Horizontais

11.08.2014

 

Uma régua descansada sobre a mesa de trabalho, uma trena usada para medir novas cortinas. Fotos amareladas, com toda a família espremida nos cantos, querendo estar naquele registro. O mar na minha janela. Todas as formas hoje se resumiram a uma e vejo tudo horizontal, com a lente de aumento da contemplação que só a distância oferece.

Os dígitos pares são os meus preferidos, das divisões iguais e do sentido de compartilhar sem qualquer vantagem. Por isso mesmo um número ímpar de anos nunca me apetece comemorar, mas ainda esses aniversários são como uma espécie de marco regulatório, um ponto para pensar, uma sombra para sentir coisas que a memória vai gastando pelo caminho.

Depois da última semana de muito trabalho e noites incompletas, uma epifania: hoje é o dia de lembrar de uma década, do tempo em que deixei a casa dos meus pais e a mesa sempre posta. Um grito de independência, como todo, de isolamento. A busca de um espaço importante para ouvir silêncios e fazer novas leituras.

Sou, de três, o filho do meio dos meus pais, o que ouve Bach e rói as unhas, como costumeiramente repito. Mas que agora não vê mais motivo para assanhar os cabelos, já que as unhas estão sempre roídas.

Crescemos sob as mesmas influências. Tenho a impressão de que poucas individualidades foram percebidas nos tempos de criança. Fomos preparados para fazer as mesmas escolhas e ter o mesmo fim, o que poderia ser melhor do que é, mas apenas não foi. Ao invés do excesso, minha inclinação acontece invariavelmente pela ausência.

Pouco conversamos sobre nossas diferenças. Éramos adaptáveis e nos faltava comunicação, por assim dizer. Havia uma mulher extremamente dominadora, fazendo escolhas e tomando decisões, e um pai que nada tinha de herói.

Pode ser duro, mas eu nunca quis ser igual a ele. Bastava que tivéssemos semelhanças físicas. E ele ter me dado o próprio nome, fazendo de mim um ser composto. Virei Cristiano Félix como qualquer José Inácio e João Antônio, sem nunca ter ganas de usar um sobrenome. Não pensei no mesmo formato de família, sequer na mesma profissão. Por outro lado, acho que já fiz todas as outras conjecturas e, para mim, escolher o ofício do pai, aceitando os riscos de repetir e da comparação inevitável, é um ato de extrema admiração. Isso não existia.

Era quase hora do almoço. A varanda tinha as mesmas cadeiras brancas e o jardim ao redor um verde que só é possível encontrar quando é regado nas primeiras horas da manhã, quando se madruga. Duas doses, uma de cerveja e uma de uísque e veio a proposta meio acanhada. Meu quarto naquela casa, que parecia aumentar de tamanho, continuava vazio.

Faz quatro anos dessa história surgida durante uma visita de cortesia. Vou à casa dos meus pais como frequento a de qualquer amigo e deito os meus olhos, pra me deixar maravilhar. Eles agora são avós, o espaço volta a ter uma criança fazendo barulho e algazarra e eu sinto cada vez mais vontade de ter esse mesmo frescor juvenil, um filho, ser admirado por alguém, mesmo sabendo que isso nem sempre acontece de pronto.

Aliás, hoje acho que também cheguei a outra conclusão. A data do aniversário pode ser a mais feliz e pode não ser. Posso receber telefonemas e comemorar. Ou não fazer nada disso. Quando se tem amigos por perto qualquer dia pode ser surpreendente. E é melhor que seja assim.

 

Dos anos 1980, com meu pai e minha irmã, Catharine.

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