Kiko Zambianchi sem caretice

04.08.2014

 

Muitos ensaiaram e nenhum conseguiu explicar. Afinal, o que é ser normal? De todos esses exames, só uma certeza fica: “a normalidade não provém de nenhuma definição racional, mas de uma certa relação entre o indivíduo julgado e o grupo que se autoriza a julgar.” A conclusão do cientista francês Jaques Testar põe em xeque qualquer nova tentativa de elucidar fatos e pessoas, antes de olhar friamente o que são e seu julgador. Olhando Kiko Zambianchi de perto, dá pra entender suas possíveis loucuras e seus feixes de reinvindicações.

 

Kiko tira os tênis e saca o violão, sua arma há pelo menos três décadas. É cantando que se expressa. Aliás, orgulha-se de fazer música até hoje, apesar de ter lançado seu último álbum de inéditas mais de dez anos atrás. Parece rejeitar se apavonar pelo sucesso, como o vivido nos idos dos anos 1980, e ter satisfação em ver suas novas palavras em outras bocas. E elas são muitas. Mais de 80 artistas já gravaram suas canções, como mais recentemente Beto Lee, que, no ano passado, recebeu o Grammy Latino de melhor disco de rock com “Celebração & Sacrifício”, que tem três faixas compostas por Zambianchi.

Seria normal não querer pra si mais notoriedade e reconhecimento profissional? Sigmund Freud poderia perguntar, assim como fez com outras esquisitices antes de atestar que a intimidade do outro, que é diferente de nós, causa estranhamento. Ou perguntaria Caetano Veloso, que assumiu em “Vaca Profana” saber ser careta – ou forjar ser – e cantou uma das maiores verdades sem explicação: “de perto ninguém é normal”. Simplesmente porque não se pode ser.

Com a força da expressão de Caetano, Kiko é direto: não vê outro nome surgir na música brasileira. “Estamos vivendo de bizarrices, de música e gente bizarra, com pouca inteligência. Para o país isso é horrível. Mas o Brasil tem essa tendência de partir pra ‘bundalização’. O país sempre investe nosso dinheiro em bunda e a gente termina fazendo folclore”, dispara.

Folclore, registre-se, é como ele prefere chamar o que de forma politicamente correta seria um regionalismo, como o forró nordestino, o axé baiano ou simplesmente o som de tecnobrega da paraense Gaby Amarantos - a quem chama de Amarante, por simples desconhecimento e desinteresse.

“Eu acho que esse negócio de folclore é imposto pelos americanos. Eles querem mais é que a gente fique com a banana na cabeça. Por que o chique tem de ser a Lady Gaga ou os The Rolling Stones e a gente tem de colocar a bananinha na cabeça? Não sei também o motivo de não fazerem só blues. Sei, sim. A gente gosta de dar espaço pra eles e vamos continuar assim. Afinal, Legião Urbana vendendo mais que Tina Turner nunca foi interessante pra gravadoras internacionais.

 

Bicho esquisito

 

Kiko Zambianchi não gosta apenas de rock, outro registro. Admira a música de Seu Jorge, do Criolo e outros mais. “Só não pode ser pagode”, adverte. Além disso vive outra situação que pode parecer punk: mora na mesma casa com a ex-mulher e a atual esposa. Alega que elas são amigas e propuseram e pra ele foi melhor, por isso é que aceitou a ‘economia’.

Na mesma casa, no Pacaembu, em São Paulo, cria dois cachorros e três gatos. Um deles, alaranjado, está sendo ensinado a falar seu nome. Mia em duas parte, como se pronunciasse ‘Kiko’. É motivo de orgulho e não raramente o músico comprova essa excentricidade com um vídeo, gravado do seu tablet.

A câmera fotográfica também sempre é carregada. Depois da entrevista, Zambianchi mostra alguns estudos ao mesmo tempo que se desmancha ao falar das filhas Ana Júlia e Giovana, frutos da relação com Ana Claudia. Enquanto uma toca e canta composições próprias, a outra, cineasta, registra em vídeo.

De espaço barulhento, aliás, ele parece ter cansado na época áurea do rock brasileiro. Kiko, que já teve em casa ares ainda mais introspectivos, como quando dividiu apartamento, em Perdizes, com o escritor Marcelo Rubens Paiva, hoje prefere se apresentar em teatros a casas mais underground. “Não me considero nem quero ser elite, mas diante das coisas horrorosas do nosso mercado eu acabei virando um pouco. Termina que agora eu gosto mais de teatro porque o pessoal vai pra ver o show, não é pra paquerar, nem pra beber. E se fizer barulho, outros abrem a boca e pedem silêncio.”

 

 

“Eu acho que esse negócio de folclore é imposto pelos americanos. Eles querem mais é que a gente fique com a banana na cabeça.”

 

Há outra prova de que não precisa ser rock para agradar. Em meados dos anos 2000 Kiko trabalhou com hip-hop e estava de malas prontas para morar definitivamente em Nova York. A nova carreira musical estava dando certo – até uma versão de “Deu a Loka” foi transformada em inglês, ganhou o título de “Right Away” e terminou gravada pelo rapper norte-americano Lil Scrappy, produzido por 50 Cent. O plano, porém, acabou frustrado depois de quatro anos de parceria com o produtor David Aaron Shayman, conhecido como Disco D, que morreu precocemente com então 27 anos.

“A gente se conheceu em São Paulo e logo começou a trabalhar junto. Ele era um editor e na época pagava caro pra recortar as músicas dos outros, pra fazer sampler. Aí eu comecei a fazer as levadas e o lance foi dando certo. Mas o cara era bipolar. Deixou de tomar remédio, achou que estava bem e acabou se matando.”

Era David quem abria as portas dos trabalhos nos Estados Unidos. Zambianchi nem pensou em continuar o projeto. “Acho que aprendi um pouco dessa parada, mas não vou continuar fazer isso fora, nem aqui. Acho que o pessoal não iria entender, sou branquinho demais”, brinca.

 

 

O som bilíngue – que ganha mais espaço na cena musical contemporânea – também está fora de questão. “Isso é falta de referência. Os tempos são muito diferentes de décadas atrás. Quando alguém ia montar uma banda, podia olhar pros lados. Atualmente quem quer fazer um trabalho mais elitizado precisa olhar pra fora. Por aqui aparece um cara cantando “Para nossa alegria” e acaba tomando o espaço de um artista que tem um disco bom.

Apesar disso, não apenas pedras rolaram nesse caminho. Algumas coisas progrediram. Mesmo o momento sendo de intensa fiscalização para combater a insegurança dentro das casas noturnas do país, por causa do trágico incêndio na boate Kiss, de Santa Maria (RS), a estrutura dos espaços para shows se desenvolveu. “Do jeito que as cidades cresceram, estão mais maquiadas e bem tratadas, as boates melhoraram. Infelizmente ainda cuidam mais da estética do que do som. O carpete é mais importante, mas temos espaços bons, confortáveis e seguros.”

Até o final de deste ano talvez em alguns deles esteja tocando um som novo. Kiko Zambianchi tem um projeto: compor e convidar bandas e intérpretes a emprestarem suas vozes. Voltando aos julgamentos, pense em como seria um time com Luiza Possi, Dinho Ouro Preto, Seu Jorge, Pitty e o grupo Cachorro Grande. Agora é esperar pra ver.

 

 

Texto: Cristiano Felix

Fotos: Ramón Vasconcelos

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