco também é poeta, letrista e tem parentes na música. É filho de João Bosco e doutor em teoria literária pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Craque em extrair do cotidiano temas como amor, sexo, inveja e insônia e colocar neles um olhar filosófico e contemporâneo.
Por falar em contemporaneidade, Arnaldo Antunes, promete levar referências bem atuais para o debate. Nomes como Leonora de Barros, o poeta Frederico Barbosa e Nuno Ramos, que além de escrever também trabalha com artes plásticas, é pintor, escultor e cenógrafo. “Poesia é uma arte muito minoritária, mas ela acabou contaminando muitas outras áreas.  A poesia cantada no Brasil, por exemplo, é muito elaborada, tem sofisticação e um alcance massivo. Ou seja, a poesia migrou para um suporte além do livro. Por mais que nossa produção não seja grande como na época dos grandes movimentos como a Tropicália, o Modernismo e a Poesia Concreta, a vitalidade acaba aparecendo em outros autores”, argumenta.

 

 

"Poesia é uma arte muito minoritária, mas ela acabou contaminando muitas outras áreas.  A poesia cantada no Brasil, por exemplo, é muito elaborada, tem sofisticação e um alcance massivo."


A pesquisa pelos nomes surge muito da navegação. É na internet que Antunes acaba encontrando “muita coisa interessante”. “Volta e meia eu me surpreendo. Nos anos 1980 havia uma grande descoberta da poesia através das revistas especializadas, mas hoje em dia parte desse espírito migrou para a internet, o que de certa forma torna tudo muito mais comunitário e acessível.”
Com Nuno Ramos, um dos citados, Arnaldo Antunes tem projetos a quatro mãos desde os idos de 1980. Os dois editaram a revista Katoliki em 1981. Naquele mesmo ano Antunes e Paulo Miklos convidaram o Nuno, Sérgio Britto, Ciro Pessoa, Fasuto Fawcett e mais o Trio Mamão (formado por Toni Belloto, Branco Mello e Marcelo Fromer) para gravação da Fita das Musas. Desse projeto é que nasceria uma parceria duradora, os Titãs. Com um nome um pouco mais extenso, o Titãs do Ieiê se apresentou pela primeira vez em 1982 no Teatro Lira Paulistana e no Sesc Pompéia. De lá pra cá esse capítulo musical se ampliou muito e foi vastamente acompanhado pela mídia. Outras parcerias musicais de Antunes surgiram, como a com Carlinhos Brown e Marisa Monte, formando os Tribalistas.
Para os fãs, fica registrado novamente o aviso: Arnaldo Antunes não vai cantar seus sucessos de mais de 30 anos de carreira, celebrados recentemente com a gravação de um novo “Acústico MTV”. Em compensação o público vai ter o melhor de suas referências e observações sobre o cenário cultural  - inclusive  no que diz respeito a poesia em si e dos outros. Como já bem disse quem vária entrevistas, a poesia lhe é
cara. “Se eu tiver um livro sem editora e que eu precise bancar, faço de olhos fechados.”

 

*Reportagem publicada na Tribuna do Norte. Fotos cedidas.

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