Blubell: uma flor no meio da selva urbana

29.09.2014

 

O número é implacável diante da pouca estrutura viária e da paciência em falta: são mais de 25 milhões de veículos circulando por São Paulo. Ainda que exista rodízio, não há perdão, ninguém escapa, nem mesmo quem sequer pega no volante. Tampouco as divas estão livres. Contra as regras, o telefone celular está sempre ao alcance das mãos no meio do engarrafamento, ajudando passar o tempo e comunicar os atrasos.

Minha caixa de entrada soou. Numa mensagem a Blubell dizia que não iria conseguir chegar ao lugar que marcamos um encontro no meio da noite e que a cafeteria fecharia as portas pouco depois. Tomou as rédeas, propôs que eu fosse até sua casa no Butantã e eu, também atrasado, aceitei o convite de pronto.

Isabel Fontana Garcia não dirige. Blubell não precisa dirigir. As duas são uma só pessoa em quase todo os momentos. Isabel só assume uma personalidade mais glamurosa nos palcos e momentos em que encontra seu público. Eu a conhecia dos ainda raros álbuns de jazz produzidos com qualidade no Brasil congestionado por música de má qualidade.

O combo atraso e mudança de endereço lhe deu mais tempo, aproveitado num banho. Ela abriu o portão de casa e me recebeu com o cabelo ainda molhado. O perfume de jasmim tomou conta de todo o espaço. Cruzamos o jardim recém-tratado pelo jardineiro e, enquanto me guiava, ela tomou o prumo outra vez ao fazer a primeira pergunta daquele momento de entrevista: "Esse perfume é muito bom, você não acha?"

Impossível não apreciar um jasmineiro em flor e de uma mulher que é ora persuasão, ora delicadeza. Impossível não se impressionar com uma mulher que tem vaidade aparentemente abaixo da média e se deixa fotografar sem maquiagem em tempos em que isso só é possível em desafios que viram meme no instagram. "Posso passar só um batom" foi a única reivindicação. 

 

 

Blubell é uma jovem que cresceu ouvindo Billie Holiday e Ella Fitzgerald por influência do pai, que colecionava discos de jazz, e tem como compositor preferido o Cole Porter. Também uma mulher que é dona de um nariz empinado e que ganha boas críticas a cada novo álbum que lança, desde o independente "Slow Motion Ballet", de 2006, até o "Diva é a mãe", feito pra se desfazer do título elogioso, mas ingrato.

"Esse título de diva não combina comigo. Pra mim foi mais um fardo. Eu me sentia meio que na obrigação de estar linda, maravilhosa o tempo inteiro. Na vida real eu sou muito moleca. Quando me dei conta de que glamour é uma coisa que jamais deve ser levada a sério, isso foi libertador pra mim. Aí eu me dei o direito de fazer um álbum cheio de humor, cheio de ironia, que é como eu sou de verdade. Estou conseguindo a cada disco chegar mais perto do que eu sou de verdade."

Blubell garante: se sente indo participar de uma festa à fantasia quando é noite de show. E nisso a indumentária tem grande peso. Ela se veste de diva e garante que isso, além da massagem no ego, é um sinal de respeito. "Lógico que eu gosto de me arrumar e ficar linda, mas glamour pra mim é ter um dia pra fazer exercício e sair pra passear com o cachorro. Ou fazer uma massagem, dormir oito ou nove horas. Eu tento dormir bem porque gosto de praticar esporte e ficar bem disposta. Sem isso, acabo mal humorada."

 

 

"Protesto", a faixa que abre "Diva é a mãe", cantada no Sesc Pompéia.

 

Todas as faixas do mais recente álbum são dela: letras e melodias. É um disco autobiográfico, portanto. Blubell tem eloquência, mas garante que só sabe falar da própria vida. Isso não soa como um discurso único, mas reforça algumas referências, como a da escritora Adélia Prado, conhecida por colocar encanto e perplexidade no cotidiano, o que nada mais era que sua forma de enxergar o que para outros mortais é banal. Adélia já dizia que colocamos nossa digital em tudo o que fazemos. Isso para Blubell chega a ser um aconchego.

"Estou cada vez mais convencida que até quando a gente divide tristezas a gente traz felicidade pra outra pessoa porque isso traz um acalanto", diz, antes de seguir: "É difícil ter um disco de verdade que é feito por outra pessoa. Por mais sintonia que se tenha, é difícil alguém descobrir as palavras que devem sair da sua boca. Há alguns discos perfeitos que dão certo, como é o último da Gal (Recanto, o trigésimo da carreira), que foi todo composto pelo Caetano. É nítido que aquelas palavras tem de sair da boca dela e isso é a maior prova de amizade que existe. Eu tive até a felicidade de falar isso pra ele e sei que é um talento muito raro."

 

"É difícil ter um disco de verdade que é feito por outra pessoa. Por mais sintonia que se tenha, é difícil alguém descobrir as palavras que devem sair da sua boca."

 

Ainda segurava um café que Blubell tinha acabado de passar quando a ouvi suspirar pela primeira vez. Na noite anterior àquele encontro, a cantora tinha feito em espetáculo em Porto Alegre em homenagem a Dorival Caymmi. Cantou com quatro amigas: Alice Caymmi, Camila Pitanga, Céu e a baiana Emanuelle Araújo. "A semana foi cansativa, mas o show de ontem me deixou muito feliz. O teatro estava lotado, com gente saindo pelo ladrão. Ainda sinto o dendê correndo nas minhas veias", comentou. 

Viajar faz parte da rotina de qualquer músico, mesmo os que vivem em São Paulo e podem contar com uma cena mais efervescente. Comentei isso e ela retrucou: "Ontem mesmo estávamos falando sobre isso, antes do show. Até São Paulo tem limite. Claro que é uma cena mais eclética, mas chega um momento que não há tanta opção de onde tocar. Até porque todos nós que moramos aqui vivemos num centrinho expandido de São Paulo. Chegar na Zona Leste demora mais que ir à cidades da região metropolitana", justifica. 

Viver no maior centro urbano e cultural do país faz causa e efeito pra poesia. As músicas surgem em momentos de silêncio e, pra ela, muito no banho. "Estou preocupada comigo. As vezes chega o meio do filme e eu quero  pegar o telefone e responder e-mails e leio menos do que o que eu lia. Cada vez mais estamos todos com déficit de atenção, querendo fazer cinco coisas ao mesmo tempo. A gente não se segura nem quando a coisa é interessante. É preciso saber contemplar o momento e aprender a etiqueta do celular."

Ela já falava disso em "Eu sou do tempo em que a gente se telefonava", disco de 2011. "Como uma pessoa normal. Um pouco à cima do bem e do mal. Um tanto temperamental. Fundamental" diz a décima faixa do disco que tem uma das minhas músicas preferidas, Triz, além de Chalala, uma mais comercial que virou tema de abertura da série Aline, da Rede Globo, e "What If", que entrou pra trilha sonora do filme Bruna Surfistinha.

Blubell cresceu rápido e arrancou elogios de Marisa Monte. Mostrou isso ao gravar um CD com a banda Black Tie. Um bom exemplo desse álbum é a faixa "Blue" - que eu acho que combina bem com o início desse texto. "De paz no meio do caos".

 

 

"Blues" no estúdio Showlivre.

 

E, pra nosso deleite, tudo indica que mais mudanças virão. Blubell vive um novo relacionamento desde dezembro e agora divide teto de casa com Émerson, um produtor musical muito ligado ao rock, que também faz jingles comerciais e de vez em quando apresenta a ela algo novo, recém-gravado, para contrastar com a vibe anos 1940 que ela vive enquanto pensa no próximo disco, que já está quase pronto.

 

 

"O clima do estúdio é muito importante. Eu queria me hospedar num lugar e gravar. Um lugar que me deixe 24 horas pensando naquilo, num tipo de internato." É bem possível que eles passem naturalmente a produzir juntos, talvez até dentro daquela casa no Butantã, onde quadros ainda precisam ser desembrulhados e encontrar paredes, já existe um estúdio montado e onde o trânsito da marginal não chega a afetar.  

 

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