Clara como a luz do sol

01.10.2014

 

Viver no Rio de Janeiro e ter a pela alva é apenas um dos contrastes de Alessandra Maestrini. Ela foge da luz durante o dia e vampiriza nos palcos à noite, encarnando outro tipo improvável – a julgar novamente pela tez: uma diva do jazz. A voz tampouco é negra, mas tem a intensidade de um grande gozo. Canta com tanto prazer que chega a comparar com um orgasmo. E por isso é tida por diretores como Jô Soares como a principal atriz de musicais no Brasil. 

 

Imagine a cena: entra num set de gravação uma atriz outrora branca, depois de passar por horas de tinta pelo corpo até que a pele estivesse morena, como a de uma índia. A caracterização conta ainda com uma peruca preta e cílios de plumas, comprados nos Estados Unidos. Não fosse o bastante, ela despeja o texto com um sotaque “übercarioca”, possível apenas com o maxilar excessivamente relaxado, com a parte patente estendida “de tanto realizar serviços”, por deste modo dizer.

Assim está Alessandra Maestrini no filme “A primeira missa”, dirigido por Ana Carolina, com lançamento programado para junho.  O tipo não é o que a consagra, mas o que a revelou para todo o país, no seriado “Toma lá, dá cá”, da Rede Globo. “É uma comédia, claro. O filme fala sobre a dificuldade de fazer cinema no Brasil. E essa atriz, pra fazer o papel, obviamente deu para o diretor, né?”

Aparição seguinte: cabelos levemente ondulados emolduram um rosto de forma quadrada, voz doce e receptiva. A dama de longo preto coberto por cristais Swarovski e com um decote profundo no colo revela ser cantora e atriz, não simplesmente uma atriz que está lançando seu primeiro álbum solo. Sem recato, insiste, não por querer desobedecer a mãe, mas deixou de colocar fita para cobrir os seios, que sutilmente se revelam com os movimentos dos braços. Afinal, a interpretação também pulsa. Ela seduz o entrevistador, com um jeito naturalmente divertido, até que se deita no seu sofá e simula um orgasmo no momento em que entoa “I feel good”, sucesso imortalizado na voz da James Brown. Essa mulher também é Alessandra Maestrini, só que numa versão diva, anunciando o lançamento de “Drama’n Jazz” no Programa do Jô.

“É realmente um orgasmo completo. Eu brinquei, mas é o que é mesmo. O orgasmo é uma conexão com o outro e com Deus, com o universo. E a arte nada mais é do que isso. Eu sempre comparo o estado de estar no palco com uma foda. Por que muda tanto quando você vai para o palco, que tem o público, do momento de ensaio? Porque deixa de ser monólogo e passa a ser diálogo. Ou seja, deixa de ser o prazer solitário e passa a ser uma foda coletiva. Por isso que todos os dias é diferente. O público pudico que vai ao teatro pode até ter uma aversão e essa gente pudica pergunta: Como você consegue fazer a mesma coisa todo dia? Mas nunca é a mesma coisa. Você está sempre com um parceiro diferente. Então é uma entrega. Se você está ali para se derramar, ainda mais musicalmente, que é uma entrega de improviso, é um orgasmo mesmo.”

Outra: uma moça franzina e aparentemente frágil surge despretensiosamente no saguão do hotel Sofitel, em Copacabana, trajando calça cargo, camiseta despojada e sandália de couro trançada. Ao lado, seu produtor. Pegamos o mesmo elevador. Olho com curiosidade, já a vi em momentos muito diferentes, não tão de perto. Saltamos. Em poucos instantes torno a olhar. A mesma pessoa é como se fosse outra depois de pinceladas da maquiadora chilena Mary Saavedra e de entrar num figurino vitoriano moderno. Essa também é Alessandra Maestrini, que na entrevista que seguiu esse ensaio mostrou muitas outras facetas. Falou como suas relações amorosas são invariavelmente vantajosas – até mesmo quando acabam; a relação com Miguel Falabella, o desejo de trabalhar com Chico Buarque, sobre a preguiça que consome muitos artistas e de como os musicais reinventaram o teatro brasileiro e agora estão mudando o cenário musical e do bullying que sofreu na adolescência e de como ele o ajudou a cuidar do que primeiro reparamos: a pele de pêssego. Toque – o botão aqui ao lado não tem qualquer duplo sentido, diferentemente das piadas de Alessandra – e ouça sua doçura, antes de sair dedilhando o resto.

 

 

Você gosta de se maquiar todos os dias?

Alessandra Maestrini - Não, não maquio nada. Só pro trabalho mesmo. Só obrigada. Porque eu já maquio tanto que a pele recente. Já gastei tanto com tratamento de pele que tem que valer a pena pra não precisar maquiar.

 

Que tipo de tratamento?

De Fraxel e Roacutan (tratamentos a laser e oral, para pele com acne). Quando era adolescente eu sofria, tinha muita espinha. Era chamada de Choquito. Não tinha muitos amigos na adolescência. Foi uma época meio sofrida. Tinha bullying. Eu era gordinha, cheia de espinha, usava freio de burro (aparelho nos dentes), óculos fundo de garrafa. Nada ajudava também.

 

Quando aconteceu a transformação?

Quando comecei a fazer teatro, a trabalhar. Eu tinha uma obrigação profissional de estar apresentável (risos). Sempre fui mais ligada a essência que a superfície. Mas com o tempo a gente descobre que a superfície também integra a essência. Ajuda a chegar lá.

 

Profissionalmente você se define? É cantora, atriz ou uma atriz que canta?

Atriz e cantora. Uma interprete.

 

Quais suas entregas?

Sou uma pessoa entregue. Ao amor, ao humor, a arte. Tenho também um interesse muito grande na área da saúde em todos os sentidos, seja física, social, espiritual.

 

E os espetáculos musicais?

Comecei nos musicais. Eu estreei em “As Malvadas” em 1997 e já era um musical. Na escola americana (Alessandra passou a infância e parte da Adolescência nos estados Unidos), na qual aprendi a ler e escrever, a gente também fazia musicais. Desde sempre eu entendia que cantar e dançar era só mais uma faceta do ator. Com o tempo é que eu fui vendo que não era todo mundo que fazia, que podia, que sabia fazer ou até que queria. Mas pra mim era fácil. É só corpo e voz.

 

Todos elogiam a sua voz. É talento nato ou você estudou?

Acho que tudo isso junto. Eu vim com um instrumento vocal mais hábil que o normal e eu trabalho ferreamente e diariamente com ele. Estudando em casa, fazendo descobertas vocais, ritmos diferentes, me aprimorando musicalmente, vocalmente, emocionalmente. Estou sempre conectada com o aprimoramento.

 

Música dedicada ao deputado federal Marco Feliciano.

 

O que ou quem você tem ouvido ultimamente?

Eu ouço muito a Whitney Houston. Quando fui lançar esse disco, perguntavam qual era o meu estilo. E eu tinha muita dificuldade de dizer qual era o estilo porque eu gostava de cantar tudo. Mas quando eles perguntavam assim: Essa musica aqui, você cantaria como? Aí eu cantava, dizia o que gostava e eles falavam: Você é neguinha. Realmente me identifico e estou estudando mais esse lado soul. Tenho uma professora de canto, a Mirna Rubim. Se eu estou insegura, tenho aula com ela todo dia. Se eu estou super segura, não vou nenhum dia. Se tenho alguma dúvida, vou um dia. Mas eu faço muito estudo autodidata. Quando eu digo que o canto é um orgasmo é porque meus estudos vocais são baseados em instintos primais. Quando eu quero uma voz com mais liberdade, procuro o choro do neném. Quero achar maior entrega, tem a coisa do orgasmo. Quero aconchego, tem o segredo. Então eu parto das emoções. Por isso eu sou atriz e sou cantora. Ensino a minha cantora através da atriz e ensino a minha atriz através da cantora. A comédia é ritmo puro e a música, eu parto sempre da emoção pra chegar.

 

Falando em comédia você ficou mais conhecida após interpretar a personagem Bozena, no programa de comédia “Toma lá, da cá”. As pessoas ainda se surpreendem quando te veem cantando?

É natural esse espanto. Eu tive uma grande exposição com comédia e uma personagem muito forte. Hoje em dia eu tenho as duas coisas: gente que se espanta e tenho já muita gente que admira meu trabalho como cantora.

 

E Maestrini, o que significa?

Vem de Veneza, seria o coletivo de maestros queridos. Tenho música até no nome.

 

Existe algo que lhe falte artisticamente?

Eu componho também, mas não estudei teoria musical. Quando eu vou gravar uma canção minha ou de outro compositor, eu oriento bastante. No meu CD eu fiz isso. Mas as vezes eu sinto falta de conhecer mais teoricamente pra poder passar isso melhor. Eu não toco. Quem sabe se eu tocasse algum instrumento fosse mais livre pra compor. Nesse disco tem uma composição que é só minha, outra que é uma parceria com Ana Carolina e o Torquato Mariano. Tem também versões que eu fiz do inglês para o português e versões que eu fiz português para o inglês, como ‘Eu te amo”, do Chico Buarque.

 

E tem mais alguma parceria que gostaria de ter musicalmente?

Com Chico não seria nada mal. Ele já se emocionou comigo cantando, se arrepiou, chorou, deu bastante risada (assistindo a montagem da Ópera do Malandro) e com as versões também. Foi bastante elogioso e ele não aprova ninguém pra fazer as versões dele. Eu fiquei orgulhosa. Sou muito fã do Chico.

 

 

Você é disciplinada para os estudos?

Até já tentei ser. Mas sou muito eclética e, graças a Deus, todo meu ecletismo é atendido com bons convites. Costumo servir ao objetivo do momento. Agora estava fazendo todos os finais de semana fazendo “A Partilha”. Dei um tempo nos estudos vocais e me entreguei ao estudo do texto. Agora vou começar a turnê do show. Já sei que tenho que meter a cara nos estudos vocais para me reconectar com isso. Com o tempo essa conexão vai ficando cada vez mais rápida e automática. Antes eram horas e horas naquilo. Agora já está tudo mais assentado aqui dentro. Vamos reservar uma hora, meia hora pra esticar o braço e pegar aquilo ali. Ai já vira 15 minutos. Mas não sou tão disciplinada com horários. Gosto de ser mais livre.

 

Como é a sua relação com Miguel Falabella?

O Miguel uma vez me disse que eu sou ele de saia (risos). Nessa coisa da versatilidade, de “workaholic”. A gente tem muita coisa parecida e muita coisa diferente. Mas tem uma compreensão muito grande um do outro. Meu diálogo com ele quando me dirige é telepático. Ele escreve e eu já sei o que ele quer (risos). Adoro trabalhar com ele. É generosíssimo, é genial, amorosíssimo. Ele é incrível!

 

A comédia é o seu caminho?

Sim, eu costumo dizer que só o humor salva. Esse é meu ritmo interno. O jeito que eu olho para a vida. Teve vezes que eu estava em situações super emocionais, sofridas. Mas pra mim vem a piada junto. Eu enxergo com humor o mundo e a vida. Lembro uma vez que estava namorando uma pessoa mais nova. Eu contando para amigos, chorando, chorando, chorando. Tinha acabado de terminar (faz pausa para interpretar soluços e choro). “O fulano de tal disse que quem dorme com criança acaba acordando mijado”. E começava a rir no meio do choro. E não aguento (gargalha).

 

Aos 35 anos de idade preocupa ou essa coisa de namorar gente mais jovem?

Vou tenho 36. Eu não tenho problema com nada. Mais velho, mais novo, mais baixo, judeu, macumbeiro. Eu já passei por tudo. Estou em busca de um alienígena, um japonês, uma coisa assim pra integrar o currículo.

 

Fica mais inspirada quando está apaixonada ou não faz diferença para o trabalho artístico?

Tem as duas coisas. Tem a coisa da inteligência emocional. Lembro que uma vez estava namorando, era uma relação muito conturbada. Depois que terminamos, quando encontrei a pessoa, ela disse: ‘Você está linda. Emagreceu?’ Respondi: ‘Pra você ver: se estou contigo, fico feliz. Você me larga, fico linda. Você não tem como me machucar. Eu vou sempre ganhar (risos)’. Então é isso que eu falo. A gente pode ficar magra e linda porque está apaixonada. E, se você termina, fica magra e linda porque terminou. É tudo uma questão de objetivo (risos). Se eu estou apaixonada, uso como uma grande inspiração para o palco.

 

Você se sente sedutora?

Sim (diz, um pouco tímida). As pessoas falam muito isso pra mim, mas eu nem tinha consciência disso. Pra mim eu era eu e pronto. Até que comecei a ter problemas de amigos dizendo assim: ‘Ah! Você me seduziu e tal’. Amor, eu não te seduzi, você me achou interessante. Agora vou ser obrigada a dar pra você? Dá licença!

 

Qual sua arma de sedução?

O conforto pessoal, eu acho. Sempre achei estranho mulheres que ficam muito desconfortáveis para seduzir alguém. O conforto pessoal é algo que há de mais sedutor. Você sentir que a pessoa é muito a vontade consigo, se gosta e se sente plena. Isso é um sinal de felicidade, de poder, de liberdade, de troca. Se eu tenho um cara que está todo “amarradinho”, ele pode estar esteticamente lindo, mas o que é que eu vou fazer com aquilo? Até onde se pode ir com alguém tão limitado? O conforto consigo próprio é o que há de mais sedutor.

 

E fisicamente, o que te falam?

Meus amigos dizem que pareço uma boneca (fala fazendo biquinho).

 

Incomoda?

Antes incomodava. Depois descobri que era um elogio. Uma coisa meio perfeitinha. Não me incomodo mais, nem me sinto uma boneca. Deve ser por causa dos olhos, a pele branquinha quase transparente.

 

O que você espera dessa turnê de lançamento do álbum?

Quero levar uma mensagem de amor de criatividade e de “joie de vivre”, a alegria de viver. Uma das coisas que eu pedi a todos os produtores musicais que chamei foi para que todas as músicas tivessem ritmo, apesar de não precisarem ser dançantes. Que a pessoa esteja no mínimo ninada e no máximo sacudida. Eu falo que é um CD para comover e também para mover fisicamente as pessoas. É um trabalho que, ao passo que tem essa alegria de viver, tem a vontade de curtir a música. Ele tem virtuosismo que ultimamente não se tem visto muito no mercado brasileiro. Tem algumas pessoas que ainda fazem. Mas falta. Serve até de estimulo para que não se fique preguiçoso. A música brasileira anda meio preguiçosa. Se você tem um grande cantor tem que haver uma maior entrega. Emocionalmente falando. Normalmente a gente fica meio capenga nessa área. Às vezes a música tem uma letra interessante, mas se você colocar para um estrangeiro ouvir ele acha tedioso porque musicalmente é fraco. Ou o contrario, porque o ritmo balança a pessoa, mas a letra é uma bobagem.

 

Acha que os artistas se acomodam?

Eu diria que é preguiça mesmo. Claro que tem essa coisa da pouca instrução da maioria dos brasileiros, pouco acesso, de formação e informação. Não é de hoje que todos os governos fazem de tudo para cada vez mais a gente seja menos instruído. Com isso o público fica cada vez menos exigente. Daí o artista que tem uma instrução maior, uma compreensão maior, se ele não abraça o compromisso com o ofício, acaba ficando preguiçoso. Se eu fizer até aqui já está de bom tamanho. Mas tem um novo movimento que está mudando isso, e tem a ver com os musicais. Eles chegaram mudando o teatro. Cobrando qualidade dos espetáculos e agora já estão mudando o cenário da música também. O Daniel Boaventura, por exemplo, você pode até gostar ou não, mas não há como negar que ele canta bem e que é uma cara com técnica. É uma pessoa que está claramente comprometida com a qualidade. A Simone Gutierrez que também vai começar a fazer um trabalho de música agora é uma pessoa que tem ferramentas para isso. O Charles Moeller e o Cláudio Botelho, e até a Time4fun e começaram a revolucionar o mercado. Eles criando espetáculos e a Time trazendo que espetáculos de fora que já tinham uma qualidade internacional. Com isso não havia espaço para se fazer musical meia-boca

 

Todo mundo pode cantar?

Qualquer um pode cantar, mas nem todo mundo vai cantar bem. Assim como qualquer pode dançar, nem todo mundo vai dançar tão bem. Qualquer um pode falar, nem todo mundo fala tão bem. Qualquer um pode andar, nem todo mundo desfila. Mas, de qualquer forma, essa busca pela qualidade já mudou o teatro no Brasil. Hoje a gente é terceira maior potência do mundo em produção de musicais, a segunda é a Inglaterra e a primeira, os Estados Unidos. Agora estamos começando a mudar o cenário da música. As pessoas vão comparar e perceber.

 

 

Texto: Eugênio Bezerra

Fotos: Andre Arruda

Edição de moda: Alexia Costa

Editor-chefe: Cristiano Félix

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