Made by… Feito por Brasileiros


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As ruínas do Matarazzo, como era conhecido o Hospital Umberto 1º, erguido em 1904 numa área de 27 mil m2 na Bela Vista, pertinho da Avenida Paulista, recebem temporariamente a mostra "Made by… Feito por Brasileiros". É entre as paredes carregadas de história que se pode conferir, gratuitamente, a obra de mais de cem artistas.

Interditado pela Vigilância Sanitária em 1993, o hospital foi abandonado e os edifícios tombados até que, depois de uma custosa negociação, o grupo Allard, do americano de origem francesa Alexandre Allard comprou pela bagatela de R$ 117 milhões para a construir um hotel de luxo que vai levar a assinatura do arquiteto Jean Nouvel e outros projetos ainda numa espécie de limbo ou, pelo menos, mantidos em absoluto sigilo.


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Enquanto tudo é preparado para começar a obra, outro francês foi escalado para fazer a curadoria da mostra que é também uma forma de despedida. O trabalho de Marc Potties é incrível, mas contou com uma cifra nada modesta: R$ 15 milhões.


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Os jornais publicaram que parte da classe artística não gostou da idéia de preencher os espaços de uma forma saudosista, tampouco do que seria um tipo de exploração comercial da arte. De fato a mostra quer chamar a atenção para o lugar e valorizá-lo, mas seria muito estreito pensar que ele, tão imponente e abandonado no coração de São Paulo, em algum momento poderia ser esquecido.


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Na exposição não há cronologia, mas alguns temas ajudam a entender o que se passou no período de funcionamento da unidade médica, sem esquecer de dar licença poética aos artistas. A impressão é de estar dentro de um prédio mal-assombrado, mas não querer sair.


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Um dos nomes estrelados é o de Vik Muniz. E a instalação montada por ele não poderia deixar de causar impacto. Ela conta a história de Agenor Andrade Filho, um paciente hipocondríaco que em março de 1958 deu entrada se queixando de dores, passou por vários exames e nada foi constatado. Na semana seguinte ele voltou com febre alta, insuficiência em vários órgãos e foi direto pra sala de cirurgia. Ele não resistiu a uma infecção generalizada.

Duas pedras foram retiradas dos rins e postas em um recipiente, mas, segundo documentos achados no local, o legista não encontrou a materialidade dos cálculos se não um ruído que saia de dentro do vidro. A história faz o visitante não apenas pensar no poder da mente para produzir doenças psicossomáticas, mas que isso pode ser feito fora do corpo. É passar por ali e sair pensando que outras histórias que aparentemente tiveram fim naquele corredor, continuam por lá.


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No espaço criado por Lucas Simões eu me senti num necrotério sombrio. Uma fumaça de gelo seco toma toda a sala, não permitindo ver um palmo diante do nariz. É, como muitas das instalações, multisensorial. Passa-se a das passos lentos, ter cautela sobretudo com a incerteza.


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Zé do Caixão também participa. Assim como Nuno Ramos e os trabalhos diferentes da Tribo Warli, da Índia, e da top Beatriz Milhazes, que se apresenta dançando ao lado da irmã. Sem falar na instalação primorosa de uma das nossas maiores artistas contemporâneas, a Joana Vasconcelos. Ela é gigantesca, ocupa toda a capela. É feita de enchimento, tecido, e adornos como franjas, miçangas e lâmpadas de LED. Foi construída com o apoio das Havaianas.


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Além da exposição ser de encher os olhos, as ações promocionais me chamaram muita atenção. É impossível passar por aquele lugar e não se sentir envolvido e compartilhar muitos sentimentos. Falamos de ruínas, mas de vidas também. De um espaço onde existia dor e o ar continua denso, mas de um momento de transformação.

A Natura percebeu o envolvimento que as pessoas podiam ter com aquela história e fez uma sala para que elas pudessem deixar seu carinho em forma de beijos. Sim, inclusive homens têm aderido e eu, claro, participei. Acho que nem me saí muito mal pra a primeira vez que passei um batom.


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É mais um tapa na cara de quem ainda não sacou que existem formas criativas de envolver uma proposta comercial em um evento de arte, de forma orgânica. Por todo esses motivos a mostra é a melhor em cartaz em Sampa. Quem puder, venha conferir!


Quem quiser ver a turma toda que está por lá pode clicar aqui.


Texto e fotos: Cristiano Félix.

#arte #sãopaulo #arquitetura

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