A floração de Ara

27.09.2014

 

A artista plástica Ara Teles acaba de sofrer uma ruptura. Mas essa palavra que carrega invariavelmente um sentido catastrófico já não assusta quem vive de arte e precisa se submeter e consolar diante das intempéries de tempo e espaço em mutação. E foi assim que ela admitiu a desconstrução para reconstruir o novo: acaba de largar a direção de arte de uma agência de publicidade para se dedicar inteiramente aos pincéis e misturas improváveis de cores.

"Eu tive de aceitar me perder um pouco até perceber que tirar a cor natural das coisas pode ser um modelo mais interessante. Hoje vejo graça em colocar mais camadas na pele, mudando o pigmento natural. E isso aconteceu também com o meu traço. Abandonei o modelo certinho pra encarar corpo despedaçado, o que acho que é um amadurecimento."

As linhas humanas que antes eram herméticas foram substituídas por entrelaçados. O trabalho de Ara pode ser considerado uma reflexão sobre o gestos, baseada nas emoções. E isso só se consegue aguçando a percepção.

"O nosso corpo inteiro dialoga. Vamos além da palavra ainda que achemos que não ou não queiramos. É um diálogo secreto, mas que revela mais que qualquer outro. Quando você está chateado ou inquieto é natural fazer girar os dedos. Ou você franze a testa ou balança o pé. O que não dá pra esconder e que está no campo das emoções é o que eu busco captar e colocar na tela", conta.    

 

 

Essa fase faz lembrar muito a pesquisa de um dos mais célebres historiadores da arte do século XX. Em The Story of Art (A História da Arte), publicado pela primeira vez em 1950, o austríaco Ernst Hans Josef Gombrich lançou algumas das maiores reflexões sobre o renascimento e a mudança dessa escola da estética dita perfeita ao dizer que "o problema é que gostos e padrões de beleza variam muitíssimo."

Gombrich afirmava que apenas os principiantes gostam de apreciar a habilidade dos artistas que contribuem para a reprodução de um mundo visível tal como é. E que são dignas de admiração a paciência e a habilidade de retratar com realismo, mas essas obras também podem causar aborrecimento ao parecer incorretamente desenhadas aos olhos da arte moderna.

"De fato, não há mistério nenhum a respeito dessas distorções da natureza, sobre as quais ainda ouvimos queixas e protestos envolvendo a arte moderna. Quem lê histórias em quadrinhos sabe tudo em relação a isso. Sabe que, às vezes, é certo

desenhar coisas de um modo diferente do que elas se apresentam aos nossos olhos, modificá-las ou distorcê-las num ou noutro sentido. [...] Se um artista moderno ‘desenha’ alguma coisa à sua maneira, está sujeito que o considerem incapaz de fazer coisa melhor. A questão é que estamos armados de preconceitos em relação ao que deva ser ‘Arte", escreveu.

Ara propõe a mesma ruptura que a afetou. "A principal característica do meu trabalho é o entrelaçado. O corpo é despedaçado sob um olhar caótico e de desordem, mas por ele percorre uma linha que sempre fecha o ciclo. É feita, de fato, uma unidade. É esse desafio: desconstruir e unir os cacos novamente, mostrando que o caos pode ser controlado", reflete a artista.

 

Dedicação exclusiva 

    

Eu acho admirável ver o esforço da Ara em se encontrar depois de se estabelecer. Largar a publicidade, mesmo estando no coração econômico do país, se embrenhar num ateliê ou ficar em casa pintando com gatos ao redor. Nos conhecemos há mais de dez anos e nos últimos antes de ela sair de Natal para viver em São Paulo, compartilhamos cafés e alguns trabalhos. Fizemos revista juntos e comprei um de seus quadros para o meu apartamento. Olho pra ele até hoje e lembro dessa época. 

Quando falo em reencontros quero dizer mais que dividirmos cafés na Terra da Garoa. É bom vê-la reencontrando um talento que é nato e pode ser facilmente percebido. Ara é autodidata. Pinta desde sempre e buscou o digital em todas as partes, inclusive no Instituto Europeu de Design. Conciliou o estudo com o trabalho em quatro agências ao longo de quatro anos, sendo a última passagem pela Disney.  

Ara não é "modelo pronto" e nem poderia porque é justamente isso o que mais a incomoda na publicidade. Também não é agressivamente comercial como devem ser os publicitários que querem se manter num mercado milionário. Ara reconhece como seus outros valores e sua arte começa a ser percebida e valorizada também. Aceitar a ruptura como causa e efeito da criação artística é louvável e me faz continuar na torcida. 

Quem quiser conhecer mais sobre a Ara Teles pode entrar no site aqui. Ela também tem uma loja virtual com algumas peças e em outubro vai ter trabalhos mostrados na Casa Cor Rio Grande do Norte. Ou seja, vai voltar pra nós por uns dias. 

 

 

Texto e Fotos: Cristiano Félix

* Reportagem publicada originalmente no Novo Jornal.

 

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